quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Juiz, O Psicanalista e o Estado de Exceção


O juiz, o psicanalista e o estado de exceção


Palavras cortam feitas lâminas.
Sentenças e atos são decisões que recortam o mundo das normas e dos fatos. E nada mais será como antes.
Saindo da sala de audiência ou do consultório do psicanalista, o demandante sabe que algo aconteceu ali, algo que rompeu com a mesmice, com a rotina, com o dia-após-dia, com o previsível, o explicável, com a ordem estabelecida.
Juiz, se for juiz e não um mero aplicador de leis, sabe do hiato entre o fato e a norma, entre a regra e a exceção, entre a teoria e a práxis, a validez e a eficácia, a legalidade e a legitimidade.
Psicanalista que é psicanalista estudou as falhas na linguagem, falhas essas, por onde transparece o inconsciente, como nos ensinou Sigmund Freud.
Sabe da radical diferença entre a cultura e o sujeito, entre o masculino, escravo da lei edípica que todos são obrigados a cumprir, e o feminino, a exceção, a invenção, como ensinou Jacques Lacan.
Decisões. Juízes e psicanalistas tomam decisões.
Cometem atos, muitas vezes dolorosos, que implicam os sujeitos, que os responsabilizam.
A decisão do juiz, da jurisdição, diz da justiça que só se faz por meio da força da lei, como diz Jacques Derrida.
Essa força está instalada no direito, pois sem a força da lei, a norma resta letra morta. Os revolucionários franceses fizeram da força da lei sua pedra angular. Sem força não há lei, não há ordem, não há direito.
A justiça contrasta com o direito. Situada no hiato entre a lei e o mundo vivo, entre a norma e os fatos, desmistifica o direito, desconstrói sua universalidade, seu cálculo, sua linguagem neutra. Justiça é feita caso a caso.
A decisão do juiz é sempre subjetiva. Sujeito da história, o juiz faz história, porque cada decisão rompe o sistema do cálculo normativo para criar algo novo: uma nova situação, um novo direito. Como não consegue agradar a gregos e troianos, a justiça provoca dessimetrias e, portanto, mudanças violentas no estatuto das partes.
Assim, o ato do juiz, a decisão judicial, desconstrói constantemente o direito, ele próprio fruto do ato da força.
Justiça nos angustia.
Desconhecida por natureza, infinita e incalculável, ela é “rebelde à regra”, permanece um “desejo no horizonte”, como quer Jacques Derrida.
O juiz que é juiz é um rebelde. Não bate o martelo em cima da mesa para restabelecer a ordem, mas cinde solitariamente e solidariamente os arrazoados das partes.
Revoluciona o mundo simbólico da norma, desmistifica o imaginário pelo qual “a cada um se atribui o que é seu” e, pelo qual, “a justiça tarda, mas não falha”.
Aplicando a justiça, o juiz toca o real, aquilo que “não tem lei”, como diz Jacques Lacan. Assim, a justiça situa-se na falha da intersecção entre os três registros do nó borromeano.
É sempre exceção, algo que excede. Por isso mesmo, nunca pode ser feita para todos, permanece um desejo vivo.
Carregando consigo a violência, o direito está prenhe de seu próprio paradoxo: force de loi (força da lei) para os franceses, Staatsgewalt (violência do Estado) para os alemães.
A garantia da lei é a não lei, a força, o estado de exceção.
Este pode ser um Estado de exceção com “E” maiúsculo.
Pode ser também um estado de exceção com “e” minúsculo. Dependendo de nossas escolhas políticas (Carl Schmitt que o diga!), o Estado de exceção transfere para um ditador a soberania, a capacidade de decidir na zona cega da validade da norma para, desta maneira, garantir a ordem.
Por outro lado, se acreditarmos às palavras de Giorgio Agamben, pela lógica do estado de exceção, é permitido ao povo favelado cavar dutos de água potáveis clandestinos e puxar luz com gambiarras na rede elétrica.
Diante da necessidade, a norma é suspensa. O que vale é a (não) lei da sobrevivência. Justiça se faz pela rebeldia. E as falhas na rede de água potável corroem o morro.
A falha é a razão de ser da psicanálise desde Sigmund Freud. Afasias, atos falhos, chistes, sonhos e sintomas, enfim, o mau funcionamento do nosso aparelho de linguagem, são, como diz as portas de saída do inconsciente habitado pro desejos recalcados pela culpa que a lei edípica nos proporciona.
Para Sigmund Freud, nossa cultura constrói-se a partir do recalque de nossas pulsões de vida e de morte. O resultado é um tremendo mal-estar perante a cultura.
Para espantar o mal-estar fazemos de conta que encontramos na cultura soluções para nossos males.
Para cada doença um remédio, para cada ato criminoso um tipo penal, para cada problema uma solução.
Assim nos ensinam nas universidades.
As contradições na sociedade resolvem-se pela síntese dialética, divulgam os revolucionários marxistas. A cultura e sua ordem nos contêm. Exigem um preço alto: neuroses, psicoses e perversão nos lembram como a ordem cultural é furada.
Para além do Édipo, o buraco é mais embaixo.
Se para a psicanálise cada caso é um caso, a classificação dos pacientes em neuróticos, psicóticos e perversos pode apenas auxiliar o psicanalista a realizar algo que o aproxima do juiz: tomar uma decisão.
Decide sobre a questão se o paciente é analisável, decide os rumos que o caso poderia ter seu direcionamento, decide, enfim, o ato que suspende a fala do paciente e que o desloca do lugar onde se encontra.
Para tanto, tem que ser rebelde à lógica, desconfiar da norma e cortar com a lâmina da palavra o discurso estabelecido.
O psicanalista deixa desnudo o estado de exceção, estado sem lei, para dar passagem ao desejo.
Para o psicanalista todos os pacientes são diferentes, são como se fossem uma mulher que, avessa á estandardização, constantemente se inventa, como diz Jorge Forbes.
Quando um cidadão preterido em seus direitos provoca o poder judiciário, o juiz decide, embora na base da lei, em nome da justiça, eterna rebelde à regra.
A responsabilidade é do juiz e do sujeito responsabilizado, nesse caso, pelo Outro.
Quando um paciente procura um psicanalista, ele decide provocado pelo psicanalista.
Radicalmente diferente dos demais, o paciente, o sujeito da psicanálise “pica” seus conceitos e fantasias e tem, assim, a chance de reinventar, cioso de sua responsabilidade diante do futuro. No fundo, é ele quem sabe.
Por isso, a decisão, o ato de cortar com palavras o status quo, é dele.

Dra. Dorothee Rüdger é Psicanalista, Advogada e Escritora

domingo, 19 de agosto de 2012

Vale a Pena Crescer ?


Vale a pena crescer?

Para que as pessoas crescem?
De acordo com Freud, para serem capazes de amar e trabalhar.
Isso pode parecer uma tarefa simples, mas nós sabemos que não é.
São muitos os perigos nessa jornada que começa no nascimento e vai até a morte.
Pensem em suas próprias histórias, em tudo que vocês passaram tentando crescer e me darão razão.
A coisa não é fácil.
Muito tem sido escrito sobre o desenvolvimento humano.
Sob a ótica da psicanálise nós crescemos, com a ajuda das pessoas importantes ao nosso redor, aos trancos e barrancos, enfrentando inúmeros conflitos que devem ser solucionados em cada etapa.
Esse crescimento é muito complexo e ocorre em múltiplas dimensões, entre elas os nossos instintos maleáveis, nosso ego, nossa consciência, os nossos relacionamentos com os outros e com a realidade na qual estamos imersos. Desde o nascimento, o ego e o super ego, juntamente com os instintos, se desenvolvem. Vocês já devem ter percebido que estou tentando abordar um tema difícil. 
Nos Estados Unidos, quando a psicanálise estava no seu auge, o “Instituto Nacional de Saúde Mental” publicou três volumes abordando o desenvolvimento humano, com o título “The Course of Life: Psychoanalytic Contributions Toward Understanding Personality Development”, editado por Stanley I. Greenspan and George H. Pollock.
Um livro que permanece valioso para quem se interessa por esta questão.
“Quem quiser encontrar o amor, vai ter de sofrer, vai ter de chorar”, diz a música. Do nascimento até o amor e o trabalho, são muitas tarefas a serem cumpridas
.
Nós só conseguimos nos aproximar desse ideal maduro depois de tentativas, erros e fracassos que geram desapontamentos. Mas, nós só fracassamos mesmo quando paramos de tentar.
O amor maduro genital é a experiência mais prazerosa que o ser humano pode ter, mesmo quando ela não é duradoura.
Já dizia o poeta que “o amor é eterno enquanto dura“.
Se pensarem bem, todos nós, no fundo e acima de tudo, estamos em busca desse amor maduro.
Mas como conseguimos chegar lá é uma coisa muito individual que não pode ser generalizada.
Vai depender da genética, da constituição, da constelação familiar, das sortes e adversidades que são sempre imprevisíveis. Nenhuma história pessoal é igual à outra.
Uma das inúmeras dimensões do desenvolvimento humano pelas quais os analistas sempre se interessaram é a progressão da libido à medida que a pessoa cresce.
A libido, isso é, o motor interno em busca do prazer, está presente desde o nascimento.
Por muitos anos Freud acreditou que ela fosse o nosso único instinto.
Ele adotava uma teoria monista dos instintos.
Só mais tarde ele, a partir da observação clínica e do mundo em geral (especialmente as reações terapeuticas negativas e a primeira guerra mundial) ele mudou essa concepção e considerou a agressividade um instinto tão importante quanto a libido. Passou a adotar então uma teoria dualista dos instintos.

Existe uma sequência mais ou menos previsível na busca do prazer, à medida que a pessoa cresce.
São as fases do desenvolvimento libidinal: oral, anal, fálica, latência e genital.

Essas fases são superpostas. Sempre existem elementos das fases anteriores nas subsequentes e nenhuma delas é totalmente abandonada.
As vicissitudes do desenvolvimento da personalidade tem uma relação muito íntima com a psicopatologia, pois os eventos de cada fase, especialmente os traumáticos, influenciam muito o nosso comportamento futuro.
Vamos começar com o nascimento.
O feto só se torna uma pessoa quando nasce.
Será que essa experiência, tão natural, seria traumática?
As opiniões divergem.
Existem analistas que acreditam que todas as neuroses estão enraizadas no “trauma” do nascimento.
Freud, sabiamente, nos chamou a atenção para a sobrevivência do bebê, em termos da necessidade da alimentação e do calor, vir acompanhada da experiência do prazer no contato físico com a mãe, especialmente através da pele e da boca.
Esta seria a fase oral do desenvolvimento. Claro que estou e irei simplificar muito essas fases do desenvolvimento para que esse artigo não fique muito longo.
Vamos para a segunda fase, a chamada fase anal.
Aqui a criança já fala, isto é, entrou no mundo do simbólico depois de viver no imaginário do primeiro ano de vida.
E ela já começa a andar e ter certa autonomia.
Muito do relacionamento mãe-criança se centra agora na questão do controle dos esfíncteres.
A criança começa a teimar e a dizer não, ficar emburrada. Ela quer ter a liberdade de brincar com suas fezes e não aceita o controle da mãe.
Esta, por outro lado, quer educar a criança.
A criança descobre outra zona no seu corpo que é capaz de lhe dar prazer: o ânus. Com ela vem o prazer de reter e de soltar as fezes como forma de autoafirmação.
Não será difícil para vocês imaginarem como conflitos nessa fase podem contribuir dificuldades emocionais na vida adulta.
Já pensaram no adulto que passa a vida só tendo o prazer de economizar e de reter?
Chegamos depois na fase fálica.
Aqui as crianças descobrem a presença ou a falta do pênis.
Os meninos descobrem que esse órgão visível que eles podem pegar lhes dá prazer.
As meninas veem o corpo do menino, percebem a diferença e sentem como se estivesse faltando alguma coisa nos seus corpos. Vocês também podem imaginar as consequências de conflitos nessa fase do desenvolvimento até a maturidade
Tanto o menino, quanto a menina podem não supera-la.
O menino fica com medo de perder essa parte do seu corpo e a menina, com inveja do menino, tentando descobrir como poderá sanar essa falta.
Se nas fases anteriores a relação principal é com a mãe, apesar da presença do pai já ser sentida desde o nascimento, nessa fase fálica o pai se torna mais presente e a situação entre filhos e pais passa a ser mais triangular.
O velho complexo de Édipo, tão bem descrito por Freud e presente desde o nascimento, aqui atinge o seu auge quando vemos o menino com o seu amor pela mãe, desejando tirar o pai do caminho.
Mas ao mesmo tempo ele também ama o pai, daí o conflito, a culpa e as fantasias de ser castigado por ele. Para as meninas a coisa é mais complicada. Primeiro porque, assim como os meninos, o seu primeiro amor é a mãe, só que aqui elas mudam na direção do pai que, supostamente, poderá lhes dar o que está faltando: o pênis.
Depois dessa fase fálica a libido entra no período de latência e a criança vai se dedicar a estudar e aprender.
A libido recua um pouco e a criança fica numa posição meio assexuada para poder se interessar pelo mundo e pelos estudos.
Chegou a hora de aprender nas escolas. A maioria dos esforços é nessa direção. Mas a libido, não se iludam, estará lá sempre disfarçada, meio subterrânea e poderá afetar muito essa questão pedagógica da aprendizagem
A coisa explode de novo na puberdade.
Aí os hormônios obrigam o (a) jovem a lidar com a libido outra vez.
E há quem diga que todas as fases da infância são revividas na puberdade e na adolescência, isto é, essa é uma segunda chance do (a) jovem lidar com o seu crescimento de um modo saudável.
Entramos na adolescência que ao contrario da infancia tem ca vantagem do (a) jovem poder eventualmente se separar dos pais, encontrar uma companheira (o) e uma profissão. Isso é, ser capaz de amar e trabalhar entrando na fase genital do desenvolvimento.
Só como uma parentese. Uma terceira maneira que a pessoa tem de tentar corrigir as dificuldades no seu desenvolvimento psicossocial é fazer uma psicanálise.
Assim os indivíduos têm três chances de corrigir o seu desenvolvimento emocional: a primeira na adolescência, a segunda na psicanálise e suspeito que ainda existe uma terceira que é na criação dos filhos.
Os filhos nos levam de novo às nossas fases do desenvolvimento e podemos com eles aprender a lidar com elas de um modo mais adaptativo.

Não queria terminar sem chamar a atenção sobre a importância dos relacionamentos interpessoais com pessoas significantes à medida que a criança cresce.
Harry Stack Sullivan um talentoso psicanalista norte-americano passou a vida estudando os relacionamentos interpessoais e criou uma Teoria Interpessoal da Psiquiatria.
Os relacionamentos humanos, como nós bem sabemos por experiência própria, podem nos influenciar para o bem e para o mal.
Não preciso dizer que quanto mais saudável mentalmente forem as pessoas significantes do nosso passado, mais facilmente nós iremos crescer. Mas, como consolo, as crianças que tiveram mais dificuldades em crescer são as que eventualmente entendem melhor a importancias das dificuldades emocionais próprias e de terceiros e, se conseguem supera-las, acabam virando ótimos psicanalistas.
Devo mencionar aqui que os contos da carochinha sempre terminam com as pessoas casando e sendo felizes para sempre.
Infelizmente, como bem sabemos as coisas não são bem assim.
O nosso crescimento continua em fases adultas mais ou menos previsíveis: ter e criar os filhos, meia-idade e mais tarde a velhice e a morte.
Nessa trajetória há sempre uma fase intermediária inevitável para cada um de nós: lidar com os nossos pais que adoecem e morrem.
Na escola da vida não existem férias e do nascimento até a morte tudo vai acontecendo, rolando, de modo imprevisível, e a gente tentando lidar com isso da melhor maneira que somos capazes. Como disse um comediante quando alguém lhe perguntou se ele acreditava na vida depois da morte:
Ah, meu filho, eu mal estou dando conta de enfrentar a vida depois do nascimento e você já quer que eu enfrente mais uma?”
Vale a pena crescer?
psicanalista e psiquiatra – ufmg-mg
DEPOIS DE 50 ANOS DE MEDICINA, PSIQUIATRIA E PSICANALISE PENSEI EM PARTILHAR A MINHA EXPERIENCIA QUE ESPERO SERA UTIL PARA OS MEUS LEITORES LEIGOS E PROFISSIONAIS. APRECIAREI QUAISQUER COMENTARIOS.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aos candidatos a Analista...Psicanalista

A formação da Psicanálise para a clínica "analítica" não têm "atalho" e qualquer "atalho" no percurso da "Psicanálise" significa muitas vezes numa formação de de-formação é algo "deficitário" por isso deve-se  seguir os critérios do tripé psicanalítico. O Psicanalista não é alguém que pode "desautorizar"  os sintomas de ninguém que o procure.  É na via dos sintomas que "Existo onde Penso que  não Existo".


sábado, 28 de julho de 2012


Trecho de O Ciclo da Auto-Sabotagem, de Stanley Rosner e Patricia Hermes
Capítulo 1
Repetição de comportamentos de identificação primária: conformidade versus autonomia
Muitos de nós gostam de criar, experimentar, viajar, aprender, crescer — tornar-se alguém.
Mas existem pessoas que além de não conseguir enfrentar esses desafios e aventuras, são incapazes até de imaginar tal coisa.
Esses indivíduos agarram-se à crença de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem — freqüentemente dos pais.
Essa imitação dos pais é conhecida como "identificação arcaica".
A menininha que se equilibrava nos sapatos de salto da mãe cresce para se tornar uma adulta que forçosamente usará o mesmo tipo de sapato. O garoto cuja família sempre passava as férias numa choupana em Rainbow Lake, cresce e insiste em levar a família para a mesma choupana em Rainbow Lake — às vezes, para a tristeza de sua atual família.
Outros cozinham da mesma maneira que a mãe cozinhava (mesmo que os resultados possam ser aprimorados), vão para a mesma igreja, sinagoga ou mesquita, freqüentam o mesmo teatro, e, às vezes, até moram na mesma casa.
Para esses indivíduos, tanto na vida real quanto na íntima, não há espaço para a mudança, para a inovação, não há espaço sequer para a imaginação.
Mas o que será que faz os indivíduos engajarem-se nesse comportamento repetitivo, nessa identificação arcaica, mesmo à custa do próprio eu? Se alguém lhes perguntasse, a resposta mais freqüente seria: "Bem, é a maneira correta.
" Também é confortável e familiar, e mudar não é fácil. Crianças pequenas querem e precisam adquirir estrutura.
Elas precisam de exemplos de comportamento. Elas buscam liderança nos pais. Então, o que há de errado nisso?
Nada, claro.
O que está errado, no entanto, é que alguns pais comunicam aos filhos que a sua maneira de ser é a superior. A criança cresce acreditando que todos são inferiores a seus pais. Ninguém é tão bom ou tão correto quanto os pais. Para apoiar seu ponto de vista, esses pais podem zombar da permissividade, da polidez ou do estilo de vida dos outros. E isto é fato, mesmo quando coisas terríveis estão acontecendo no lar.
Se os pais são esbanjadores, comprando tudo que aparece na frente, a criança percebe que é dessa maneira que as coisas devem ser. Ela não tem noção de que os pais podem estar à beira da falência.
Se os pais são alcoólatras e a casa é uma bagunça, então a criança entende que pais são assim e que é desse modo que os lares são. Se os pais são cruéis e punitivos, então a mensagem é que essa é a maneira de manter a disciplina e de frear os desejos perigosos e desregrados de alguém.
Somente quando a criança cresce e observa outros estilos de vida, começa a questionar se o estilo de sua família é realmente o único, ou se é o melhor.
Trata-se de uma etapa normal do desenvolvimento, mas para famílias repressivas, como as que menciono aqui, é justamente neste ponto que batalhas terríveis se iniciam, batalhas que por vezes duram toda uma vida. Como se confrontar com pais tão dominadores e controladores?
A criança fica apavorada.
É um medo real e imenso, porque envolve a única coisa que nós precisamos e pela qual ansiamos — o amor.
Se a atitude da família pouco amorosa determina que só posso gostar de você se você for igual a mim, a criança entende que só poderá ser amada sendo os próprios pais, não ela mesma.
E, assim, começa a se desenvolver o estilo de vida repetitivo da identificação arcaica — identificação absoluta com os pais. Isto, por si só, já é uma tragédia e tanto.
A próxima tragédia é que a criança adulta começa agora a fazer o que os pais faziam, sempre tentando alcançar o amor — comportando- se exatamente como eles.
É uma maneira triste de viver a vida, e o trabalho com pessoas oprimidas me mostrou que é um modo de viver difícil de ser mudado. A criança em fase de crescimento não poderia arriscar-se a ser ela mesma, porque isto traria rejeição e raiva.
A criança adulta leva isso adiante. Mas há outra batalha subjacente acontecendo.
Aqueles que imitam os pais renegam e acobertam um desejo real de se libertar.
Eu quero muito me libertar.
Quero tanto ser livre.
E fico possesso com você, por não me permitir a liberdade. Mas eu preciso de você.
Sem você, fico sozinho. Sei como consertar isso.
Serei exatamente como você, exatamente da maneira que você quer que eu seja, e assim você me amará, nem você nem eu saberemos quanto o odeio, quanto quero me ver livre de você.
É apavorante, e triste também.
E porque a maneira deles está correta e a dos outros está errada, aqueles que repetem essas identificações primárias caem no mesmo padrão. O mundo deles é o melhor dos mundos; as regras de comportamento deles são as corretas e apropriadas.
Mas, então, como esses indivíduos conseguem fazer terapia?
E por que um indivíduo como esses chega a pensar em fazer terapia? Afinal, ele está agindo do modo que considera correto.
Às vezes, a pessoa vem para a terapia por causa de conflitos causados por forças externas — o simples fato de conhecer pessoas ou mesmo de se apaixonar.
O ser amado pode pensar e agir diferentemente de sua família original, pode questionar os modelos e valores daquela família. Isso pode começar a minar aquele ponto de vista aceito e adotado por anos.
O que acontece a seguir é uma imensa confusão interior e, com isso, uma grande tensão no relacionamento com a família de origem.
Embora seja assustador, pode ser um bom começo. Geralmente nesse ponto, o indivíduo fica paralisado. Ele não consegue continuar reprimindo o impulso, em direção à liberdade.
Mesmo que não vá adiante, voltar atrás é impossível.
O que fazer?
Alguns movem-se para os lados. Começam a agir de modo passivo-agressivo, — externamente, concordam e aceitam as críticas aos pais, mas, por dentro, ficam se corroendo.
Este embate gera conseqüências para o indivíduo e para o relacionamento com a família.
Talvez seja nesse ponto que alguns indivíduos resolvem recorrer à terapia.
Às vezes os próprios pais determinam a terapia na esperança de que "endireite" a criança — leve a criança a se conformar.
Eles acreditam que o tratamento vai fazer com que a criança pare de se comportar daquele modo e se torne obediente, passiva.  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

SOCIEDADE ANESTESIADA

SOCIEDADE ANESTESIADA

Remediando a vida.

Expressão quase folclórica que exprime uma concepção catastrófica do mundo. A utopia de um mundo sem dor, sem sofrimento, acompanha a civilização desde a consciência do que a dor e o sofrimento sempre provocaram no ser humano e de que culminam na doença e na morte.

A tanatofobia com os horrores da fantasia da finitude, a solidão, a perda dos entes queridos, a ameaça insuportável da loucura povoaram a mente do indivíduo a partir do instinto de sobrevivência da espécie.
De alguma maneira se pode fazer a narrativa dos esforços da arte, da cultura, da ciência, como a luta contra o estresse, o desconforto da existência, o mal-estar da castração.

Em contrapartida, a vontade de exuberância, da alegria, do estado de bem-estar no gozo do êxtase e da felicidade implicam um trabalho constante que, através da medicina, das ciências da saúde, da indústria farmacêutica, da psicologia, acabou por estabelecer um consenso de superação da dor, por recursos os mais variados.

Cicatrizar as frustrações inevitáveis que marcam os limites de nosso corpo e de nossa mente, anestesiar as reações aos estímulos que a natureza impõe, feiura, deficiência intelectual e corporal, acidentes malignos, genética deficitária –enfim o rol das dificuldades do concreto, do real, do objetivo se transformou numa corrida de obstáculos que permeabiliza nosso cotidiano.

Comprimidos para enganar a tristeza, sob o diagnóstico da depressão, para frear a vitalidade, sob o diagnóstico que substitui a exuberância pela hiperatividade.
 Se espraiando por todos os ângulos, medidas, enquadramentos possíveis e imagináveis.

A obesidade, doença física ou psíquica a ser tratada e corrigida, e até problema ético de caráter (personalidade desidiosa ou fraca); a magreza, idem.

A timidez ou contenção, como sintoma introspectivo suspeito, a extroversão como proximidade da transgressão, merecendo a atenção médica e, eventualmente, policial.

Sem respeito à faixa etária ou condição social. Na infância, a desatenção na escola, distúrbio ou transtorno, a adolescência com sua agitação e insegurança, ela mesma vista como "aborrecência", um certo desajuste na probabilística certeira de moléstia contagiosa (o barulho, a efervescência, o "esquenta").
  A insônia estimulada por dificuldades autênticas, exigindo soníferos que, por sinal, segundo a revista científica BMJ Open [revista online de acesso público ligado ao British Medical Journal], triplicam o risco de morte e de o"paciente" desenvolver câncer.

Aliás, já escrevi em O Direito no Divã (Saraiva, 2011) que a nomenclatura correta deveria ser "impaciente" e o profissional apurar a sua "paciência" na inversão humanística do relacionamento.
Aldous Huxley, em As Portas da Percepção [livro de 1954, edição em português da Globo lançada em 2002], faz a apologia às drogas, lícitas ou ilícitas (segundo conflitos de entendimento legal); ele, que estava praticamente cego e buscava compensações e sublimação no fantasmático e no simbólico, acabou legitimando essa vida artificial para escamotear as quimeras que a poesia de Rimbaud, ele mesmo uma vítima do alcoolismo, genialmente definiu em metáfora belíssima:

"Mas, não, chorei demais! Magoam-me as auroras.

Todo sol é dolente e amargo todo luar".

As questões essenciais de nossa vida ligadas ao sofrimento e à dor não podem e não devem ser reduzidas ao tremendo jogo de fortunas incalculáveis da indústria da ilusão medicamentosa. Indústria que inventa doenças e inventa curas para aquilo que segundo Goethe é "humano, demasiadamente humano".

Sofrer e lidar, chorar e rir, a emoção respeitada e não fiscalizada pelo "Big Brother" do superego pronto para qualificar o normal e o anormal segundo fundamentalismos pseudocientíficos.

O que, obviamente, não significa deixar de minorar a dor no horizonte da dignidade. A alienação como instrumento de subjetividade permite que o Eu se encontre com a Dor, na esperança que nos transcende.

"As questões essenciais de nossa vida ligadas ao sofrimento e à dor não podem e não devem ser reduzidas ao tremendo jogo de fortunas incalculáveis da indústria da ilusão medicamentosa. Indústria que inventa doenças e inventa curas para aquilo que segundo Goethe é 'humano, demasiadamente humano'"

Dr. Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em Psicologia, Psicanalista e Escritor.

É autor de Cultura da Agressividade (Landy, 2004), Mocinhos e Bandidos – Controle do Conteúdo Televisivo e Outros Temas (Lazuli/Sesc, 2005), Psicologia em Curta-Metragem (Novo Conceito, 2008), entre outros.

Fonte de Consulta: Revista "E" Sesc-SP 


"O Avarento guarda o seu Tesouro como se fosse seu; Mas teme Servir-se dele como se na Realidade pertencesse a Outrém." (Bion)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Presenciar sexo dos pais retrai vida sexual adulta, diz herdeiro de Freud

Presenciar sexo dos pais retrai vida sexual adulta, diz herdeiro de Freud”

 

 

Acontecimentos na infância pode causar dificuldade em se relacionar com o parceiro na cama.

O casal se ama, se respeita e até se deseja, mas quando chega a hora da cama, algo como uma "força maior" impede um dos parceiros de se entregar totalmente.

Existem grandes chances de este bloqueio sexual não ser causado por um problema físico ou hormonal, mas estar enraizado no inconsciente por um fato passado.

"Foi algo que aconteceu na infância, poderia ser, por exemplo, alguma coisa comum, que acontece bastante: ouvir ou ver o ato sexual dos pais", disse o  e psicanalista Joseph Knobel Freud, sobrinho-neto de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise.

A situação descrita por Knobel Freud não se refere apenas à fase da adolescência, mas pode acontecer já nos primeiros meses de vida do bebê.

 "Os pais pensam que isso (ter relações sexuais na presença do filho pequeno) não tem problema, mas é muito grave", alertou.

O mais decorrente é a criança ser colocada no berço, no mesmo quarto dos pais, e presenciar a relação.

"O bebê não compreende nada, ele escuta ou vê, mas não sabe o que os pais estão fazendo, se estão brigando ou sofrendo, ele não tem capacidade de entender", explicou.

Quando a criança participa como um "voyeur" da experiência sexual dos pais, um trauma é criado em relação ao sexo.

"Pode causar uma repressão na vida sexual do adulto", acrescentou.

Por isso, segundo Knobel Freud é essencial que o filho tenha um quarto que não seja o dos pais.

"Outro dia, tive uma consulta de um casal em que a mulher se queixava que há mais de seis meses eles não transavam.

O homem tinha visto seus pais tendo relações, tinha associado a sexualidade a um ato da brutalidade, um ato horrível, não tinha entendido o que significava aquilo para os pais", exemplificou.

 

Não só o fato de ver e ouvir os pais na cama pode influenciar a vida sexual adulta, como qualquer coisa que a criança escute sobre o assunto.

 

Segundo Knobel Freud, a sexualidade começa no dia do nascimento.

 

Autor do livro Clínica Psicanalítica com Crianças, a formação infantil é a especialidade do psicanalista.

 

Ele afirma que a criança passa por diversas etapas de sexualidade, desde a via oral até a fálica. "É a semente para a sexualidade adulta", disse.

 

Complexo de Édipo


Entre os numerosos acontecimentos durante a formação da sexualidade que interferem no futuro do indivíduo, está o complexo de Édipo.

 

De uma maneira simplista à teoria de Freud sobre o tema, esta neurose trata-se do desejo sexual da filha pelo pai e do filho pela mãe.

 

Quando este anseio não é inibido na infância, o adulto se desenvolve com bloqueios para se relacionar sexualmente com outras pessoas.

Existem comentários no círculo da psicanálise, segundo Knobel Freud, que colocam o relacionamento de Anna Freud com seu pai, Sigmund Freud, como um exemplo de complexo de Édipo.

Devota e discípula do pai, Anna morreu virgem aos 87 anos de idade.

 

Abuso sexual


Sofrer violação sexual durante a infância é um dos causadores da retração nas relações entre homem e mulher na vida adulta, de acordo com Knobel Freud.

 

Quando os abusos acontecem durante toda a infância, se o trauma não é tratado, existe uma grande chance de esta pessoa repetir o que sofreu com outras crianças.

 

"Se não elabora a situação traumática, eles serão futuros pedófilos", afirmou Knobel.

A psicoterapia é fundamental nesses casos, segundo o profissional.

"A psicoterapia reverte isso em pouco tempo", disse.

Na conversa com o psicólogo ou psicanalista é possível descobrir o que está guardado no inconsciente do paciente que está causando este ou outro problema.

 

Outros fatores


O diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, o psicoterapeuta Oswaldo Martins Rodrigues Junior, citou também as deformidades anatômicas e doenças crônicas como causas do bloqueio sexual, mas reforçou que os problemas de ordem emocional e psicológica agem com mais força neste sentido.

Como fatores precipitantes, ele lembrou a criança que sofre com a separação dos pais ou presencia uma vivência sexual humilhante.

"Durante a infância e adolescência, os padrões de respostas sociais e emocionais são lapidados, esses padrões podem afetar a sexualidade adulta. Pode ocorrer a iniciação sexual com resultados emocionais negativos", disse ele.

Um desenvolvimento diante a conflitos de relacionamento e falta de privacidade também contribui para a retração sexual adulta.

"A autoerotização da infância à vida adulta permite que a pessoa conheça as possibilidades e limitações do corpo, e como o corpo estimulado permite excitação sexual.

Portanto, pessoas que não tiveram experiências de autoerotização terão mais possibilidades de viver problemas sexuais", afirmou Rodrigues Junior.

O psicoterapeuta reforçou que as características de personalidade influenciam diretamente na forma como a pessoa enfrenta as dificuldades do cotidiano.

Por isso, fatos podem ou não provocar uma dificuldade na vida sexual de um ou outro adulto.

Psicanalista Joseph Knobel Freud

 

 

 

sábado, 30 de junho de 2012

“Mania de Criticar ou julgar pode Desvendar a Bipolaridade”


"Mania de Criticar ou julgar pode Desvendar a Bipolaridade"

 

É interessante a invenção de novos nomes ou diagnósticos para descrever velhas patologias conhecidas.

Assim como a síndrome de pânico foi uma mera derivativa das chamadas fobias, a bipolaridade é o nome moderno para o chamado transtorno maníaco-depressivo. 

A renomeação de moléstias segue o princípio da maquiagem moderna farmacológica, dando certa ilusão de um instrumento mais efetivo e poderoso no combate à doença. 

Como todos sabem, a bipolaridade é definida principalmente pela constante e repetitiva oscilação do humor e comportamento do sujeito; ora um estado depressivo, melancólico, ou a euforia, alegria e uma energização que deixa perplexo todos que convivem com a pessoa.

A primeira coisa interessante para se notar é que ao contrário do que muitos pensam, o fenômeno da agressividade não se encontra no pólo maníaco, mas justamente na fase depressiva.

A explicação é simples, a agressividade permeia dito pólo como uma reação à frustração da pouca durabilidade da fase maníaca e também como uma forma de contaminar completamente o ambiente ao seu redor, "como nunca irei superar tal situação, desejo que sintam a mesma angústia".

Claro que neste ponto entram elementos poderosos de inveja e vingança contra o meio. Infelizmente o bipolar é muito julgador e crítico e sempre irá comemorar o insucesso ou infortúnio do outro, a projeção é seu mais puro e doce alimento. (claro que não estou emitindo um juízo de valor sobre o caráter de ninguém, apenas relatando uma manifestação comportamental frente ao transtorno)

 O que mais chama atenção em tal enfermidade é quando da passagem depressiva para a maníaca, como disse anteriormente, há um vigor ou paz de espírito quase que sobrenaturais, causando uma total frustração no acompanhante ou familiar da pessoa, que não se conforma que o indivíduo não consiga se estabilizar em tal estágio, pois teria amplos recursos para tal empreitada.

Mas neste ponto, o leitor irá indagar que é justamente a bipolaridade que não permite tal fato.

O que desejo concluir é que a lamúria, tendência ao auto-sofrimento, autocomiseração é incrivelmente mais potente do que qualquer princípio da realidade que traga satisfação ou estabilidade.

A mensagem máxima de todo esse processo mórbido, é a insistência numa ingenuidade ou infantilidade, achando que o meio ao seu redor deve ter eterna paciência e compreensão perante todos os mecanismos confusos e difusos apresentados. 

O criticador e bipolar reclama um amor incondicional, ao mesmo tempo em que tenta condicionar os outros para a aceitação de sua estrutura neurótica de personalidade. 

A bipolaridade não deixa de ser um fenômeno psicológico que denuncia com exatidão o espírito sociológico de nosso tempo: "tenho pleno potencial para o amor, afeto e harmonia, mas, repentinamente me lembro de meu contrato quase que vitalício assinado com o caos ou perturbação nos relacionamentos, tudo isso oriundo de um mimo não resolvido perante uma suposta rejeição das figuras parentais. O bipolar apela o tempo todo, forçando seu direito ao amor que não obteve, sendo que não resgata em hipótese alguma suas falhas pessoais nesse histórico de convívio.

 A instabilidade histórica do bipolar se origina em sua angústia pessoal de identificar quem é o modelo afetivo que irá lhe proporcionar segurança; ora é o pai, a mãe, ou o ódio contra ambos, nunca havendo uma linha linear. Parece não existir uma vontade interna para a superação do problema. A medicação é vista como uma espécie de império absoluto, sendo que na maioria dos casos a psicoterapia é encarada com total desconfiança.

O fato é que a manifestação mórbida possui um caráter muito forte de sedução, seja pela pena ou compaixão, exigindo uma resposta constante de pleno cuidado por parte do meio ao redor da pessoa.

A insistência da psicoterapia passa a ser fundamental, pois acima de tudo, o bipolar deve a si mesmo uma explicação para todo o seu excesso. Gostaria neste ponto de colocar uma tese talvez estranha, mas que na minha concepção é bastante inovadora.

E se determinado transtorno mental for um derivado de um protesto familiar ou social reprimido?

Antes que alguém ache tal tese absurda, pensem que o maior medo em nossos dias é em relação à opinião alheia, coisa que o bipolar dribla com a máxima maestria, se utilizando da descompensação como escusa de suas atitudes.

Este é exatamente o ponto chave, sendo que a doença é o que sobrou de certa forma de uma mitigação política e ideológica; a rebeldia ou protesto social é totalmente convertido para o pólo psicológico.

Obviamente não estou querendo inferir que determinada pessoa avessa à política irá desenvolver a bipolaridade, mas, apenas ressalto o transporte de um fenômeno social para uma área privada da personalidade. A mente parece que capta qualquer aspecto importante de algum derivativo social, sendo que o mesmo jamais se apaga, apenas adquire novo molde ou formato. 

O bipolar encena num microcosmo toda uma esfera política e histórica da humanidade, de luta pela atenção, poder, compaixão, sedução e diversos outros fenômenos sociais. Nunca podemos pensar num modelo individualizado de tratamento sem a compreensão paralela que a doença é criativa ao adquirir determinados formatos dos moldes econômicos e sociais de nossa era.  

 

A grande questão que se coloca é quando realmente estaremos plenamente motivados a atacar de frente determinado problema, pois parece que sempre o estamos mascarando ou rodeando.

O desequilíbrio psicológico nunca é por acaso, é principalmente uma seqüência histórica de frustração e desilusão. Uma reflexão vital que todos devem fazer é sobre o tipo de poder que tentam adquirir durante a vida: criatividade, poder econômico, político, sedução e beleza ou através da doença.

A necessidade de ser notado é praticamente um correlato das necessidades fisiológicas do ser humano, seja de uma forma saudável ou em tons bizarros. Nomeando de bipolaridade ou psicose maníaco-depressiva, como devemos interpretar a fundo tal fenômeno? Tanto a ascensão ou o famoso pico, quanto à queda ou depressão, remetem ao famoso conceito do psicólogo ALFRED ADLER acerca do complexo de superioridade e inferioridade.

A bipolaridade nada mais é do que este intercâmbio psicológico.

Na mania, a euforia, certeza da vitória, autoestima em elevação e sensação de auto-suficiência, e ainda tentativa de destaque tendo ou não os recursos para tal empreitada; na fase depressiva o choro, culpa, lamúria, necessidade de projeção do caos pessoal para outras pessoas, e insistência no mecanismo da sedução, através da pena ou solidariedade do meio enquanto a pessoa permanecer recaída.

Será que vale a pena, digamos assim, chamar a atenção ou atuar algo psicossomático constantemente? A resposta novamente nos remete ao complexo de poder. Se não temos uma vaga cativa na cena política, social ou econômica, resta o uso do corpo ou enfermidade da alma para sermos lembrados.

É interessante como sempre notei o aspecto mais do que ambicioso do bipolar.

Assim como no começo do estudo, faço um alerta quanto a qualquer concepção reducionista; sem sombra de dúvida, pessoas abastadas e com poder também podem descarregar suas frustrações nas enfermidades mentais, apenas estou salientando a existência do fenômeno em determinadas pessoas onde impera um vazio de poder pessoal. 

Quando determinado sujeito começa a notar que seu espírito talvez seja estéril, começa a manipular ou até brincar com os conteúdos psicossomáticos citados, visando uma diversificação deformada ou amplificação corrupta de seu self ou sentido de existência.

Ao contrário do obsessivo, o bipolar rejeita qualquer tipo de ordem ou organização de sua conduta diária de vida. Tudo é sempre através do improviso ou impulsividade, sendo que o resultado é bastante óbvio; uma perda em todas as esferas: econômica, pessoal e afetiva.

Pensemos neste ponto na questão do dinheiro; igualmente ao maníaco-depressivo de antigamente que perdia sua casa em jogo de azar, o bipolar traça o mesmo caminho de forma talvez resumida ou dissimulada; dívidas bancárias, protestos contra seu nome, perda de objetos comuns, esquecimento ou falta de cuidado com seus bens, enfim, jamais consegue cuidar efetivamente de seu patrimônio, pois se sente eternamente miserável ou dependente, atuando como uma criança que não tardará a estragar algo valioso que lhe foi fornecido ou conquistado, o consumismo é apenas uma fachada contra a terrível ansiedade que se abate sobre a pessoa.

Outra característica notável no bipolar é que o mesmo se dá plena autorização para vivenciar o egoísmo sem nenhum remorso ou culpa; faz uma matemática singular; todo o sofrimento de seu passado terá de ser pago e aceito sem reclamações acerca de sua conduta narcisista, egóica e individualista. 

Seus disparates são vistos pelo próprio indivíduo como uma excentricidade criativa e louvável; dando a entender que o sinal de estar vivo é sempre o comportamento de risco ou tensão.

O bipolar manipula um palco para a apresentação quase eterna de uma personalidade neurótica que não dá quase nenhum sinal ou vontade de mudança.

O que temos de perceber é que o desafio extremo contra a civilização ou moralidade saudável não é apenas a conduta agressiva ou marginal, mas, como FREUD pontuou com maestria, a neurose se incumbe de dita tarefa de uma forma onde não será achada ou combatida.

Recalque não é apenas energia sexual ou afetiva parada, é antes de tudo um combate violento e quase que invisível às regras e normas instituídas, principalmente às que dizem da normalidade e saúde psicológica.

Como estou dizendo neste estudo, a tarefa básica é colocar seu mundo de caos e lamúria pessoal acima de qualquer conceito racional de prazer ou satisfação. Novamente falando do passado o maníaco-depressivo usava sua doença ou regressão como uma fuga de sua realidade insuportável; o bipolar insiste em obter mais alguma dose de mimo ou proteção, mesmo que há muito já tenha passado de tal fase, o saudosismo será sua marca no transcorrer da vida.

Sobre a questão comportamental é interessante notar alguns sintomas adjacentes em tal moléstia, um deles é a neurose obsessivo-compulsiva ou o moderno "toc" (transtorno-obsessivo compulsivo), mais uma vez um novo nome para um velho problema conhecido.

Mas o curioso é que sua obsessividade é totalmente restrita a certa área, ou círculo de atuação bem reduzido: mania de limpeza apenas em um cômodo da casa, em seu corpo também, citando dois exemplos. A análise deste círculo diminuto de poder ou preocupação é simples; é uma denúncia ou reprodução de sua carência ou sensação de ter obtido pouca atenção afetiva de seu meio, ou seja, reproduz sua miserabilidade emocional em determinadas manias

 Fato é que determinadas pessoas famosas ou célebres, como observei também desenvolvem os sintomas citados, o que refutaria todas as colocações anteriores, porém, em defesa de meio argumento deixo claro que o bipolar utiliza determinado estratagema em virtude de sua imensa carência ou baixa estima, já determinadas pessoas notórias desenvolvem todo o comportamental descrito pela culpa ou a famosa neurose de êxito, tão bem descrita por ALFRED ADLER, como sendo uma solidariedade neurótica para os não afortunados, destruindo seu próprio potencial pessoal para tal finalidade. Mas tal fenômeno não entraria em choque com o egoísmo de nosso modelo social?

A resposta é não, porque o destaque também irá cobrar um preço, e o mesmo pode vir a ser a vulnerabilidade para todo o tipo de crítica do meio.

A diferença entre a descrição dessas pessoas notórias e o bipolar, é que este último lida, desvia ou contém muito bem o sentimento de culpa, pela obrigação da dívida do meio para seu afeto reduzido. Três coisas o ser humano jamais conseguirá, pelo menos até o presente; imortalidade, sentimento de segurança, e blindagem contra a vergonha ou crítica da sociedade, mesmo que tenha obtido sucesso ou poderio econômico. 

O bipolar segue o mesmo traçado da problemática das drogas, ou melhor dizendo, uma total insensibilidade perante as pessoas que o acompanham, principalmente na esfera econômica, obrigando gastos excessivos para o tratamento sem nenhum remorso ou senso do sacrifício para cobrir tal necessidade.

É valioso dizer que esta questão que estou discutindo se assemelha novamente à questão da medicação psiquiátrica em nossos dias, num primeiro momento há uma melhora, para depois, o remédio se tornar um ícone por si só, independentemente se produz ainda ou não resultados.

É como se uma determinada substância química cobrasse o preço de seu efeito muito além do que o indivíduo está habilitado a pagar, não é esse o problema central do drogadicto?

Se pensarmos em termos estruturais a coisa se torna até um pouco mística ou paranormal, como se algumas pessoas tivessem um convite especial para usufruírem de todo sofrimento sem nenhum limite ou prazo de validade.

Um passe livre permanente ao caos desenfreado ou até sem propósito se fizermos uma análise profunda pelo lado racional.

 

Retomando o aspecto da infantilização do bipolar, tal fenômeno é uma reação pretérita, presente e futura contra a terrível angústia da morte, pois a partir do momento que jamais aceito o crescimento ou evolução, simbolicamente estarei adiando o triste fim de todo ser humano.

O problema é que tal conduta tem sérios efeitos colaterais, pois mescla fases de desenvolvimento que geram conflitos internos poderosos, e o resultado é a insatisfação crônica acerca de si própria, nada o satisfaz, sendo que até o lado positivo ou determinado ganho é encarado com queixas ou desconfiança.

Mas se o bipolar lida muito bem com a culpa, já não o consegue com a questão do arrependimento. E qual seria a diferença entre os dois?

A culpa é um processo rígido, crônico, estabelecido ou extremamente embasado na personalidade do sujeito, é uma espécie de estilo de vida ou traço marcante de seu self. O arrependimento se assemelha mais a um estratagema infantil para a comoção ou evitar a agressividade ou vingança do outro por alguma falta cometida. A prova disso tudo é que se pensarmos na culpa, a mesma tem raízes históricas, pois na maioria das vezes imputa no semelhante uma fragilidade inexistente, sendo que a pessoa acha que o outro será destruído por determinado comentário ou ação, a culpa reduz plenamente a capacidade de absorção do outro, sendo que o arrependimento quer motivar a compaixão. Um fenômeno curioso que noto há algum tempo é que parece que determinadas pessoas vivenciam ou atuam problemáticas que não são verdadeiramente de seu íntimo, mas que são emprestadas de seu meio circundante, como se fosse uma terceirização do sofrimento como brincou um de meus colaboradores dos meus textos.

Tal situação novamente se remete à culpa ou solidariedade com o caos alheio, um acordo mais do que mórbido para a pessoa adiar a resolução de seu problema íntimo, sentindo que o mesmo é quase que insuperável; obviamente fica mais fácil depositar as energias na consecução da resolução do problema do outro.

 Voltando a questão da medicação, novamente faço um alerta para o extremo cuidado ao ser ministrada, pois a química tem o simbolismo da emergência, sendo tudo que o espírito do bipolar está acostumado e não consegue afastar.

Acho que está claro até o presente ponto que fica quase que impossível o estabelecimento de limites comportamentais em tal enfermidade, o que seria a cura se tal ato fosse possível. O problema é que qualquer tentativa externa é sempre inócua e só produz mais rebelião e protesto, dado que o bipolar ama com paixão a extravagância, rebeldia infundada ou o protesto inútil. A essência do desvio comportamental é exatamente se alimentar da preocupação ou esforço para sua extinção ou cura, esta é sem dúvida alguma a contradição máxima jamais resolvida pela psicologia ou psiquiatria. 

A coisa é tão clara que na experiência clínica noto que o bipolar apenas faz uma reflexão de suas atitudes na extrema perda ou rompimento, quando não consegue mais ser o centro do palco através de sua neurose, sentindo que a pessoa ao lado desistiu literalmente de todo o esforço para uma melhoria da condição em que o sujeito se encontra.

Nesse momento respinga no mesmo um ar adulto ou consciência de sua responsabilidade seja afetiva, profissional ou social, porém, não tardará a se utilizar novamente de sua arma preferida para que as coisas permaneçam do mesmo jeito que outrora, apelando incessantemente para a compaixão ou piedade de seu infortúnio.

Notem que todos detestam o termo piedade, pois se refere a uma pessoa totalmente despotencializada ou desprovida de capacidade de gerir sua existência. Porém, o bipolar sempre arruma uma forma genuína de transformar aquela piedade vergonhosa num triunfo de suas expectativas ou atos desajustados a fim de perpetuar os mesmos.

 Tal tese coloca na encruzilhada talvez quase que toda a história da psicologia, acerca do fenômeno da escuta. Este muitas vezes passa a ser uma espécie de sonífero contra a percepção da dificuldade de mudança ou transformação verdadeira. Não estou tampouco defendendo nenhuma abordagem comportamental ou imposição de regras, o que seria totalmente infrutífero, ressalto apenas o lado pouco prático da psicoterapia, pois a resistência se acha na própria queixa do paciente ou na escuta passiva do terapeuta, sendo a missão máxima do mesmo desvendar todo o rol de mentiras que o sujeito interpreta acerca de seu problema.

Nunca uma queixa é isolada, nem mesmo os chamados fenômenos psicossomáticos, ou orgânicos, tudo forma um palco nebuloso de continuar na mesma, mesmo com todas as perdas de tal escolha. Mas então se trataria de uma espécie de masoquismo e a psicoterapia apenas seria uma desculpa para dizer que se tentou algo novo?

FREUD, ADLER, JUNG, todos tocaram no chamado mecanismo da compensação que a doença produz, desde a atenção até evitar a humilhação de um teste real caso a pessoa não se escondesse atrás de determinado infortúnio.

Retomando minha velha idéia, o distúrbio neurótico se torna uma espécie de vírus ou entidade com inteligência própria e sentido de sobrevivência, não é a toa que os antigos confundiam doença mental com possessão, e ao invés da psicanálise ir a fundo nisso, se escondeu atrás de preconceito ou um falso senso científico dos fatos. Uma prova dessa tese toda é a característica do neurótico se cercar de pessoas tão ou mais problemáticas, mascarando por completo todo o seu dever de evolução psíquica ou melhor dizendo, zerando sua dívida para com a saúde. Tudo o que estou falando serviria para diversas moléstias; depressão, compulsão, paranóia dentre outras e obviamente bipolaridade.

A neurose nunca foi criativa por natureza ao contrário do que podemos pensar, mas tal fato nunca serviu de atenuante para seu alto poder destrutivo na pessoalidade do ser humano.

O bipolar é apenas uma variação um pouco mais moderna, tomando todas as características de chantagem emocional num patamar extremamente potencializado, onde a diferença de outrora é o perigo real, pois nunca mede conseqüências. Não chega a ser um suicida, mas sabe como ninguém matar todo um equilíbrio emocional, familiar e afetivo.

Se todos os filósofos e grandes pensadores destacaram a necessidade da descoberta do sentido da vida, cabe a psicologia descobrir a causa do real e verdadeiro sofrimento que abala a estrutura psíquica. Antigamente a doença mental levava certamente ao óbito; hoje em dia, seguindo a tendência da medicina no tocante ao prolongamento da expectativa de vida, notamos que o abalo psicológico tenta se eternizar sem destruir a vida biológica da pessoa.

Retomando as diferenças ou semelhanças entre bipolaridade e transtorno obsessivo-compulsivo, é interessante a falha na recomendação da conduta sobre o tratamento.

Muitos avaliam que a terapia comportamental é a melhor solução para ambos os casos, se esquecendo que o esforço para eliminar tais moléstias, já é sem sombra de dúvida o combustível para a perpetuação das mesmas, pois ambas se alimentam de uma atenção consciente e inconsciente sem precedentes no âmbito psicológico.

Na verdade o transtorno obsessivo compulsivo não deixa de ser a loucura da segurança ilimitada transportada para todo o tipo de mania ("não admito em hipótese alguma perder as coisas conquistadas em meu suposto reino pessoal"), já a bipolaridade tocando novamente na diferença é justamente o inverso, uma espécie de esporte radical da mente, levando a mesma a todo tipo de excesso ou desajuste pessoal e social.

Se pensarmos no próprio complexo de Édipo ou a clássica noção do trauma em termos da psicologia, veremos que ambos remetem sempre à canonização do passado, seja revivendo o sofrimento ou o saudosismo de um prazer que foi real ou imaginado pelo sujeito, o fato é que no distúrbio da bipolaridade as coisas são semelhantes, regredir, necessidade constante de ser cuidado e amparado.

 

O bipolar assim como a maioria dos drogadictos não vislumbra nem de longe a hipótese de uma tomada de decisão para a resolução de seu caos pessoal; as conseqüências são mais do que conhecidas, perda de oportunidades em todas as esferas: profissional, social e afetiva.

No decorrer deste estudo, venho salientando um paralelo pouco notado pela medicina e psicologia entre bipolaridade e infantilismo.

Todas as armas serão usadas para a manutenção deste último, e é neste ponto que a bipolaridade irá se confundir quase que totalmente com o fenômeno da loucura ou esquizofrenia, pois não medirá nenhum esforço em qualquer manifestação mórbida para a consecução de tal objetivo, seja através da histeria, compulsão ou toxicomania.

Todo profissional experiente já notou há muito tempo que tal transtorno talvez seja o maior desafio da saúde mental das últimas décadas, pois assim como a drogadicção, parece que qualquer esforço sempre acaba em desilusão ou fracasso.

Por acaso alguém tinha a ilusão de que numa sociedade que potencializa toda esfera negativa o tempo todo, o distúrbio mental não iria mimetizar da mesma forma? O fato é que estamos nos deparando com desafios mentais extremamente amplificados, e parece que só estamos narcotizando ou mascarando os nefastos efeitos de nossa vida cotidiana permeada pela competição, disputa de poder e inveja. Infelizmente em tais pecados capitais ninguém ousa adentrar, conseqüência de um puritanismo maléfico para qualquer espírito que deseje alguma evolução na alma humana.

 Enfim, cabe uma reflexão científica acerca do que é realmente constituída a doença mental ou distúrbio psicológico? Desequilíbrio hormonal, variações do sistema límbico ou do hipotálamo, instabilidade nos níveis da serotonina; creio que tudo isso é mais do que verdadeiro se analisado por equipamentos eletrônicos ou de última geração da medicina contemporânea, mas se desejarmos uma análise meramente humana veremos que seu início sempre ocorre na recusa do avanço ou desenvolvimento interpessoal; sabotagem da criatividade visando reviver uma etapa de vida totalmente ultrapassada e não condizente com a atualidade do indivíduo.

Que imensa mentira aquele provérbio que todos almejam a felicidade ou satisfação; FREUD provou as barreiras morais para a consecução do prazer genital genuíno, e hoje em dia vemos barreiras totalmente dissimuladas que limitam um sentido de vida saudável ou frutífero para a pessoa.

A diferença é que no começo do século vinte a fala era praticamente proibida, daí o advento da psicanálise como socorro de uma alma torturada pela tirania moral, e hoje o discurso do sujeito é totalmente alienante e sem sentido, pois a maioria procura um prazer que jamais foi seu, apenas imitação de símbolos impostos pela sociedade de consumo que está pouco se importando com a saúde mental das pessoas, e sim, o quanto as mesmas estão dispostas a gastar ou se endividarem; sofrimento é uma solidão incurável por se buscar algo totalmente imaginário ou irreal, e é isto que se faz neste mundo há muitos séculos, embora com mais virulência nas últimas décadas.

Todos se esqueceram que há nítida diferença entre satisfação, prazer e felicidade; o primeiro fenômeno é quase que totalmente corrompido pela inveja e competição, levando o indivíduo para caminhos distantes de se verdadeiro self; o segundo tão estudado por FREUD é plenamente contaminado pela estrutura e histórico familiar do sujeito, fazendo com que o mesmo seja solidário ou repita o sofrimento dos pais em todos os contextos dos relacionamentos; o terceiro não diz de ausência de sofrimento, nem de se viver numa ilha ou paraíso artificial, mas de uma mente capaz sempre de fazer leituras profundas e verdadeiras e é isto que está em total escassez em nossa sociedade, uma capacidade verdadeira de análise pessoal e social, e como o indivíduo se enquadra nesse processo e quais serão suas reais escolhas, sem o vício ridículo de culpar alguém por determinado infortúnio ou insucesso.

Felicidade é a capacidade eterna de reação, mesclando elementos de ódio e amor, mas nunca caindo na armadilha da destrutividade ou vingança, apenas exigir para si próprio a retomada da energia exaurida ou perdida, quando digo ódio, não é aquele fomentado diariamente pela mídia ou a sociedade insensível em que vivemos, mas o apelo para a reação do sujeito, que o mesmo fique com rancor de seu vício de sofrer e tente algo criativo, que possa lhe abrir o horizonte para uma conquista verdadeira, esse é sem dúvida o paraíso do prazer e preenchimento da alma.

Antonio Carlos A. Araujo

É Psicólogo e  Terapeuta de Casais

 


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PSICOTERAPIAS BREVES - 2001

TRABALHO APRESENTADO EM 2001  PSICOTERAPIAS BREVES          Este trabalho terá   como objetivo mostrar a economia em se ter como práti...