quarta-feira, 31 de outubro de 2012

“Eles não sabem que estou levando a Peste”


“Psicanálise é a Verdade inaceitável e Insuportável”


“Eles não sabem que estamos levando a Peste”  
Freud (1909)

Desde sua criação por Freud a psicanálise é fato um percurso vai encarando a oposição dos indivíduos da sociedade e da sua época; Ainda talvez hoje ainda exista muita oposição ao saber e as técnicas freudianas. Em algumas instituições criou-se uma espécie de dogma em torno da psicanálise, que se serve como prato para dissidência entre os próprios psicanalistas ao longo do percurso. 

O próprio Freud quando, ao retraçar, em 1914, a História do Movimento Psicanalítico, apresenta um extenso inventário das resistências à psicanálise.

Freud relata que grandes números de seus discípulos iniciais destacaram alguns como: (Adler, Jung, Rank) deixaram de aderir em algum momento às suas teses e fundaram suas próprias teorias.

Na verdade, a própria teoria psicanalítica freudiana apresenta os meios para esclarecer quais foram os motivos do repúdio as idéias de Freud que inicialmente num primeiro momento verdades sempre “impactantes” a respeito da natureza do “Inconsciente” humano. 

Dr. Freud tinha todos esses acontecimentos em mente e quando foi viajar para os EUA em 1909, comentou com Jung que o acompanhava com os americanos. –

- “Eles não sabem estou levando-lhes a peste”.

Com a eminente recusa as idéias freudianas com relação à mente humana (inconsciente) e sua estrutura psíquica. Sempre Freud foi colocado em “Xeque”. Mas a própria psicanálise vê isso como a verdade de cada “sujeito e sua história” e se está em elaboração simbólica dos seus conteúdos “Inconscientes” a revelação freudiana parece uma “verdade inaceitável, insuportável pelo ser humano racional.”

A verdade inaceitável e insuportável é demonstrar que há algo que age neles à “revelia” ou mais do que isso, algo a partir do que eles agem sem saber que o fazem.

Em 1909 Freud revela e implica com sua teoria freudiana do inconsciente: a presentificação de uma divisão constitutiva “psíquica” que revela de fato que os homens não são senhores de si mesmos.

Freud ressaltava ainda que uma aceitação imediata da sua teoria fosse do mesmo modo quase impossível, mas ao mesmo tempo reveladora.

Freud achava que naquele instante que houve uma ação de resistência à sua tese sobre o psiquismo humano (inconsciente) até porque, acarretando uma aceitação sem conseqüências subjetivas, seria menos eficaz neutralização do que ele radicalmente trouxe como novo modelo de pensamento para o inconsciente e sua estrutura psíquica. 

Hoje podemos observar em todo o mundo, paralelamente o aumento da difusão da psicanálise junto ao público pelos diversos meios da imprensa, embora aliado a isso um crescente desconhecimento da especificidade do pensamento freudiano, uma crescente vinculação dogmática expandindo não mais a psicanálise freudiana, mas alguma coisa vincular a laços de religiosidade, onde se tenta dizer ou fazer aquilo que justamente não é Psicanálise.

“Já dizia prof. Edmar: “O Sagrado é proporcional as minhas necessidades” e complemento nem que isso, e não as “minhas verdades” e logro também  aqui a fala do Prof. Gilberto Safra: “ Fazemos tamponamento da Verdade que não podemos Aceitar”      

Se tal desconhecimento não pôde ser detido em sua escalada, isto se deve ao trabalho rigoroso e fecundo de reconsideração dos fundamentos da obra de Freud que foi empreendido pelo psicanalista francês Jacques Lacan.

Entretanto, não é em toda parte que a obra de Lacan tem merecido acolhida.

Texto originalmente escrito em 1987 para a Enciclopédia Britânica e permanecido inédito.

Partindo de sua experiência inaugural com as pacientes histéricas.

Freud não tarda a outorgar à sua teoria uma abrangência absoluta.

Desse modo, a fronteira entre o normal e o patológico, nitidamente demarcada pelo discurso da medicina, acha-se problematizada de saída pela tese freudiana do determinismo psíquico inconsciente.

Freud destaca a ação do desejo inconsciente num amplo espectro de fenômenos até então relegados a um plano desimportante (como o sonho, o esquecimento de palavras e nomes, o ato falho, o chiste), ou, ainda, naqueles cuja estrutura se revelara até então ininteligível pelos discursos médico e psiquiátrico (sintomas neuróticos, delírios psicóticos, perversões sexuais).

Na análise de todos estes fenômenos, o denominador comum foi depreendido e sempre pelo trabalho, pesquisa e estudos de Freud:

A expressão para acessar esse “Inconsciente” freudiano foi por meios distorcidos pela censura psíquica, de uma verdade à qual o sujeito não tinha acesso conscientemente

Todo sujeito e cada um sob uma forma específica, um sentido ocultado por efeito do recalcamento, era o agente da produção de uma formação do inconsciente.

Qual para se fazer presente necessitava de uma expressão indireta e que deformava para o sujeito em questão o desejo inconsciente em jogo.

Na Psicopatologia da vida cotidiana Freud dedica-se a mostrar sua exaustiva de sua tese do determinismo psíquico para evidenciar que nenhuma de nossas ações escapa à sobre determinação inconsciente.

Freud explica a elaboração da repetição de da força dos mecanismos de defesa do inconsciente.

Para exemplificar a repetição, Freud se vale da interpretação dos sonhos.

Os sonhos revelam conteúdos inconscientes, desejos reprimidos (verdadeiros ao sonhador) (os sonhos são centrados na revelação de conteúdos reprimidos ou traumáticos). Cujo caráter revela a ação de uma força que ultrapassa aquelas que regulam a busca da homeostase na qual se baseia o princípio de prazer.

Quando se inicia no processo de “análise” muitos pacientes começam a se lembrar dos seus sonhos e durante as sessões e é gradativamente possível a interpretação de cada sonho seja em sua totalidade ou fragmentado.

Neuróticos normalmente sonham e Psicopatas deliram acordado  

Como postulado sobre o inconsciente de Freud atingiu “certeiramente” a hipótese reconfortante sobre o livre arbítrio.

Desse modo, golpeia simultaneamente o narcisismo dos homens, revelando a este algo difícil de ser por eles assimilado – o fato de que se acham, em suma, descentrados em relação a si mesmos.

Para Freud, toda escolha, todo ato, preferência, por mais banal ou casual que possa parecer, encontra-se determinado por elementos que transcendem qualquer deliberação da vontade racional consciente.

Vê-se, com isso um grau de dificuldade que seus postulados colocam em: aceitá-los verdadeiramente. E isso implica necessariamente em passar pela experiência de fazer sua (análise pessoal), daí encontramos a significação de algum modo, despojar-se da ilusão (imago) de si mesmo, para a imago do (real), sem tamponamento do seu real desejo.

É somente nessa “vivência” de “análise pessoal” que se conhece a “Psicanálise em essência”.

Disso pode advir o libertar-se de muitos tamponamentos e acatar aquilo que nos apresenta diante de “si” como uma verdade terrível e inaceitável. A psicanálise é uma ciência da livre arte (do pensamento humano) onde uma vez se iniciado, corre-se o sério risco de nunca mais ser o mesmo que se achava ser no “real de mim mesmo”.   

Precisamente é uma espécie de libertação é num sentido freudiano de que a  ilusão que é nutrida pela instância psíquica do eu (ou ego) segundo a tradução inglesa do Ich freudiano), cujo caráter unitário, íntegro se opõe veementemente  ao caráter originalmente  cindido, dividido do sujeito do inconsciente. 

A distinção categórica entre o eu e o sujeito do inconsciente foi estabelecida por Lacan, ao ressaltar que era justo no “eu”.

Freud situava não apenas a instância produtora do recalque como também a sede da maior resistência às descobertas psicanalíticas.

Em seu trabalho sobre O estádio do espelho, com efeito, Lacan aborda o momento, destacado pela psicologia do desenvolvimento, em que, entre os 6 e 18  meses,  o infans (aquele que não fala) tem a percepção, confirmada pelo assentimento  de um terceiro, de sua própria imagem no espelho, e vivencia tal percepção  com júbilo. Neste instante,  forma-se  a matriz  identificatória   original  do  eu,  imagem   unitária  que  lhe  fornece   uma  ilusão  de completude. 

Se tal imagem  surge para o bebê enquanto  apaziguadora  – pois lhe permite a vivência de uma unidade corporal que substitua o anterior estado do corpo parcial, espedaçado, por outro lado, ela apresenta desde já um valor letal, origem das manifestações  agressivas.

Ao perceber seu “eu”  naquela imagem, é criado para o bebê um abismo incolmatável  que lhe revela que seu próprio eu está dissociado dele mesmo de modo inarredável.

A partir disso o infante terá marcado para sempre em seu território, nessa imagem de um ideal do “eu” cuja força cativante tem o valor de uma verdadeira estátua pregnante.

Uma teoria tão em voga ainda hoje como a do eu autônomo, introduzida pelo
psicanalista Heinz Hartmann, encontra aqui sua crítica mais radical.

Se o sujeito se manifesta, para Freud, essencialmente por meio do conflito, a suposição de uma esfera isenta de todo e qualquer conflito, como a de um eu autônomo, constitui na verdade um ideal ilusório, uma miragem imaginária.

Embora o nome de Freud tenha muito rapidamente sido associado à idéia de sexo, poucas vezes o é atribuído por Freud à sexualidade que é resgatando corretamente a concepção que Freud introduz sobre a sexualidade, que era inteiramente nova e não poderia ser confundida com as noções que o senso comum, muitas vezes camuflado sob uma máscara de pseudo-cientificidade, lhe atribui.

A noção de sexualidade em Freud possui um valor particular se referenciada aos seus postulados fundamentais sobre o recalque e o inconsciente e a estrutura psíquica.

Freud parte do princípio da escuta e observação de que os sintomas neuróticos  apresentam   sentido que se revelam em  análise e o caráter sexual se desnuda na medida em que a sexualidade no neurótico se acha  perpassada,  de  modo  latente,  por  aqueles  mesmos  elementos  que  na  sexualidade perversa (da qual o fetichismo é o exemplo princeps) surgem de modo manifesto.

Voltando se para  formas  da  sexualidade  perversa,  Freud  se  dá  conta  de  que  aquilo  que  era condenado  socialmente  enquanto  desvio,  ou  até  mesmo  degeneração  sexual,  encontra  na verdade a expressão mais corriqueira em todos os indivíduos normais, esse fato se demonstra pela constatação  feita pela psicanálise  da universalidade  das chamadas  perversões  sexuais e deve-se a uma disposição inata comum a toda a humanidade.

Freud constata que contrario às outras espécies animais,  que o ser humano  não apresenta   no  seu nascimento   uma  indicação  demarcada   quanto  ao  parceiro  sexual  a  ser procurado. 

Se tal afirmação pode de início parecer aberração, ela se demonstra facilmente pela inexistência de uma pré-definição da sexualidade humana. Visto que nós “seres humanos” não usamos a nossa sexualidade de acordo com os ciclos biológicos determinadas para reprodução como no reino animal.

Assim não há para os humanos os períodos de cio ou reprodução pré-definidade como no reino animal.

A sexualidade humana se revela o quanto é complexa e desvinculada  dos  fins  específicos somente de reprodução e perpetuidade da própria espécie freudianamente dizendo.

Ainda é questionável visto que no “reino animal / da própria” espécie segundo legado da biologia, alguns “animais irracionais” se se atacam entre “Si” ou seu semelhante para, mas instintivamente somente para defender seu território, conquistar sua fêmea, conquistar a liderança entre o clã.

Coisa que já não é peculiar no comportamento humano que se mata um ao outro por nada, um aparenta vazio das inscrições paterna ou materna de cunho edílico (sociopático)

Voltando a fala sobre a sexualidade em Freud.

Freud descobre que a ação dos ciclos periódicos da natureza humana é subvertida, a sexualidade humana é diferente da dos animais.

Essa ação é de que somos seres com uma “linguagem” (inconsciente).

Desse modo o ser humano adquire uma tão absoluta quanto poderosa força e influência sobre suas vidas.

Para o ser falante (simbólico) a sexualidade não se restringirá ao ato sexual enquanto conjunção dos órgãos genitais. Mas se revelará em outras atividades aparentemente desprovidas de um cunho sexual: o ato do olhar, a leitura, os esportes, as funções fisiológicas de excreção, a respiração isso é para apenas dar alguns exemplos, são todas atividades imbuídas de elementos sexuais.

Se Freud isola as práticas sexuais chamadas de perversas, os mesmos elementos que compõem a sexualidade considerada normal são na medida em que em ambas achamos os resíduos da ação remanescente da sexualidade infantil, na qual ele observou uma disposição perversa polimorfa originária.

Um dos pólos geradores de maior resistência à teoria freudiana da sexualidade se encontra precisamente na sua concepção de uma sexualidade múltipla, errática, desconcertante e, além disso, calcada nas vivências primevas da infância.

Nestas constatações Freud esclarece que à força que rege os impulsos sexuais no ser humano o nome não de instinto (cujo funcionamento supõe um objeto sexual previamente definido), mas de pulsão, não sendo este como aquele regido por ciclos biológicos pré- estabelecidos, mas sim pela ação contínua da linguagem. 

A pulsão é freudianamente a responsável pelas chamadas fases de desenvolvimento da libido:

Fases: – Oral Anal e Fálica -, o desenvolvimento dessas fases dão a ação sobre esta ou aquela zona erógena nas diversas etapas da existência inicial da criança.

Se as bordas ou orifícios do corpo se revelam de início como verdadeiros pólos de imantação zonas erógenas nos quais são associados não só para a obtenção do prazer como a satisfação de necessidade imediata.

Não obstante qualquer região do corpo pode ser revelada também passível (histericamente) de ser erogeneizada para o não encontro com o gozo próprio.

É a partir do Outro, lugar da palavra, como veio a precisar Lacan, que a criança obterá meios para constituir sua sexualidade particular.

Se a Criança não possui a designação sexual previamente delimitada (o que Freud formula através da constatação da inexistência da inscrição da diferença sexual no inconsciente) é somente por intermédio da Ação da linguagem sobre seu ser que poderá vir a obtê-la.

Essa é a ação que produz um sujeito, enquanto efeito da linguagem, por isso mesmo esta o sujeito, como seu próprio nome, através da sabedoria maior da língua, indica. 

Freud alude em suas teorias sexuais infantis, modo pelo qual a criança poderá constituir uma fantasia sexual inconsciente que passará a mediatizar por toda sua vida seu encontro com o real. (Lacan)

Essa fantasia constitui precisamente o princípio de realidade para cada sujeito, o que acentua que a noção de realidade introduzida pela psicanálise é inteiramente nova, refere-se a uma realidade psíquica singular (única) e remete ao momento mesmo de constituição do sujeito.

O corpo de que trata a psicanálise (é corpo psíquico, (não entender como corpo Espiritual, místico ou de cunho religioso).

O Corpo da Psicanálise é abstrato sutil e de (linguagem) esse corpo psicanalítico é adverso daquele (Corpo) que é objeto das ciências da biologia, da fisiologia e da anatomia.

O corpo psíquico (analítico) é recortado pelo simbólico, o corpo pulsional (é bem assim que é preciso denominá-lo) é radicalmente heterogêneo ao imaginário da anatomia corporal e – fato tão decisivo quanto espantoso – não está apenas súbdito a nenhuma lei natural. 

É assim que cabe à psicanálise hoje, fazer a crítica de inúmeras práticas ditas de terapia corporal, as quais, calcadas precisamente no ideal obscurantista de um retorno à natureza, desconhecem o fato de que o corpo é também construído por meio de uma linguagem, só por está “linguagem” é abordável, e que, enquanto tal, o corpo é partícipe de um real ao qual é impossível ter acesso. (inconsciente).

Com o ensino de Jacques Lacan tornou-se possível dar uma conseqüência efetiva à necessidade de desvinculação dessas duas práticas e diferenciar de modo preciso os discursos que estão em jogo em cada uma delas.

De uma maneira geral, trata-se nesta diferenciação sobre tudo da forma pela qual o psicanalista e o médico estão inseridos em suas práticas, o que acarretará efeitos cruciais no modo pelo qual ambos passam a lidar com o outro.

A prática psicanalítica retira sua eficácia, paradoxalmente justo na medida em que o psicanalista prescindir da utilização do saber psicanalítico constituído.

Tal fato, de saída impactante, constitui talvez a maior dificuldade da prática da psicanálise e era um dos motivos que levavam Freud a afirmar que a psicanálise era uma profissão impossível se unir-se a outra.

A postulação freudiana de que cada caso clínico devia ser abordado como se fosse o primeiro, em sua radical singularidade.

É a esse título que Freud afirmava ainda que, na prática da análise, a pesquisa e o tratamento caminhavam juntos, sobre o que Lacan viria a insistir posteriormente ao ressaltar que aprendia simplesmente tudo de seus analisando.

A postura do psicanalista, denominada por Lacan de ignorância douta para designar a forma refinada de um saber que inclui um não-saber, não é, na verdade, um mero princípio a ser seguido tecnicamente, mas sim efeito da experiência pessoal pela qual o psicanalista necessariamente passou em sua análise: o saber que se revela na experiência psicanalítica é da ordem do particular, não se presta à generalização, não pode ser dominado por qualquer espécie de mestria.

O saber que está em jogo é o saber inconsciente, cuja característica primordial é o estabelecimento de uma descontinuidade, de uma ruptura em toda forma de saber consciente. 

É assim que, à emergência da verdade do inconsciente, são surpreendidos, simultaneamente, o analista e o analisando.

Para Freud, a cura analítica não implicava em objetivos terapêuticos, os quais, na verdade, acarretavam um perigo para ela e o desaparecimento dos sintomas representava, antes, um efeito do trabalho da análise do que propriamente seu objetivo, pois trazendo-os para o registro da palavra através da ação do desrecalcamento,   a  consistência  deles  é dissolvida.

Qualquer  um  que  se  dedique,  hoje,  ao  estudo  da  psicanálise  não  pode  deixar  de estudar também os seminários de Jacques  Lacan (1901-1981). 

Lacan foi erroneamente considerado, de início, enquanto estruturalista.

Lacan nunca o foi de fato, pois, embora parte do seus desenvolvimentos  iniciais tenham se valido da lingüística  estrutural  criada por Ferdinand  de Saussure,  na verdade sua concepção  de estrutura  difere  fundamentalmente  daquela  do estruturalismo:  implicando  no inconsciente, a estrutura que está em jogo para Lacan não é fechada, mas aberta.

Formado em medicina, sua tese de psiquiatria da psicose paranóica em suas relações com a personalidade constitui, de fato, já a primeira incursão de Lacan no campo propriamente psicanalítico.

Nela, é precisamente toda a tradição psiquiátrica que é criticada, à luz   do   debate   então   emergente   entre   as   correntes   psiquiátricas   organogenéticas    e psicogenéticas,  a partir da perspectiva freudiana, a  partir desta perspectiva que Lacan dará relevo, na análise de um caso de paranóia, o caso Aimée, ao mecanismo de autopunição, cuja inteligibilidade só é destacável a partir do conceito freudiano de inconsciente.

Da psicose paranóica obteve uma notável acolhida por parte dos surrealistas, primeiros a atribuírem, na França, importância para a elaboração freudiana. Após sua publicação, Lacan, que desfrutava de um convívio com o grupo surrealista, foi convidado para escrever na revista surrealista Minotaure.

Além disso, foi após a leitura de Da psicose paranóica que Salvador Dali criou seu método paranóico-crítico, o qual viria a dar um novo fôlego para o movimento surrealista, pois supunha uma atividade crítico-interpretativo que se opunha à passividade inerente aos métodos da escrita automática introduzida por André Breton.

Através de um movimento por ele próprio intitulado de retorno a Freud, Lacan efetivou na verdade um rebatimento da teoria psicanalítica sobre si mesma, ou se quisermos, uma espécie de psicanálise da própria psicanálise. 

Após a morte de Freud, a psicanálise passara a trilhar desvios ideológicos incompatíveis com aquilo que o mestre vienense avançara, Lacan promove a incidência sobre a teoria psicanalítica dos elementos mesmos que ela adianta.

Foi sempre considerando a leitura de Freud como infinitamente mais fecunda que a de um Feneceu, por exemplo, autor de um manual sobre psicanálise, utilizado nos institutos de formação psicanalítica em detrimento da leitura do próprio Freud, Lacan veio a destacar conceitos que haviam desaparecido nas traduções de sua obra.

Alguns exemplos disso são o conceito de Verwerfung,   foraclusão,  introduzido  por  Freud  para  abordar  as  psicoses;  a categoria  de Nachträglich,  o só - depois,  fundamental  para a compreensão  da temporalidade lógica  particular  que preside  o funcionamento  do inconsciente;  o conceito  de Trieb, pulsão, introduzido por Freud para destacar a especificidade da sexualidade humana e que fora homogeneizado   à  noção   de  instinto   pelos   pós-freudianos;   o  conceito   de  Verneinung, denegação,  modo  pelo  qual  o  sujeito  chega  a  poder  enunciar  uma  verdade  desde  que negando-a, também tem sua importância ressaltada pela leitura de Freud feita por Lacan.

Desde o início de seu ensino, Lacan reintroduz  no seio da experiência  psicanalítica  a importância fundadora da palavra, fato esquecido pelos pós-freudianos.  E, se a supremacia da palavra no contexto da cura é salientada por Lacan,  do mesmo  modo  o é a utilização  da palavra  por  parte  do  psicanalista. 

Assim, Lacan dá seu próprio exemplo através de seus Escritos, cuja dificuldade de leitura procede de uma verdadeira estratégia metodológica: o pacificando seu sentido, elevando-os a um intenso grau de densidade textual, Lacan promove a requisição de que o sujeito se inclua efetivamente no ato da leitura, assim como traz à demonstração teórica uma verossimilhança ímpar, aproximando-a da forma particular de exegese que o psicanalista deverá operar em sua prática. 

Por isso, o teor poético de seus escritos é exemplar da utilização rigorosa da palavra enquanto meio precioso e supremo do qual se vale a psicanálise. 

A crítica feita a Lacan de preciosismo se esquece de que a rigor é impossível não sê-lo quando se trata da palavra.

Dessa ênfase posta na palavra, decorre a constituição da lógica lacaniana do significante, a qual, partindo das noções introduzidas pela lingüística estrutural de Saussure, subverte-as ao articulá-las com a categoria do sujeito, excluída da lingüística.

As intervenções estabelecidas por Lacan no campo da teoria psicanalítica podem ser repartidas a grosso modo, sob três rubricas  gerais: questões  pertinentes  à direção da cura analítica,   contribuições   à  metapsicologia   da  psicanálise   e  desenvolvimentos   relativos   à problemática da transmissibilidade  da psicanálise.

Quanto aos problemas colocados pela direção da cura, o trabalho de Lacan, simultaneamente ao resgate das  postulações  freudianas  essenciais,  é o de uma  veemente crítica  aos  desvios  engendrados  pelos  psicanalistas  pós-freudianos  em  suas  práticas. 

Seguindo a recomendação freudiana que indicava para o analista uma posição de neutralidade, sede de um não - agir positivo, Lacan redefine o lugar do analista enquanto o lugar do morto. Tal formulação implica precisamente em que o analista esteja morto quanto à própria subjetividade, a qual não pode estar presente no ato analítico sob pena de obliterar sua escuta. 

Daí para frente Lacan  passa  a  criticar  a  utilização,  difundida  universalmente, sobretudo  pelos  trabalhos  de Heinrich  Racker,  da chamada  contratransferência  do analista (sentimentos  e  idéias  evocados  no  analista  pelo  discurso  do  analisando),  enquanto  meio técnico,  pois ela se calca na suposição  da existência  de uma relação  intersubjetiva  entre o analista e o analisando. 

Esta suposição  é imaginária,  depende de uma concepção  da análise enquanto  uma relação  dual, especular,  de eu a eu, e tem em seu horizonte  o objetivo  de identificar o eu do analisando ao eu do analista, perpetuando assim uma alienação imaginária que, na verdade, a análise deve visar suprimir.

O desvio na prática era uma decorrência da ação cada vez mais centrada no eu pelos pós-freudianos, que passaram a valorizar no manejo técnico a análise das resistências.  Lacan veio ainda aí estabelecer uma importante retificação, demonstrando que voltar a atenção para a resistência  constitui,  com efeito,  uma resistência  do analista. 

Se a palavra é fundadora e seu valor é absoluto na psicanálise. É absoluto na medida em que ela constitui o único meio do qual a psicanálise dispõe, Lacan vem a empreender  uma veemente crítica ainda aos analistas que se valiam de noções decorrentes da idéia de uma comunicação não-verbal e, através desta, só faziam objetificar o analisando.

Para a psicanálise, com efeito, todos os atos, gestos, mímicas, afetos estão na estrita dependência do simbólico e nela trata- se precisamente  de dar a palavra àquilo que até então só encontrava  expressão  através do sintoma.
 Antes de serem não-verbais,  estes são na verdade hiper-verbais,  mas, no entanto, apenas trazendo-os ao regime da palavra pode o sujeito realizar-se plenamente.

Tal crítica lacaniana implica em que na psicanálise de crianças, por exemplo, a técnica de utilização do desenho  e do jogo possa ser utilizada mas desde  que acompanhada  pela enunciação  da criança;  ou, ainda, que os afetos  preservem  sua importância  desde que seu mero  extravasamento   não  seja  considerado  como  o  objetivo  maior  da  cura,  mas  sim  a assunção subjetiva de seu sentido através, ainda e sempre, da enunciação.

Paralelamente ao resgate  para a teoria  psicanalítica  da importância  da palavra  e da linguagem,   Lacan   toma   para   si  o  encargo   de  obter   para   aquela   alguma   forma   de transmissibilidade.  

Esta questão se revela fundamental na medida em que, se para Freud não se colocava  a questão  da não-cientificidade  da psicanálise,  sabe-se  das críticas sofridas  por esta  desde  sempre  pela  epistemologia  da ciência. 

Não poderíamos nos estender sobre este ponto complexo no quadro deste ensaio, mas digamos sucintamente que tais balizas residem, por um lado, na recorrência à topologia matemática (por exemplo, à banda de Moebius, para ilustrar a topologia do sujeito), à teoria dos nós (com a utilização do nó borromeano para demonstrar  a tripartição  estrutural  entre Real, Simbólico e Imaginário),  e, por outro lado, no estabelecimento  gradual ao longo de seu ensino de uma álgebra cujas letras (S1, o significante-mestre,  S2, o saber, $, o sujeito dividido entre  o  par  significante,  a,  o  objeto  causa  do  desejo),  ao  serem  associadas,  constituem fórmulas que Lacan denominou de matemas.

Dois pontos  essenciais  nos quais  desembocam  os matemas  lacanianos  são,  por  um lado,  as  fórmulas  quânticas  da  sexuação,  formulação  lógica  que  recorta  os  campos  do masculino  e  do  feminino  dissociando-os  do  imaginário  da  anatomia  corporal  e  articula  o primeiro à fundação fálica fundadora do sujeito e o segundo a falta inerente ao Outro.

É por meio desta lógica que Lacan vem a afirmar que a mulher não existe, pois não existe nenhum sujeito que se inscreva  totalmente  no  campo  do feminino.

Numa referência  ao  furo,  todo sujeito,  mesmo  as mulheres  – e estas existem:  inscrevendo-se  necessariamente  por uma referência fálica, masculina. 

A principal decorrência desta afirmação contundente, no entanto rigorosa, de Lacan, é outro  axioma  não menos  surpreendente:  Se a mulher  não existe  a relação sexual é impossível. (Lacan)

Dr. Luiz Mariano
Coordenador Percurso de Psicanálise da ABMP-DF & Parcerias
  
BIBLIOGRAFIA:


CLAVREUL, Jean, A ordem médica. São Paulo: Brasiliense, 1983. DIDIER-WEILL, Alain, Inconsciente freudiano e transmissão da psicanálise.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. Diversos  autores, Revirão - revista da prática freudiana.  Rio de Janeiro:  A Outra, n.1, 2 e 3, 1985-1986. FREUD, Sigmund. Obras citadas ao longo do ensaio.JORGE, Marco Antonio  Coutinho.  Sexo e discurso  em Freud e Lacan.   Rio de Janeiro:  Jorge. Zahar, 1987. LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1996. Da psicose  paranóica  em suas  relações  com  a personalidade.  Rio  de Janeiro Forense Universitária, 1987.   (1954-1955).  O seminário,  livro  2: O eu na teoria  de Freud  e na técnica  da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1985.  . (1953-1954). O seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1983.  (1964). O seminário,  livro 11: Os quatro conceitos fundamentais  da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.  (1972-1973).  O seminário,  livro 20: Mais,  ainda.  Rio de Janeiro:  Jorge  Zahar, 1982.  Os complexos familiares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. MAGNO, M.D. A música. Rio de Janeiro: Aoutra, 1986.    . Ordem e progresso. Rio de Janeiro: Aoutra, 1987. Por dom e regresso. Rio de Janeiro: Aoutra, 1987.  O patológico. Rio de Janeiro: Aoutra, 1986. O porre e o porre do Quincas Berro Dágua. Rio de Janeiro: Aoutra, 1985.  Psicanálise e polética. Rio de Janeiro: Aoutra, 1986.  Rosa rosae. Rio de Janeiro: Aoutra, 1985.  . Senso contra censo da obra de arte. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977. MILAN, Betty.  Isso é o país.  Rio de Janeiro: Aoutra, 1984. NASIO, Juan David, A criança magnífica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quero uma Rede sem Conexão


A humanidade que antes parecia ser seu próprio meio para Existir. 
Hoje nos aparenta ser seu próprio fim. 
Vivemos tempos de distanciamento do desejo, distanciamento do amor e distanciamento do "Outro". Porque assim meu "EU" "sujeita-me" a um viver neuroticamente consumista, somatizado e angustiado. Isso parece que é mais fácil. 
Se abrigar no mundo virtual porque lá sou quem "imagino" arrumo milhares de seguidores e não preciso provar nada para ninguém.  
"Inclusive para mim mesmo". Embora não sou o que de realmente desejo ser nas redes virtuais e sociais digitais.
E para "me re-encontrar ou "surgir-se" num novo nascer ou re-nascer de um "novo sujeito" ou um resgate de minha gênese edipiana, mas isso para desafio para os fortes e não fracos.
E mesmo que nesse "nascer, renascer; 
Que eu  seja usuário de vez em quando das redes virtuais. 
Mas imune, imunizado dessa viciante dependência de consultar, palpitar  meus recados e o diz que diz.....das redes sociais virtuais.
Tenho que abandonar as redes sociais "virtuais", e meus seguidores virtuais. 
Para poder assumir-me no Real de mim mesmo. Preciso lançar-me nas "Redes Humanizadas" de contatos, De abraços, de calor humano. 
Preciso mesmo de uma rede sem conexão onde  deitado vejo e escuto; As músicas, As falas, As risadas, As piadas, os Contos e causus, estórias de famílias, pescarias e viagens. 
E nessa rede tenho as pessoas de fato que "amo" presentes na minha no meu meio com quem partilhar posso brindar e partilhar a felicidade sem perigo de cair a conexão ou necessitar de conexão virtual.  
Escute a poesia psicanalítica da música:
 "Preciso apenas de uma "Rede Preguiçosa" onde meus pensamentos se transformam em viagem.......dentro de mim......meu eu desconhecido.....se prepara para Voltar.
Aprecie o Poesia da Simbolização da letra: http://www.youtube.com/watch?v=oGVb3qSv5FY

domingo, 23 de setembro de 2012

Crise No Casamento



Já estou arrependido de mexer nesse assunto.
O casamento é um dos temas mais complexos e controvertidos da existência humana, e apesar de todas as tentativas para entendê-lo sob vários pontos de vista, ele permanece um enorme mistério.
Existem muitas receitas para ser bem-sucedido nessa empreitada, mas por mais interessantes que sejam, mesmo que se apliquem a alguns casais, elas nunca são convincentes.
Imagino que isso ocorre porque as duas pessoas envolvidas, geralmente, mas nem sempre, um homem e uma mulher, partilham suas vidas de um modo tão único que um casal não pode nunca ser comparado com outro. É como se elas secretassem uma substância que, misturada, adquire uma consistência ímpar, única.

Por isso, generalizações sobre o casamento têm valor limitado.
 Apesar disso, a maioria das pessoas casa e, o que é pior, muitas continuam, apesar das evidências em contrário, considerando o casamento como o caminho certo para a felicidade.
Pois não é assim que as histórias infantis sempre terminam?
O príncipe e a princesa são felizes para sempre?
Isso está arraigado na nossa cultura. Estou cansado de atender homens e mulheres solteiros que ficam paralisados na vida, esperando o casamento que lhes trará felicidade.
Ao mesmo tempo, surpreende o número de casados, alguns até bem, que sonham em voltar a serem solteiros, nostálgicos de um tempo que passou.

Claro que existem casamentos com boa qualidade de vida das pessoas envolvidas. Aliás, tenho para mim que uma vez a pessoa crescendo e se separando de pai e mãe, o próximo relacionamento significante é o companheiro (a) estável.
Mas esse relacionamento, como tudo mais entre os humanos, é instável mesmo e pode mudar de um momento para o outro, sem uma razão aparente para isso.
Somos seres frágeis, incompletos e temos pouco controle sobre nossos relacionamentos e destino. Para dizer a verdade, não sei como damos conta de ir vivendo e enfrentando as coisas que aparecem fora de nossos controles.

Se formos pelos caminhos sofisticados da psicanálise e suas muitas variantes, podemos até imaginar as possíveis dimensões inconscientes que levam dois adultos, com histórias, biologias e famílias diferentes, escolherem morar juntos.
Vocês já imaginaram a quantidade de conflitos psicanalíticos num encontro como esse?
Mas existem outros pontos de vista: religioso, sociológico, econômico, sexológico, para apenas citar alguns entre milhares. Isto sem falar na motivação muito importante de procriação.
Outro dia fui num local público cheio de jovens.
Fiquei maravilhado com casais enamorados e erotizado com cenas de amor se repetindo em minha frente. Percebi claramente como as pessoas crescem em busca do (a) companheiro (a). Fantasiei acompanhar todos aqueles casais nas suas trajetórias pela vida.
Quais seriam seus destinos?
Quantos iriam descarrilhar?
Quantos casamentos iriam ser satisfatórios?
Quantos seriam trágicos?
De volta para casa, passei por barzinhos lotados de jovens solteiros em busca de parceiros (as)...
O Eros solto na noite da cidade! Sem dúvida, estava ali, na minha frente, a explosão da adolescência e da vida jovem. Intensa!
Quando um (a) jovem chega à idade adulta enfrenta duas tarefas: escolher uma profissão e um (a) parceiro (a). Alguns chegam lá mais depressa, outros têm uma adolescência mais prolongada, com maior ou menor freqüência de mudanças de rumo.
Nesses casos passam por um período de incerteza e de experimentação nem sempre muito agradável. Não existem regras imutáveis. Cada um tem o seu estilo, suas necessidades, mas eu poderia afirmar que de um modo geral todos buscam as mesmas coisas: o trabalho e o amor.
No caso da busca do amor, aparece freqüentemente um dilema.
Variar de parceiros ao mesmo tempo ou se contentar com um (a) de cada vez. Penso, sem muita convicção, que depois dessa fase da experimentação, a maioria acaba se contentando com um (a) só porque descobre que a intimidade é diretamente proporcional à exclusividade.
Vocês já ouviram dizer que quem tem muitos amores, acaba não tendo nenhum? Ou será que estou enganado?.
Com o progresso na tecnologia, o processo de busca de um companheiro entrou no mundo da cibernética. O antigo “footing” na praça da minha juventude se transformou em sites de relacionamentos.
Alguns são tão sofisticados, que tentam acasalar pessoas de acordo com seus perfis. Um conhecido me ensinou que esse processo tem certa seqüência: primeiro a conversa informal, depois, se há interesse, outros “encontros cibernéticos”. Se o interesse continua, vêm os retratos... Se isso passar pelo teste, os telefonemas.
Eventualmente um encontro pessoal, que eu acho deve sempre ser em lugar público, durante o dia. E ele enfaticamente recomenda: nenhum encontro antes de pelo menos um ano de conversa na Internet! Ele me deixou perplexo quando disse que nenhuma das companheiras que ele encontrou pessoalmente, dentro desses parâmetros, o surpreendeu. 
Fico matutando por que algumas pessoas encontram logo o seu (sua) parceiro (a) e outras demoram a encontrá-lo (a), prolongando uma adolescência pela vida afora, alguns nunca chegando lá.
Será que inconscientemente elas permanecem ligadas ao pai ou mãe, não havendo espaço para outros ocuparem seus lugares?
Sempre achei a escolha do parceiro (a) uma coisa fascinante.
Vocês já pensaram como isso é delicado e depende tanto da sorte? Imagino que num determinado momento, se olhamos para uma pessoa no mundo no meio de milhões, deve existir um número muito grande de gente que seriam ótimos parceiros para ela. Eu não sou dos que acreditam que cada pessoa só tem uma escolha de homem ou de mulher em sua vida. 
Vem agora a pergunta: o que mantém as pessoas casadas? Será que é o sexo?
Nas gerações passadas dos meus pais e avós, talvez isso fosse o caso. O cenário social era completamente diferente de hoje.
Especialmente para as mulheres, a sexualidade estava completamente dependente do casamento. Para os homens isso era diferente, eles só podiam manifestar a sua sexualidade com prostitutas.
Isso tinha suas conseqüências: para as mulheres a severa repressão sexual e para os homens uma divisão mental entre as mulheres boas e as mulheres más (sexuais), ambas difíceis de serem corrigidas. 
Hoje os costumes são outros.
Para as mulheres já não é necessário casar para a realização da sexualidade. E para os homens a atividade sexual mais facilmente se integra com o amor.
Hoje os jovens se expressam sexualmente com amor sem maiores dificuldades. Assim, duvido que alguém queira se casar para poder expressar a sua sexualidade.
Portanto, as razões para que duas pessoas queiram ficar juntas num contrato social devem passar por outros caminhos. E esses caminhos são infindáveis, cada caso é um caso.
Existem casamentos que funcionam bem mesmo quando na área sexual deixam a desejar, especialmente os casais mais velhos. Ter um aliado (a) na vida continua sendo uma grande motivação!
O casamento exige um equilíbrio em meio a mudanças constantes.
As pessoas se escolhem porque estão num nível semelhante de desenvolvimento, às vezes ainda bem imaturas. Depois, elas crescem emocionalmente e envelhecem com velocidades diferentes. Um pode começar a crescer, seja espontaneamente, seja através de ajuda profissional, mais depressa do que o outro, que vai então ficando para trás. Com isso o relacionamento vai deteriorando.
É por isso que, geralmente, se um parceiro começa a fazer uma terapia quase sempre fica claro que o outro deveria seguir o mesmo caminho. Às vezes isso implica também numa terapia do casal.
Numa terapia de casal, os parceiros podem crescer juntos, mas o processo é sempre mais lento e difícil e os resultados nunca são imediatos.
E preciso haver muito interesse e boa vontade de ambas as partes para que ela progrida, progressão essa que não é linear. Ela vai com três passos à frente e dois para trás.
Não é possível abordar um casamento de uma maneira teórica e abstrata.
Isso porque o relacionamento é muito peculiar e único e tem a ver somente com as duas pessoas envolvidas.
A esperança é que o terapeuta de casal não tenha a necessidade de colocar o casal dentro de uma grade teórica pré-estabelecida.
Não é por falta de tentar que alguns casamentos desequilibram.
Ninguém gosta de separar. Isso é sempre doloroso, para não falar nas sensações de culpa e fracasso.
Mas, quando o relacionamento marital fica deteriorado além de certo ponto, a separação, se possível consensual, passa a ser o melhor remédio.
Mas isso, já é outro tema...
Dr. Marcio V. Pinheiro é Psiquiatra e Psicanalista
Universidade de Maryland, USA Psicanálise American Academy of Psychoanalysis
Circulo Psicanalítico de Minas Gerais. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mendigo Orgânico



Na antiguidade, os reis costumavam convidar pessoas para servi-los e exigiam morassem nos palácios. Esses moradores do palácio tinham de um tudo enquanto serviam ao rei, mas depois que, por alguma razão, deixavam o serviço real precisavam contar com a caridade alheia para arrumar outro emprego ou mesmo para sobreviverem.

Assim, alguns embora desempregados e mesmo estando aptos ao trabalho preferiam se juntar aos “mendas”, ou seja, aos legítimos portadores de alguma invalidez para o trabalho e sorrateiramente praticavam a mendicância, aflorando o mendigo inato ou orgânico.

Desde então, quando se ouve a palavra “mendigo” imagina-se pessoa pobre, maltrapilha, moradora de rua, sem estudo, que fica com a mão estendida ou bate na janela de seu carro para pedir-lhe uma moeda ou qualquer outra coisa. Este é o mendigo habitual, tal qual aprendemos. Eles são sinceros, pois se apresentam tais como estão e merecem atenção.

No entanto, há aquele outro tipo de mendigo: o orgânico. Diferente do tradicional que é vítima de uma situação adversa e desfavorável, o segundo tipo é aparentemente rico, se veste bem, mora bem, tem cultura, porém, está sempre com as mãos (ou a língua) estendidas pedindo esmola, não por necessidade, mas por deficiência de dignidade e por serem moralmente inválidos. Pedem por desafeto próprio, não por eventual miséria.

Pode-se perceber a retidão de caráter no mendigo original ou no circunstancial pelo notório constrangimento enquanto pedem o pouco que precisam. Já no mendigo orgânico nota-se evidentemente a ausência de qualquer acanhamento em seu eloqüente e mendicante discurso. Ele não quer desconto, ele quer de graça para viver boa vida sem digno esforço.

Ao contrário do consumidor consciente que embora saiba negociar uma boa e legítima redução no preço para pagar pelas coisas das quais de fato precisa adquirir, o mendigo orgânico é sovina e inconveniente. O primeiro “chora”, mas faz questão de pagar. O segundo “chora”, mas para receber de graça.

Pedir desconto é ato de civilidade e um direito do consumidor; pedir ajuda quando se está em situação de vulnerabilidade e autêntica necessidade são anseios legítimos e naturais, sinais de retidão e honestidade, não colocando em xeque a integridade moral de ninguém.

Contudo, pedir de graça coisas das quais se pode pagar por elas é forte indício de má índole, autoestima ruim e invalidez moral passível de psicoterapia para reestruturação de caráter.

Como é bom e prazeroso poder pagar - com dinheiro lícito - preço justo e adequado pelas coisas das quais se precisa e possa adquirir. Isso faz bem para a autoestima, para moral e para a alma. Fazer isso é saudável exercício que fortifica a integridade e dignidade pessoal. 

Autor:
 Prof. Chafic Jbeili 

domingo, 9 de setembro de 2012

O PSICANALISTA


O PSICANALISTA NA INSTITUIÇÃO PSIQUIÁTRICA ASSISTENCIAL E DE ENSINO

Agradeço o convite da prof. Eva para falar do trabalho que desenvolvo com minha equipe, no Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
E parabenizo os organizadores desse Simpósio.
É estimulante participar de algo onde se fala de psicanálise e constatar que ela continua a mobilizar pessoas. Digo isto porque diante de contingências mundiais, também detectadas em nosso país, todo cuidado e todo esforço é pouco na preservação da Psicanálise.
Há alguns anos, escrevi um artigo publicado no Jornal de Psicanálise, do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, num número cujo tema era "Psicanálise sem Divã," sobre experiências de psicanalistas fora do "setting" do consultório analítico, e que denominei "Um psicanalista na instituição psiquiátrica, nem herói nem picareta."
Eu acabara de ser convidado pelo recém empossado professor titular do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Prof. Dr. Valentim Gentil Filho, para dirigir o Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e estava muito animado, pensando nas possibilidades de um trabalho integrado, contribuindo com minha visão analítica para a formação médica e psiquiátrica e para a clínica dos pacientes do instituto, internados, de ambulatório e os encaminhados à psicoterapia.
Não tinha idéia da magnitude das dificuldades.
Caracterizaria nosso trabalho, lá, como de resistência quase heróica, mas que tem seus efeitos e permite que colhamos frutos.
Acho que mantemos uma certa crítica e não podemos nos considerar, ainda, nem sermos considerados, picaretas.
O Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria é um serviço basicamente assistencial e com papel importante na formação dos psiquiatras que são nossos estagiários.
Os residentes dos três anos, de que é composto o estágio, considerado uma pós graduação lato senso, lá são iniciados no que chamamos de psicoterapias psicodinâmicas.
Temos representantes do que consideramos três vertentes importantes. Ao menos na nossa história do Serviço, foram as que se estabeleceram lá.
Temos o grupo psicanalítico que engloba um pólo lacaniano, temos um grupo junguiano e os psicodramatistas.
Atendemos pacientes encaminhados pelos psiquiatras do próprio Instituto, por outras clínicas do Complexo H.C. e pacientes que procuram o Serviço diretamente.
Todos os assistentes são médicos, com formação psiquiátrica e uma formação em uma daquelas linhas.

Vemos pessoas muito diferentes, de diversas procedências.
O que nos permite um campo vasto de observação: são vários tipos de fenômenos e problemas, de necessidades e dificuldades, tanto dos profissionais e pacientes, como de situações que envolvem a ambos, que se apresentam ao nosso exame e ao nosso olhar psicanalítico.
Pessoalmente, sou responsável pelo bloco de Psicanálise, do curso de Introdução à Psicoterapia, ministrado anualmente aos residentes.
E, também, pelo estágio de acadêmicos de primeiro e segundo anos da Faculdade de Medicina, numa disciplina recém criada, chamada de Iniciação Científica; no nosso Serviço, o estágio tem o nome de "Introdução à investigação psicológica da mente humana: noções de Psicanálise."
Diariamente, estamos em contacto com jovens médicos, em formação psiquiátrica, nossos residentes; com alunos da Faculdade de Medicina, os acadêmicos; com colegas psiquiatras, professores e pesquisadores em Psiquiatria; e com médicos de outras especialidades. Nossos pacientes, encaminhados pelos psiquiatras e pelas outras clínicas tem, portanto, vinculações médicas: estão sob tratamentos psiquiátricos e/ou sob tratamentos clínicos.
Freud, em 1919, no prefácio de um livro de Theodor Reik (vale a pena sua leitura integral, é mais uma amostra da genialidade de Freud e da clareza de sua percepção do lugar da Psicanálise e de seus problemas.
Aliás, Freud falou sobre tudo: a profissão impossível, os perigos de uma má compreensão e, portanto, de uma má apropriação da psicanálise nos Estados Unidos, por exemplo.)
O texto que quero citar, que se encontra no volume XVII da Standard Edition Brasileira, da Imago, diz o seguinte:
A psicanálise nasceu por necessidade médica. Originou-se da necessidade de ajudar os pacientes neuróticos, que não haviam encontrado alívio por meio das curas de repouso, das artes da hidropatia ou da eletricidade.
Uma observação notável feita por Josef Breuer havia despertado a esperança de que quanto mais se compreendesse a até então inexplorada origem dos sintomas dos neuróticos, tanto mais extensivo seria o auxilio que se poderia proporcionar-lhes.
Aconteceu, assim, que a psicanálise, sendo originalmente uma técnica puramente médica, foi desde o início dirigida para a pesquisa, para a descoberta de elos causais, a um só tempo recônditos e de amplo alcance.
O curso posterior da psicanálise, afastou-a do estudo das determinantes somáticas da doença nervosa, a tal ponto que se tornou desconcertante para os médicos.
Em vez desse estudo, a psicanálise entrou em contacto com a substância mental da vida humana - não apenas a vida dos doentes, mas dos saudáveis, dos normais e dos supernormais. Defrontou-se com emoções e com paixões, sobretudo aquelas que os poetas nunca se cansam de louvar e celebrar - as emoções do amor.

Aprendeu a reconhecer o poder das lembranças, a insuspeita importância dos anos da infância na formação do adulto, e a força dos desejos, que falseiam o raciocínio humano e estabelecem linhas fixas para o esforço do homem. (Freud, 1919/1976, p. 323)
Eu diria também que a formação psicanalítica acrescenta, ou deveria acrescentar, uma função na nossa personalidade que nos permite enxergar, definitivamente, que somos seres emocionais e nos dota de um olho para os aspectos emocionais.
E nos fornece um método para lidar com a vida mental e seus problemas baseado no envolvimento, na intimidade, na proximidade e no acolhimento ao paciente.
A atualidade das questões colocadas por Freud, para mim, é impressionante.
As necessidades médicas a que se refere Freud estão aí; não damos conta medicamente de problemas humanos, sobretudo os de desenvolvimento. As dificuldades que enfrentamos cotidianamente no diálogo com os psiquiatras estão ainda fundadas nesse desconcerto ao qual Freud se refere.
Essa reagudização de mal-entendidos e desconcertos relaciona-se ao incrível e rápido avanço das neurociências nos últimos dez anos.
Fiz minha residência em Psiquiatria, entre 1975 e 1977; não existiam tomografia, ultrassom, ressonância magnética.
Esses avanços, mais os progressos farmacológicos e bioquímicos, trouxeram possibilidades em termos de visualização do cérebro e, portanto, de conhecimentos neuroanatômicos, neurofisiológicos e neurofarmacológicos que permitem esclarecer e manejar situações que se apresentam ao psiquiatra, por vezes, de modo espetacular.
A Psiquiatria adquire seu reconhecimento e sua respeitabilidade entre as outras especialidades médicas. Ou precisa acreditar nisso. É como um adolescente com a maioridade ou a carta de motorista: fica arrogante, onipotente.
O que era considerada opção para "malucos", no meu tempo de faculdade, para aqueles que experimentaram drogas, para aqueles identificados com os hippies, com as esquerdas, com a Antipsiquiatria, procurada pelos que não davam para o estudo, para a Medicina, ou para os que tinham interesses filosóficos, literários, artísticos, hoje é opção para os interessados em pesquisa; e esse é o perfil valorizado nas seleções de candidatos à residência.
No meu tempo, queriam saber se o futuro psiquiatra fazia sua psicoterapia, tinha alguma preocupação com a vida mental própria e estava interessado em conhecer profundamente a dos outros.
Vocês sabem que a base científica da Medicina é dada pelo método anátomo-clínico: a partir das informações do paciente, da observação meticulosa feita pelo médico, da feitura da anamnese, sinais, sintomas, dados de exames são reunidos, diagnósticos são formulados, que remetem a localizações corporais, a estruturas anatômicas, a órgãos ou, mais modernamente, a estruturas microscópicas, intracelulares e a processos bioquímicos.
A Psiquiatria só muito recentemente pôde funcionar nesses moldes.

A Psicanálise que, no dizer de Freud, surge por necessidade médica, instaura dentro da Medicina uma revolução epistemológica ao considerar a existência de um psiquismo, de um inconsciente, que são, no fim, suposições teóricas, abstrações, sem a concretude dos dados com os quais a Medicina trabalha.
A Psicanálise propõe um trabalho no campo das representações, das simbolizações, instrumentalizado por interpretações que não nos levam ao anatômico, ao palpável, ao verificável, como se faz em Medicina e, hoje em dia, na Psiquiatria.
A Psiquiatria sempre ambicionou funcionar como uma especialidade adulta, à altura das outras e nunca seu relacionamento foi tranqüilo com a Psicanálise.
Mas, durante um certo tempo, suas limitações eram tão grandes enquanto especialidade médica, com recursos médicos escassos a serem oferecidos, que se convivia mais pacificamente; estudantes de Medicina optavam por Psiquiatria interessados em Psicanálise.
Mesmo na mídia as confusões terminológicas eram freqüentes, chamando-se psiquiatras de analistas e vice-versa.
Os psiquiatras valiam-se quase que naturalmente da psicanálise para compreender o psiquismo e valorizavam tentativas terapêuticas sobre esse psiquismo.
A quase totalidade dos psiquiatras fazia alguma formação psicoterápica, muitos interessavam-se por psicanálise e se tornaram analistas.
Muitos didatas atuais da Sociedade foram psiquiatras. E muitos começaram lá no nosso Serviço.
A psicopatologia tinha papel preponderante na compreensão de quadros clínicos e nas categorias diagnósticas. Além disso, um aspecto importantíssimo das propostas psicanalíticas: o relacionamento - fenômenos psicológicos desenvolvem-se sobretudo na particularidade de um encontro, no envolvimento de dois seres humanos; este é nosso campo observacional e a pessoalidade nossa marca registrada. Isto era valorizado e visualizado nas entrevistas, nas consultas, mesmo que psicoterapias não se formalizassem.
Os clínicos das outras especialidades, que atualmente ainda me parecem os médicos mais sensíveis e que oferecem menos resistências a valorizarem fenômenos psicológicos (pessoas pensam e tem alma ...) tem menos dificuldade e relutância para encaminhar pacientes a psicanalistas ou psicoterapeutas; tem a percepção mais clara de que pode haver problemas com seus pacientes na esfera do psicológico ou do mental e que isso seria da alçada de psiquiatras.
Esta não é mais a situação atual.
Psicologia, no sentido de perceber que pessoas tem vida emocional, não faz mais parte da Psiquiatria. A euforia da maioridade da Psiquiatria e de sua inclusão de fato entre as especialidades médicas se, por um lado, é promissora quanto à realizações importantes, por outro, no momento, é fator de retrocesso e empobrecimento.
Faz, por exemplo, com que se reforce nos psiquiatras o que o médico pode ter de pior e é quase doença profissional: onipotência, arrogância. Introduz e reforça a impessoalidade como atitude no contacto e na atuação clínica, com a idéia de permitir objetividade e eficiência (médicos, como seres humanos, são limitados e as limitações mentais humanas deixam-nos sempre prontos a aderir ao que é menos trabalhoso, mais imediato; dúvidas, possibilidades variadas, necessidade de mais observação e investigação sempre tentamos evitar).
E obriga os psicólogos a se restringirem a avaliações neuropsicológicas, a ficarem no campo médico, padecendo do que considero um complexo de inferioridade.
O que no meu tempo de formação psiquiátrica parecia óbvio e fazia parte de nossa atividade clínica, isto é, a detecção, a consideração e a própria abordagem psicológica do paciente pelo psiquiatra, hoje não se faz.
Ouvi há pouco tempo, de um prestigiado jovem psiquiatra, que a intimidade de seu paciente é algo que não lhe diz respeito; ele está interessado nos sintomas e alívio dos mesmos. Sintomas que são exaustivamente colecionados, agrupados, nomeados.
Hoje, diante da minha experiência no meio médico e com essa Psiquiatria exercida e ensinada em nosso Instituto, vejo claramente que fica faltando algo. Nos esquemas novos de diagnósticos, DSM, CID, vemos as questões emocionais e psicológicas enfeixadas dentro dos transtornos de personalidade e os psiquiatras de mãos atadas, sem propostas, sem entender, sem poder ajudar os que demandam ajuda. Para o psicanalista, há a condição de oferecer ajuda psicológica para sofrimentos de natureza psicológica, buscando resultados não necessariamente na esfera de alívio e tranquilização, mas de evolução, desenvolvimento, graus de autonomia, liberdade, capacidade de ter responsabilidade, capacidade de tolerar frustração, lidar com angústias, tolerar conflitos e suportar a dinâmica da vida mental.
Minha esperança, e que me mantém lá, trabalhando, como a de muitos que se debruçam sobre essa questão, é que o pêndulo naturalmente comece a oscilar para o outro lado. No cotidiano, temos pacientes tolhidos, contidos, fechados e ensimesmados e médicos residentes desapontados, frustrados, quando não extremamente angustiados ou deprimidos.
Perspectivas, a meu ver, vem da ação desenvolvida no nosso Serviço: atitude de acolhimento, valorização dos contatos pessoais, meticulosidade no exame e avaliação dos casos, acompanhamento dos atendimentos em supervisões individualizadas.
São médicos recém-formados, muito jovens, alguns inexperientes da própria vida. Outros claramente deformados pela próprio curso médico, sobrecarregado pelos grandes avanços tecnológicos que dá pouco espaço ao humano (tentativas para sanar esse mal vem sendo feitas; criou-se a disciplina "Bases humanísticas da Medicina").
Procuramos, durante o estágio que fazem conosco, desenvolver neles a percepção e valorização das questões pessoais, íntimas e particularizadas e contribuir para que possam adquirir novos referenciais perceptivos sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre eles mesmos.
A subjetividade é quase uma surpresa e julgada um empecilho nessa psiquiatria positivista.
Dado que nos orgulha atualmente: quase todos os residentes estão fazendo alguma forma de psicoterapia psicodinâmica pessoal, ou análises mesmo. O mais difícil, tem-me parecido, é poder fazer ver a todos os envolvidos nos atendimentos a pacientes do Instituto a complementaridade dos campos (médico-psiquiátrico e o campo do psicológico), que devem manter sua independência e sua especificidade. Aqui surgem alguns problemas que interessam a todos os envolvidos em formação.
Não pode haver competição nem a pretensão da primazia de um campo sobre outro.
Não penso que os psicanalistas possam ignorar ou desprezar os avanços das neurociências e os recursos terapêuticos oferecidos por ela.
Desde o início, o próprio Freud considerou que o que estava propondo como teoria e como método era provisório, até que os mistérios do cérebro nos fossem totalmente desvendados.
Equívocos e mal entendidos de ambas as partes: a psicanálise como teoria psicogenética é frágil e especulativa.
A psicanálise é sobretudo teoria de observação e detalhamento rico para a apreensão da realidade psíquica. Enriquece as descrições patoplásticas e não contribui muito significativamente para a psicogênese.
As teorias psicanalíticas permitem muita especulação erudita.
Prestam-se a elocubrações que se mostram extremamente distantes da realidade de contatos humanos.
Costumo dizer para meus alunos que "gente precisa de gente."
O ser humano se constitui sempre com o outro.
Humanizamo-nos pelo contato, viramos gente através do outro. Pela minha formação médica e psiquiátrica, que precedeu a longa e lenta formação analítica, não tenho problemas em propor e praticar algo que considero subordinado à Medicina, à Psiquiatria.
A primazia é do psiquiatra. Desde que o psiquiatra entenda de gente, tenha sensibilidade, generosidade e mesmo certa coragem.
E humildade de poder resignar-se à uma posição de retaguarda. E, ainda, afinidade ideológica para um trabalho conjunto.
Temos contribuído e acreditamos na construção desse psiquiatra.
Os psicanalistas, atuando no meio acadêmico médico, têm contribuições a levar, mesmo a profissionais que não vão fazer nem estudar psicanálise, mas podem ter suas atenções voltadas para o humano.
Observamos, na prática, seja nos pacientes que nos procuram, seja nas dificuldades dos residentes atendendo pacientes e suas famílias, o efeito de nossa postura de disponibilidade para acolhimento e escuta ("- Sei lá, doutor, eu vim aqui, pois me disseram que são os médicos que conversam com a gente ....").
Nós nos sentimos confiantes e esperançosos de que a Psiquiatria reintegre as concepções psicanalíticas, deixando de fazer as absurdas exigências de estudos probabilísticos e epidemiológicos, de comprovação de eficácia, inaceitáveis.
Pois a Psicanálise, ao ser medicalizada, descaracteriza-se e se empobrece.
Para finalizar, lembraria ainda Freud. Na correspondência com Oskar Pfister, conhecido dos psicólogos pelo seu teste das pirâmides coloridas, numa carta datada de 25 de novembro de 1928, Freud escreveu: "em primeiro lugar quero proteger a psicanálise dos médicos, e depois, dos sacerdotes.
Gostaria de entregá-la a um grupo profissional que ainda não existe, o grupo dos pastores de almas profanos, que não necessitam ser médicos e não devem ser sacerdotes."
Para variar, Freud, ciente e perspicaz, parecia antever os descaminhos e equívocos a que a psicanálise estaria sujeita.
Verificamos, até como forte tendência, o perigo da medicalização da psicanálise.
A essa pressão nós também, desse grupo, resistimos, procurando responder, demonstrando a especificidade do campo psicológico e as possibilidades de apreensão da realidade psíquica, em que participam sensibilidade e intuição.
Orientar-se psicanaliticamente é estar dirigido à subjetividade e à particularidade de cada indivíduo, à consideração de essências pessoais, o que está além de diagnósticos.
Aqueles que assim observam e lidam com pessoas não têm nada a oferecer para a depressão ou para os transtornos borderline de personalidade, por exemplo, como se fosse apenas mais um medicamento, aliás ultrapassado, de eficácia duvidosa e não comprovada.
O legado de Freud é revolucionário e libertador.
Foi assim, desde o início, com as mulheres e a sexualidade e não se presta, nem pode se render, a projetos globalizantes e de controle social.

Dr. Oswaldo Ferreira Leite Netto
É Psicanalista e Professor de Psiquiatria USP-SP
Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina - USP

Referências
Freud, S. (1976). Prefácio a ritual: Estudos psicanalíticos, de Reik. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 17, pp. 323-327). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1919)
Leite Netto, O. F. (1997). Um psicanalista na instituições (nem herói, nem picareta ...). Jornal de Psicanálise,30 (55/56), 205-212.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Freud Explica e Lacan Implica o Poder do Pai!


“Duas coisas podem acabar com a delinqüência e tanta violência: A educação para inscrição do nome do “Pai” segundo a psicanálise; também a possibilidade da exposição para a vergonha pública do sujeito se ele for neurótico. Outras opções e medidas mais radicais poderiam ser adotadas a “Pena de Morte” para quem matar por qualquer motivo, medicalização psiquiátrica injetável contra os surtos de violência que podem ser tratados como doença mental grave e de risco para a sociedade, famílias, contribuintes e a segurança da credibilidade do estado, da educação e da Justiça. Outra opção vem da idade média e volta lobotomia cerebral.”

PSICOTERAPIAS BREVES - 2001

TRABALHO APRESENTADO EM 2001  PSICOTERAPIAS BREVES          Este trabalho terá   como objetivo mostrar a economia em se ter como práti...