quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A CLÍNICA DO DESAMPARO..

 

“A Clínica do Desamparo”

Não é uma clínica física, mas um conceito psíquico, subjetivo e fundamental no percurso de psicanálise que explora o sentimento de desamparo humano, essencial para o desenvolvimento do sujeito e ligado a condições como o pânico e a depressão, solidão, falta de inteligência emocional, traumas infantis, sujeito com algum grau de psicose não diagnosticada ou tratada, isso tudo hoje já  estão sendo abordado em textos, teses e cursos de Psicologia, Psicoterapias e  Psicanálise e projetos de extensão, qualificação  que tratam do acolhimento, trauma e vulnerabilidade, especialmente de infância, adolescência, e adultos que nisso se incluam idosos, terceira idade.

O que é a Clínica do Desamparo?

  • Conceito Psicanalítico: O desamparo é visto como uma condição fundamental da vida, indicando nossa dependência de um “outro” para conforto e cuidado, sendo crucial para a formação, sanidade da subjetividade.
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  • Relação com o Pânico: O transtorno de pânico é considerado uma manifestação paradigmática do desamparo na contemporaneidade, segundo vários autores e profissionais.
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  • Desamparo Aprendido: Estudo em psicologia,  psicanálise que descrevam as dificuldade de aprendizagem após experiências traumáticas, incontroláveis, modelos repetidos por pais e tutores da nossa infância, tratável com Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), psicoterapias multidisciplinares, sessões de escuta psicanalítica e alguns casos medicalização por profissionais neurológia e psiquiatria  para promover aviar medicação clínica adequada.
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  • Contexto Clínico: Em termos práticos, refere-se à abordagem terapêutica psicanalítica que acolhe e lida com o sofrimento, a angústia e a falta de suporte, sendo aplicado em projetos de extensão, qualificação para lidar com crianças e adolescentes em acolhimento. 

CLÍNICA DO DESAMPARO

 WINNICOTT COM LACAN

Juan Mitre


Há uma clínica subjetiva, psíquica do desamparo, ou melhor, uma clínica dos efeitos do desamparo.

Trata-se – para dizer de modo mais simples – da clínica daqueles sujeitos que não contaram com um “Outro” que trate, acolha, escute e “cuide” deles.

Sujeitos que se constituíram a partir de um “Outro” estilo  “malvado” favorito ou via síndrome de Estocolmo, (quer seja um Outro excessivo em sua presença ou em sua ausência).

Trata-se de crianças que foram abandonadas, que caíram da inscrição do seu Outro.

Crianças e adolescentes que “chegaram ao fim do caminho, ou os pais (ausentes) que não se inscreveram psiquicamente dentro do Édipo e vínculos parentais saudáveis nos anos iniciais da alfabetização ou linguagem.

Os efeitos deste “desamparo” (que é preciso situá-lo bem em cada caso, quer dizer, quais são os nomes do desamparo para cada um) é o que se diagnostica como transtorno anti-social, como patologia da conduta.

Se formos freudianos, podemos dizer que as marcas do desamparo põem em marcha, a repetição e que a repetição – também nestes casos, por que não?

é um modo de recordar, ainda que muitas vezes, um modo “selvagem” de recordar.

A estes “transtornos de conduta” convém lhes supor um texto, convém supor que nestas marcas (às vezes no real do corpo) há um texto a ser lido, um texto a produzir.

Mas também a chamada “conduta anti-social” (impulsões de todo tipo) é um modo de defesa diante da angústia.

É habitual que estas crianças e adolescentes se façam rechaçar, se apresentem “feios, sujos e maus” ou de alguma outra forma que seja “insuportável” para o Outro.

Mas, do que ali falam com seu comportamento e com seu corpo é do rechaço do Outro primordial, de algo que se inscreveu neles como rechaço.

O problemático – e lamentável – é que as instituições assistenciais tendem a repetir este rechaço, a “re-inscrever” este rechaço, ratificando-o e, inclusive, reforçando-o.

“Não suportam” estas crianças e as expulsam (às vezes as expulsões são chamadas de derivação ou traslado).

A posição de Winnicott

Parece que os valiosos desenvolvimentos de Donald Winnicott a esse respeito foram esquecidos.

Seu livro Privação e Delinquência é fundamental para nos orientar nesta clínica.

O criativo psicanalista inglês foi psiquiatra consultor no plano oficial de evacuação de pessoas da Segunda Guerra Mundial.

O que o levou a trabalhar em albergues destinados a crianças que não podiam viver em lares comuns.

Essa experiência o leva a teorizar sobre as crianças que sofrem uma privação em sua infância e sobre as manifestações clínicas que isto tem.

E também – o que nos interessa, sobretudo – a pensar sobre o tipo de tratamento possível.

Os desenvolvimentos de Winnicott implicam

 – ao meu ver

– também uma política diante da alteridade, o que é toda uma posição.

Ao desamparo, Winnicott chama de “privação”.

Os transtornos de conduta são as manifestações clínicas do transtorno anti-social e a tendência anti-social surge de uma privação sofrida na infância.

Explica que na base da tendência anti-social há uma “boa experiência precoce” que se perdeu e que a criança teve a capacidade de perceber que a causa do “desastre” (determinado caos) está baseada em uma falha ambiental.

É uma indicação interessante para pensar a questão do diagnóstico nestes casos: diz que o grau de maturidade do eu que esse tipo de percepção possibilita (que houve uma falha ambiental) faz com que desenvolva uma tendência anti-social ao invés de uma psicose.

E, portanto, como essa criança teve esta percepção da falha ambiental, é o ambiente que deve proporcionar uma nova oportunidade.

Ou seja, que a criança tem o registro de que perdeu algo que vinha funcionando, perdeu algo que para ele era bom.

Entre os sintomas anti-sociais típicos, Winnicott situa a voracidade, o roubo e o causar aborrecimento.

Quem quer que tenha trabalhado com crianças e adolescentes internos ou tenha tido acesso a essa clínica, não terá dúvidas a respeito.

Poderíamos agregar a esses sintomas típicos, o consumo de substâncias, mas, muitas vezes também, o consumo é um modo de causar aborrecimento.

Winnicott sustenta que o tratamento indicado para a tendência anti-social não é a psicanálise.

Esta é uma perspectiva que, certamente, é preciso considerar, ou melhor, tratar de entender o que ele está dizendo com isto.

Considerava que o método terapêutico adequado consiste em prover a criança de um cuidado que ela possa redescobrir e por à prova, ajudá-la a que volte a ter “confiança” no ambiente.

Trata-se de que o ambiente agora “sobreviva” ao embate antissocial e onde o sujeito põe à prova os andaimes, a estrutura, a instituição; põe à prova o Outro.

Que o Outro – desta vez – sobreviva.

Por isso diz que a palavra-chave não é “tratamento” ou “cura”, mas “sobrevivência. Inclusive, Winnicott diz que quando o sujeito começa a ter confiança novamente (o que é uma conquista,) despedaça as coisas para estar seguro de que o andaime aguenta.

Essa é a dimensão do tratamento (talvez a mais importante) que Winnicott quer acentuar, ao referir-se que a psicanálise não é o tratamento adequado para a tendência anti-social.

Sustenta que são fundamentais intervenções no ambiente. Intervindo sobre o ambiente, pode-se intervir também – se esta intervenção for bem orientada – sobre a realidade psíquica ou o fantasma.

Aqui é importante pensar que tipo de dispositivos se utiliza para tratar determinadas problemáticas.

Se são dispositivos criados em função da problemática em questão ou se pretende, ao contrário, adaptar o caso a dispositivos que não estão preparados.

Neste sentido, é crucial o funcionamento das instituições que alojam estes sujeitos; sejam lares, hospitais, casas de meio caminho, inclusive famílias substitutas ou que adotam.

Cabe perguntar-se a esse respeito, se realmente tal ou qual instituição se mostra confiável, se é capaz de alojar o bom e o mau do sujeito, se suporta que a aborreçam, se pode perdurar para esse sujeito no tempo e não ratificar a ideia de “destino de exclusão” que, em geral, se armou.

Se realmente está preparada para suportar que seja posta à prova com atos de todo tipo.

Trata-se – resumindo – de que a instituição possa suportar, ao mesmo tempo, que não seja derrubada; porque isso implica para o sujeito, uma nova queda do Outro.

Cabe aqui acrescentar a concepção de trauma para Winnicott.

Em termos tão simples quanto precisos, ele diz: “O trauma significa uma ruptura na continuidade da existência do indivíduo”.

 Algumas indicações clínicas

Agora, tentando articular a perspectiva de Winnicott com a posição clínica da psicanálise lacaniana, algumas indicações:

  • Não deixar-se oprimir pela dureza de uma história; é preciso sustentar o acolhimento da escuta mais além da pregnância imaginária do terrível.
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  • Localizar a responsabilidade do sujeito. Não se pode esquecer que responsabilizar restitui a condição de sujeito, o tira do lugar de vítima, de um lugar de objeto.
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  • Assinalar ao sujeito do que não é responsável.
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  • Às vezes, é necessário assinalar primeiro esta dimensão para que em um segundo momento apareça a responsabilidade subjetiva.
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  • Temos o trauma, o abandono, o encontro com o real, a falha ambiental, como se queira chamar.
  • De tudo isso, o sujeito não é responsável.
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  • Depois temos sua resposta diante disto. a responsabilidade implica um modo de resposta.
  • É impossível não responder; portanto, pela resposta, sempre se é responsável.
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  • Apostar na emergência do inconsciente como em qualquer neurótico.
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  • Reconhecer o desejo em jogo, quer dizer, não abandonar a posição analítica.
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  • Ao mesmo tempo (porque não é ou uma coisa ou outra), certo nível de holding – de apoio, de estar, de por o corpo – é necessário.
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  • Suportar ou sobreviver ao embate da pulsão (é mais que manobrar com a “famosa” transferência negativa).
  • Situar com precisão o momento do desamparo para esse sujeito (o que muitas vezes é diferente das ideias que outros têm acerca do que tem sido catastrófico para ele).
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  • Situar também com precisão o momento prévio à queda, onde algo bom havia, onde algo funcionava.
  • É preciso saber o que se perdeu.
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  • Apostar na emergência de novas significações, assim como também é necessário “des-totalizar” outras.
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  • É preciso ajudar o sujeito a historicizar, mas levando em conta que é preciso produzir equívoco, produzir uma nova versão que situe o real e o separe do fantasma.
  • Pedir sonhos.
  • Quer dizer, apostar no inconsciente como defesa diante do real.
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  • Ser confiável.
  • É fundamental e leva tempo comprová-lo. Em geral, partem da desconfiança; não se pode esquecer que o
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  • Outro os defraudou e isso sempre aparece na transferência. Winnicott dizia que a confiabilidade humana pode por fim a um grave sentimento de imprevisibilidade que persegue nestes casos, o tempo todo.
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Para finalizar, algo que dizia Winnicott:

“Em minha experiência, há momentos em que um paciente necessita que lhe digam que o desmoronamento, cujo temor destrói sua vida, já aconteceu”.

Em resumo, “a clínica do desamparo” é um campo de estudo e prática clínica focado em como lidar com a vulnerabilidade humana, muitas vezes explorado através da psicanálise e de intervenções que visam restaurar a capacidade do sujeito de se relacionar e se sentir amparado. 

FONTE:

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes – AMP/EBP / REVISÃO DE PUBLIC. I.A.

Revisado: Prof. Luiz MD.- ABMPDF

NOTAS

  1. Publicado em La adolescencia: esa edad decisiva. Una perspectiva clínica desde el psicoanálisis lacaniano, Grama, 2014.
  2. Expressão de Clarice Winnicott na apresentação de “Privação e delinquência”.
  3. Winnicott, D. W., Deprivación y delincuencia, Paidós, Bs. As., 1990.
  4. Ibíd., p. 154.
  5. Ibíd., p. 154.
  6. Ibíd., p. 155.
  7. Ibíd., p. 263.
  8. Winnicott, D. W., “El concepto de individuo sano”, en Winnicott Insólito, Boushira, J. y Durieux, M-C. (Comp.), Nueva Visión, Bs. As., 2005
  9. Como disseram muito bem Elena Nicoletti e Fabiana Rousseaux no artigo “Psicoanalista en la trinchera donde se enfrenta el horror”, publicado no diario Página 12, Buenos Aires, 10-6-2003.
  10. Winnicott, D. W., La crainte de l´ effondrement et autres situations cliniques, París, Gallimard, 2000. Citado por Denys Ribas en “El uso de la escisión en Winnicott”, p. 170 en Winnicott Insólito, Boushira, J. y Durieux, M-C. (Comp.), Nueva Visión, Bs. As., 2005.

A CLÍNICA DO DESAMPARO..

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