domingo, 9 de outubro de 2011

Você me completa”: sobre relacionamentos e incompletude


Você me completa": sobre relacionamentos e incompletude

Semana passada uma amiga me perguntou se era verdade que a gente sempre busca na pessoa com quem a gente se relaciona o nosso pai ou a nossa mãe.

Muitos amigos me fazem este tipo de pergunta por saberem que eu estudo psicanálise – e eu achei engraçado porque é muito curioso como ela é difundida na mídia, sempre de uma maneira muito determinista.

Já ouvi frases do tipo: "Meu pai é cafajeste, por isto só namoro cafajeste, Freud explica". E pronto: a pessoa se contenta com isto e para por aí, não se questiona, nem tenta mudar.

Quando minha amiga me fez esta pergunta, eu já tinha escrito boa parte do texto aqui para o PdH, mas a pergunta dela me fez questionar sobre o que seria legal falar para pessoas – que não são psicanalistas – sobre relacionamentos amorosos, pela visão da psicanálise.

E reescrevi o texto.

Em primeiro lugar, a resposta que dei a ela: sim, vamos buscar algo do nosso pai e da nossa mãe, do nosso familiar (aqui, no duplo sentido mesmo), do que nos constituiu.

E não, o que vamos buscar nunca é relacionado a nossa mãe e pai reais, mas sim à imagem que temos deles.

Nossa eterna incompletude

Cena clássica do filme Jerry Maguire. "You complete me"… Será mesmo?

Somos inseridos no universo social quando nascemos por pessoas, mas que para nós, quando bebês, exercem papéis de figuras – materna ou paterna.

A maneira como encaramos estas figuras é completamente única.

Expliquei para a minha amiga: se você entrevistar 5 irmãos, gêmeos quíntuplos, que nasceram juntos, foram criados pelo mesmo pai e pela mesma mãe e perguntar a cada um deles como eles veem seus progenitores, eu garanto que cada um vai descrevê-los de uma maneira diferente.

Isto porque, na medida em que nos relacionamos com os outros, esses outros vão nos marcar de maneira completamente subjetiva – e vamos levar estas marcas, nossas e particulares, para a vida.

Mas isto não quer dizer que estas marcas são imutáveis; a cada encontro nos deparamos e fazemos novos arranjos, releituras destas nossas formas de relacionar, mas sempre com influência daquilo que já vivemos.

Segundo a psicanálise, quando nascemos, passamos por um momento em que vivemos um estado de completude – mãe e bebê (e de novo, não estou falando da mãe real e sim de quem exerce esta função materna) vivem de forma simbiótica, como se fossem um.

E isto é imprescindível para a sobrevivência do bebê, pois o bebê humano nasce muito despreparado (se estamos vivos é porque alguém exerceu esta função). É necessário que a mãe se volte inteiramente para ele e atenda todas as suas necessidades, inicialmente, só biológicas.

Posteriormente, com os cuidados que recebe, com a voz, o olhar da mãe, o bebê cria uma demanda de amor, de ser amado e receber tudo daquela mãe – não só da ordem biológica, mas sim da ordem simbólica.

Porém, esta demanda vai ser frustrada, pois é impossível sustentar uma satisfação infinita e completa a esta demanda de amor.

Aquele estado de completude vai ser perdido para sempre.

E é importante que seja, pois a partir da falta dessa satisfação infinita é que o bebê vai se voltar para o mundo, se inserir socialmente.


A primeira vez que sua namorada o abandonou você ficou chorando em posição fetal?

É esta falta de completude, que nunca vai ser alcançada, pois não dá para retornarmos a este estado primitivo, que vai instaurar nosso desejo – que nada mais é nossa busca incessante por satisfação – e que nos coloca na vida, em movimento.

Tal desejo é único e por isto a maneira de levar a vida de cada um é única.

As relações amorosas também são, na verdade, movidas pelo nosso desejo.

Buscamos os modelos de relações que conhecemos, na maioria das vezes, de forma inconsciente. E aí acontece, muitas vezes, um desencontro: se meu desejo é único e do outro também é, como conciliar os desejos diferentes para ficarmos juntos?

Philippe Julien, no livro Abandonarás teu pai e tua mãe (2000), trata deste assunto.

Segundo Julien, para os pais conseguirem fazer com que seus filhos sejam educados para o mundo, eles devem passar aos filhos a lei do desejo, fundada na concepção de que não existe completude nem no ser humano, nem em suas relações; existem escolhas.

Para Julien, as relações conjugais são pautadas em três dimensões:

o amor, o gozo e o desejo.

O amor e suas ilusões

O amor é baseado no devotamento, na atenção, na idéia de constituir um 1 de 2.

O amor é da esfera do nosso imaginário, ou seja, daquilo que espero, imagino, que o outro tenha que me completa e se baseia naquelas marcas que trazemos conosco das nossas relações primeiras. É da ordem da imagem.

Hoje em dia, é o amor que é supervalorizado pela mídia, que retrata em filmes e novelas histórias impossíveis, nas quais a identificação com o outro é suficiente para se estabelecer uma relação duradoura.

A mocinha olha para o mocinho e – pimba!!! – se amam loucamente e se completam; e isto é suficiente para que sejam felizes para sempre.

Não estou dizendo que o amor não é importante para uma relação. Claro que é, pois este encantamento com o outro faz com as pessoas se abram para este outro.

Mas basear um relacionamento apenas nesta esfera é perigoso, já que o outro é sempre de carne e osso e, portanto, sempre diferente da imagem que fazemos dele.

Depois do arrebatamento passional, surgem frases como "Ele não era como eu imaginava" ou "No começo era diferente". Era diferente porque se baseava apenas na ilusão, na imagem – e ela, como Narciso teve a oportunidade de descobrir rapidamente no lago, é fugaz e trapaceira.


Quanto do outro é o outro e quanto é sua projeção?

O gozo que nos move

Para Julien, há dois tipos de gozo: o sexual, que é o gozo do corpo do outro e o não-sexual.

Gozo aqui não é o equivalente ao orgasmo, mas é um conceito psicanalítico que aponta para a energia psíquica que nos move, falando de uma maneira bem simplificada.

Mais ou menos assim: temos uma quantidade de energia, que fica no limite entre o físico e o psíquico, que precisa ser liberada o tempo todo – pela nossas ações, pensamentos e sentimentos – para manter o aparelho psíquico "estável", sem grande quantidade de excitação, pois, com muita excitação, sentimos desprazer.

Assim, cada um busca ações e maneiras de se relacionar no mundo de modo a provocar esta descarga de energia – que provoca alívio, mas muitas vezes dor também.

O sexo não deixa de ser uma das maneiras de liberação desta energia, mas existem muitas outras. O gozo sexual, por exemplo, não ocorre apenas no sexo, mas sim em todas as nossas ações que provocam uma descarga parcial desta energia.

Para Nasio, "o gozo é um lugar vazio de significantes" (p. 29), ou seja, algo do qual não se consegue falar exatamente, pois é da ordem do impossível.

Mas bons escritores e escritoras conseguem se aproximar da descrição do gozo, como Hilda Hilst, nesse trecho de A obscena senhora D (2001):

"A paixão é a grossa artéria jorrando volúpia, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito e também o teu deserto" (p. 29)

Esta descrição fala do corpo. Ao ler, imediatamente você sente como é, embora sempre, na leitura, não dê para descrever exatamente as reações do corpo que sentimos neste gozo (que é esta energia nessa descrição de Hilda sobre a paixão).

Esta dimensão também é importante para uma relação, mas também não sozinha, já que o alívio provocado pelo gozo é o que nos move.

Mas Julien (2000) de novo fala que relacionamentos baseados nestas duas dimensões são (1) medíocres, amor por identificação ao outro; ou (2) subversivos, baseados apenas no gozo sexual.

O desejo e nossa falta


Eu, você e todos nós: sempre incompletos

Para Julien, "se o amor é dom daquilo que somos, o desejo é, ao inverso, dom daquilo que não temos e daquilo que não somos: é confissão da falta, do vazio" (p. 35).

O autor afirma que a lei do desejo "é a única que pode sustentar a diferença entre os sexos" (p.37). Esta diferença, ele ressalta, não é anatômica, nem de gênero. É a diferença no sentido de alteridade, ou seja, saber que o outro é diferente de você e conseguir valorizar isto.

E saber que a completude não existe, nem em nós mesmos, tampouco numa relação.

Neste sentido, Julien fala que, ao nos submetermos à lei do desejo, aceitando o diferente, o incompleto, podemos construir relações que se mantém – e sempre descobrir algo novo e diferente dentro destas relações.

Mas por que não nos submetemos sempre a ela? O autor afirma que é para evitar conflitos e transgressões das leis do bem e do dever, que implicam em sempre se mostrar como bons e perfeitos ou moralmente inabaláveis.

É aí que está o desafio: aceitar que o outro não é completo implica, primeiro, aceitarmos que não somos – olhar para dentro e ver as nossas dificuldades e a nossa falta. Ainda segundo o autor: "o desafio é ficar próximo do não-conhecido no outro e em si mesmo" (p.43).

Ítalo Calvino termina seu livro As cidades invisíveis (1990) com o seguinte trecho, que acho muito pertinente:

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tenta saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."

Na sociedade atual, este olhar para dentro é bem difícil: primeiro, pela infinidade de afazeres que nos distraem; segundo, que a exigência de se mostrar perfeito e feliz o tempo todo dificulta ainda mais olharmos o que não é bonito e feliz – coisa que já é difícil de se fazer por si só. Assim, cresce a venda de livros de auto-ajuda, que só reforçam que a felicidade plena e a completude é possível. Mas a insatisfação também cresce, assim como o desentendimento nas relações.

Cada uma das dificuldades enfrentadas por um casal não é superada (se é que pode-se dizer superação) sem uma boa dose de sofrimento.

E sem uma boa dose de conversa. É o falar, argumentar e negociar que faz com que as escolhas do casal possam ser construídas.

Calma, meninos, não estou propondo a DR eterna! Mas a pontuação das diferenças é sempre necessária – e por meio da fala que chegamos a acordos, saídas, novos caminhos.

Neste sentido, a música popular brasileira, arraigada em concepções menos eruditas sobre o amor, muitas vezes dando voz a sabedoria popular, diz: "Pergunte ao seu orixá, amor só é bom se doer" (letra de "Canto de Ossanha", de Baden Powell e Vinicius de Moraes). Simples.

Porém essencial para pensar num amor fundado na diferença.


Porque, afinal, é com a diferença também que se pode sair da mesmice:
é por saber a dor, que se sabe aproveitar a felicidade.

E as pessoas esquecem-se das oposições na contemporaneidade, por temer abalar tudo aquilo que julgam estável. Tem de se ter a garantia, a certeza…

Mas certo mesmo é que não se pode ter certeza de nada com relação ao amor.

Marina Graminha Cury é Psicanalista

Psicóloga e especialista em Psicologia Hospitalar pela USP. É psicanalista em formação. Atua como psicóloga clínica em instituições e consultório particular e acredita que os livros de auto-ajuda deveriam ser queimados em praça pública.


Referências:

Calvino, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Julien, Philippe. Abandonarás teu pai e tua mãe. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.
Hilst, Hilda. A obscena senhora D. São Paulo: Globo, 2001.
Nasio, J D. 5 lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1993.


"O Avarento guarda o seu Tesouro como se fosse seu; Mas teme Servir-se dele como se na Realidade pertencesse a Outrém." (Bion)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O poder da Escuta

O poder da Escuta

O poder da “Escuta” é imprescindível para psicanalistas, psicoterapeutas, terapeutas, educadores e principalmente para estudante de psicanálise que deve desenvolver o poder da Escuta.

Mesmo que não vá exercer psicanálise em clínica analítica como uma ocupação diária ou ocupação laboral remunerada.

Desde inicio do seu estudo e de todo seu percurso psicanalítico, na sua formação em psicanálise, deverá desenvolver a escuta em sala de aula, nas dinâmicas em grupo, em seu estágio na prática restaurativa e multidisciplinar sob supervisão do seu analista.

Desenvolve-se muito na “Escuta” principalmente ao fazer sua “análise” pessoal não só onde o analista vai acolher a sua fala pela “escuta”; mas o permitirá e favorecerá condições para que o analisado desenvolva-se na arte da “Escuta”.

A escuta nos permitirá conhecer melhor a nós mesmos, para depois construída essa ponte “travessia”, nós tentarmos auxiliar o “outro” na sua travessia seja de sofrimento, angústia e aflições que na maioria das vezes o que se sabe que foi toda uma vida sem “escuta”.

A escuta é que nos mantém em equilíbrio no labirinto.

No Zen-Budismo, E em algumas religiões e filosofias a “Escuta” é o pilar de contato com a divindade.

É na escuta e com silêncio que se cria uma trilha ou um único caminho para se chegar à divindade, seja para atendimento de pedidos, preces ou orações.

É na postura de silêncio e humildade que a supomos serem “Escutadas” por um poder superior do bem e maior que todos através da fé.

É preciso na vida sempre se escutar, e primeiramente e para o aprendiz de psicanálise é preciso aprender a “Escutar-se” a si mesmo.

Escutar as autoridades e as leis.

Escutar os Mestres.

Escutar os Professores,

Escutar os Líderes Religiosos

Escutar nossos amigos.

Escutar nossos pais ou representantes dos mesmos.

E é somente nessa trilha, travessia da “Escuta” que vamos aprender a caminhar com equilíbrio e sabedoria para ver.

Assim nos permitimos nos conhecer cada vez melhor para poder auxiliar o nosso próximo.

Quando não se desenvolve a escuta, fica em evidência nossa impossibilidade e dificuldade de interagir para “escutar” . Por isso é imprescindível terapeutizar-se para aprendermos a “escuta”.

Aqui escutar é no sentido para “pensarmos e filosofarmos”.

Você sabe Escutar?

“Escutar” é deixar o outro falar livremente sem tentar impor a minha opinião, julgo ou visão de algo.

É essencial na sua formação analítica e a todo seu percurso psicanalítico.

A escuta nos ensina a ler e interpretar a linguagem do inconsciente.

É na “escuta” que aprendemos a ver os atos falhos, chistes, lapsos de memória e o uso da linguagem “antitética” das palavras.

Na “escuta” em que desejos reprimidos, recalcados ou melancólicos encontram uma travessia terapêutica sem contra-indicações ou efeitos colaterais embora não exista “análise” sem resistência ou algum sofrimento abstrato.

A escuta é uma arte que exige treinamento, disciplina e aprimoramento continuado que infelizmente nem sempre nos atemos para sua grande valia.

A escuta nos ensina a ver sempre através das palavras e gestos a linguagem do inconsciente.

Afinal “O Corpo Fala” e a escuta nos ensina a ver.

Embora a palavra seja o objeto da Psicanálise pelo qual o inconsciente pode se comunicar-se ou expressar-se. Sem a escuta do analista não existe a psicanálise.

Sem a escuta do aluno ao Mestre ou o professor não existe quase nenhuma aprendizagem.

É preciso aprender a escutar, e essa trilha muitas vezes é solitária e poucos de nós sabem escutar sem retrucar ou opinar uma palavra.

Onde no processo analítico a intervenção do analista numa “fala” sempre deveria ser para que o analisado se posicionar ou ver por outros horizontes.

O analista não dever julgar, recriminar, culpar a nenhum tipo de escuta.

É de suma importância da “fala” do analisado, que também deverá estar atento também a fala do psicanalista nas “sessões” como forma de auxiliar na travessia dos conteúdos do inconsciente do analisado.

Nas sessões de análise a “palavra/falada”, é importante, mas a escuta do analista deve estar afinada e fidelizada aos conteúdos seja o que for conteúdos reprimidos, recalcados, medos ou fobias que possam vir através da associação livre de idéias.

Essa é a máxima Freudiana, a escuta através da liberdade de associações livres de idéias, que oportuniza a “fala x escuta”.

É somente com muita dedicação e disciplina que podemos desenvolver o “Poder da Escuta”.

As doenças psicossomáticas ou reações somáticas simbólicas de nosso corpo desde que descartadas as possibilidades (clínicas, Infecciosas e orgânicas) nessas manifestações psicossomáticas só pode iniciar alguma forma de tratamento através da escuta.

No exercício de diversas profissões, cargos nós podemos, aperfeiçoar-se e amadurecer com respeitabilidade e credibilidade quando utilizamos a escuta para aprender a ver com sabedoria a praticidade de qualquer conhecimento.

"O primeiro dever do amor é escutar."
Paul Tillich

Filósofo Alemão (1886/1965)

Prof. Luiz Mariano é Psicanalista e Professor de Qualificação

Especialista em Psicossomática

Procurador do IBF vinculado ao Ministério da Justiça-MJ

domingo, 1 de maio de 2011

As Tempestades

Aprenda a Amar as Tempestades

Kahlil Gibran

O pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.

Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma árvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego.

Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.

Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros, mas não aconselham a si mesmos, e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos. Vã é a civilização.
E tudo o que está nela é vão.

As descobertas e invenções não são mais que brinquedos, com a mente se divertindo no seu tédio.Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isso não passa de aparências enganadoras, que não alimentam o coração e nem elevam a alma.

Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com os quais o homem se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.

Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.

Quem o sente não o pode expressar em palavras.

E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.

Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.
***

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Políticos "Das escolhas do inconsciente"

Das escolhas do inconsciente

O que Freud tem a dizer sobre a democracia e as duas categorias de homens: os líderes e os liderados

Por Sérgio Telles*

A inesgotável sucessão de escândalos políticos nos faz pensar que muitos de nossos homens públicos se vêem como grãos-senhores que se dão ao direito de saquear o tesouro nacional para constituir fortunas pessoais e sustentar familiares, serviçais, apaniguados e agregados. Quando confrontados com seus desmandos, abusos e crimes, ficam mortalmente ofendidos e posam de injustiçados.

É que o conceito de accountability, de importância fundamental nas democracias mais avançadas, parece não existir por aqui.

Todo político do Primeiro Mundo sabe que deverá prestar contas, a seus eleitores, do poder que lhe foi por eles delegado.

É isso aaccountability.

Um bom exemplo desse estado de coisas nos deu Sarney recentemente. No epicentro dos escândalos do Senado, ao se defender das acusações que sobre ele incidem, Sarney afirmou que sua "biografia" é sua salvaguarda.

Mas não é justamente sua biografia o que o condena? Se pensarmos em termos de accountability, que prestação de contas poderia ele apresentar a seus eleitores, se a realidade expõe a todos os péssimos índices de desenvolvimento do Estado no qual por quase quatro décadas tem exercido um anacrônico poder senhorial?

Frente a isso, somos levados a pensar que, numa democracia como a nossa, é baixo o nível dos políticos e uma grande maioria do eleitorado é despreparada, ignora seus direitos e se posta frente ao político de forma subserviente, implorando favores, avalizando a imagem de grão-senhor que os políticos se dão.

Poder-se-ia pensar que o problema da escolha de maus políticos é decorrência do subdesenvolvimento característico de nossas plagas e que uma melhor escolaridade muito faria por nosso processo eleitoral.

Isso é parcialmente verdadeiro, pois logo lembramos que eleitores com boa escolaridade e nível de informação política, como os do Primeiro Mundo, também fazem péssimas escolhas, elegendo políticos desqualificados e de reputação duvidosa. As reeleições de Bush e Berlusconi são exemplos recentes.

Assim constatamos que se a educação e a informação são necessárias para que os eleitores possam fazer boas escolhas políticas, isso não é o suficiente. A escolha do eleitor é permeada por uma forte irracionalidade que perturba a desejada objetividade.

Embora isso possa nos surpreender, não deveria, pois é o que ocorre com todo e qualquer ato humano.

É aí onde a psicanálise pode dizer algo.

Para a compreensão dos motivos irracionais - ou seja, inconscientes - na escolha dos eleitores, é fundamental a leitura de Psicologia de Grupo e Análise do Ego, de Freud.

Ali ele diz que o líder, pessoalmente identificado com uma forte figura paterna, ocupa efetivamente o lugar de pai na fantasia grupal, e o próprio grupo se vê como um bando de irmãos a ser comandado por esse pai poderoso de quem demanda amor e proteção.

Os membros do grupo colocam o líder como um ideal do ego compartilhado por todos, condição que os une numa forte identificação entre si.

Essa configuração psíquica é tão generalizada que Freud a usa para estabelecer que os homens se dividem em duas categorias: a dos líderes, francamente minoritária, e a dos liderados, amplamente majoritária.

Freud faz tal afirmação numa correspondência trocada com Einstein em 1932, patrocinada pela Liga das Nações (atual ONU), que convidava cidadãos notáveis para refletirem sobre problemas de interesse geral.

No caso específico, o tema era a guerra. Freud especula sobre o que determina a intensidade da destrutividade de um indivíduo e de como isso se refletiria numa postura pacifista ou belicista.

Ao propor as duas categorias de homens, líderes e liderados, posições determinadas por estruturas psíquicas inconscientes, Freud parece dizer que, independentemente do regime político, a grande maioria dos homens deseja ser comandada, ficando numa posição de dependência reveladora da persistência de desejos infantis por um pai forte e poderoso, a quem se sacrifica a independência e a autonomia em troca da proteção. Essa estrutura fantasmática sustenta e alimenta também a importância social da religião.

O reconhecimento da dimensão inconsciente do psiquismo faz com que a escolha democrática fique bastante problematizada. Por um lado, pelo infantilismo regressivo que alimenta o desejo de ser comandado por um pai forte e onipotente. Por outro, pela loucura "adulta" da ideologia, cujo exemplo mais cabal - como bem apontou Marx em A Ideologia Alemã - é a religião, alimentando idealizações e negações quase delirantes frente à realidade.

A tudo isso ainda se deve acrescentar o discurso político, que visa essencialmente à conquista e manutenção do poder, para tanto manipulando pessoas e fatos.

O diálogo entre Freud e Einstein estava centrado em como a pulsão de morte determinaria uma maior destrutividade nos lideres, fazendo-os assumir uma atitude belicista.

Embora a guerra permaneça no panorama mundial, ela não tem a amplitude e urgência daquele momento. Em nossos tempos de "paz", a destrutividade (pulsão de morte) de muitos líderes assume uma feição menos bélica, mais "civil" e se expressa como corrupção.

A voracidade com que os políticos organizam negociatas e se apoderam do bem público em detrimento da coletividade é uma manifestação predatória e fanática do poder.

É expressão de um narcisismo maligno que desrespeita a coletividade e coloca multidões na miséria e no desamparo.

Políticos corruptos, eleitores despreparados, discursos mentirosos que visam exclusivamente o poder, interferência de aspectos regressivos infantis na escolha de homens públicos, a alienação das ideologias - mesmo assim, com tudo isso, não podemos desanimar com a democracia.

Ela é uma conquista e deve ser defendida a qualquer preço.

A melhor forma de defendê-la é não idealizá-la, é reconhecer suas falhas e dificuldades e nos empenhar para superá-las.

Devemos lutar para que os eleitores se apropriem de seus direitos civis, possam eleger políticos honestos e capazes e que saibam reconhecer a diferença entre a escolha objetiva de um representante político e a fantasia de reencontrar a proteção perdida de um pai onipotente.

Talvez seja necessário reafirmar tudo isso, pois não poucas vezes tenho ouvido pessoas se declararem completamente desiludidas com nossa realidade política e, como forma de protesto, planejarem a anulação de seus votos nas próximas eleições.

*Psicanalista e autor, entre outros, de Visita às Casas de Freud e Outras Viagens

Fonte: estadao.com.br

quinta-feira, 31 de março de 2011

Prazer em ler Freud

A Psicanálise ocupa-se de coisas simples, sumamente simples, que são imensamente complexas. Ocupa-se do Amor e do ódio, do desejo e da lei, dos sofrimentos e do prazer, de nossos atos de fala, nossos sonhos e nossas fantasias. A psicanálise ocupa-se das coisas simples e complexas, mas eternamente atuais. Ocupa-se delas não apenas por meio de um pensamento abstrato, mas através da experiência humana de uma relação concreta entre dois parceiros, analista e analisando em interação permanente.

Extraído do Livro: “O prazer de Ler Freud”

J. D. Nasio Editora: ZAHAR

sexta-feira, 25 de março de 2011

Uma construtora no divã

Sobrevivente em seu setor, a Racional fez até terapia para enfrentar as crises

Foi no divã de um psicanalista que a construtora Racional Engenharia resolveu suas crises financeiras, de gestão e existenciais.

Por quase duas décadas, comparecer à terapia em grupo era tão importante quanto entregar relatórios de obras ou atender às demandas de clientes. "Era uma forma de falar do não falado, de discutir as incompetências de cada um e criar vínculos mais fortes na equipe", explica o fundador Newton Simões.

Ele decidiu procurar ajuda da psicanálise depois que uma debandada de diretores o fez perceber que estava sozinho no comando da empresa.

A experiência foi tão intensa que Newton, por vezes, viu-se tentado a abandonar a engenharia para se dedicar às questões freudianas.

Fez bem em continuar no ramo.

Com 40 anos de mercado, a Racional prevê ultrapassar em 2011 a marca de R$ 1 bilhão de faturamento. É um patamar histórico para uma das construtoras mais antigas do segmento built to suit (de construção sob encomenda), vista no mercado como uma "sobrevivente".

A companhia passou (quase) incólume pela estagnação que se abateu sobre a construção civil nas décadas de 80 e 90. Viu empresas concorrentes, mais tradicionais e maiores, desaparecerem com o fim do crédito fácil vindo do BNH.

Nomes como Omni, Roffmann, Rácz, Grubima foram ficando pelo caminho.

Nem Newton sabe explicar como conseguiu colocar a empresa de pé depois de tomar um calote histórico numa das primeiras obras de grande porte de seu portfólio, o Club Med Itaparica na Bahia.

Pouco tempo depois teve de contornar outro rombo, ao descobrir que seu gerente de RH fraudava a folha de pagamento com funcionários fantasmas.

Só mesmo à base de terapia para seguir adiante.

A Racional aproveitou esse período de seca no mercado imobiliário para arrumar a casa.

Fez isso com a ajuda do psicanalista e consultor de empresas Marco Aurélio Velloso. As sessões eram semanais e densas. Executivos engravatados choravam que nem crianças.

Até Newton admite que exagerou na dose. Para engenheiros acostumados ao pragmatismo da construção civil, falar de si mesmos e ter suas incompetências escancaradas diante dos colegas parecia mais difícil do que colocar um prédio de pé.

"Foi um processo lento e doloroso, mas que levou os executivos a um grau de autonomia enorme", diz Velloso.

Foi nessa época que a atriz Eloísa Elena passou a participar dos encontros anuais de integração dos funcionários da Racional, com a missão de levar para o palco os dramas enfrentados pelas equipes no dia a dia.

Hoje, ela tem cadeira cativa no conselho da empresa.

"Não entendo nada de engenharia, mas conheço de relações humanas e é por isso que estou ali."

Tanto investimento em autoconhecimento tinha de trazer algum fruto para a operação da empresa.

Sem grandes traumas, a Racional mudou o foco de atuação e passou de mera empreiteira a desenvolvedora de projetos de engenharia de alta complexidade, como o Centro de Medicina do Hospital Albert Einstein e os data centers do Bradesco e da Tivit. Mais de 60% da receita, porém, continua vindo dos shopping centers.

A empresa aposta também nos condomínios logísticos, onde além de projetar e construir, assume a função de administradora.

O Centeranel Raposo, localizado nas proximidades do Rodoanel, em São Paulo, foi inaugurado no fim de 2010. Outro, na região de Viracopos, será entregue em maio.

"Tudo é feito com investimento próprio", ressalta Simões. A Racional foi uma das poucas construtoras de grande porte que não se renderam aos IPOs em 2007. "Ficou para trás, parada no tempo e cheia de vícios", na avaliação de uma fonte do setor.

Após se dar alta da psicanálise e imprimir um esquema de "coletividade" na tomada de decisões, a Racional se prepara para adotar, com certo atraso em relação aos concorrentes, uma política de meritocracia, com metas e bônus individuais.

Os funcionários estão assustados com as mudanças.

Mas se não der certo, Freud está aí para ajudar.

Fonte Consultada:

Naiana Oscar - O Estado de S.Paulo

Março/2011



segunda-feira, 21 de março de 2011

Reflexão

“O Olhar serve de fotografia ao Invisível, Assim a

Escuta serve de Eco ao Silêncio do Inconsciente nas Palavras.”

 

www.drluiz.com

 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Psicanalista não é Deus porém.....!

Apesar da psicanálise se assimilar muito ao exercício de um sacerdócio de escuta das aflições da Alma humana, a psicanálise exige um processo continuado de formação.
Muito embora o Psicanalista não é Deus e nem talvez o represente.
Porém é importante que se saiba! Que todo não comparecimento a sua "sessão" de análise que for desmarcado em cima da hora da sessão, Representa custos ao profissional, além disso isso é uma das formas mais comum e subliminar do "analisado impor sua resistência.
Exceto por motivo de força maior: "Acidente", "Emergência Médica" "mando de Justiça" ou "Morte"; Fora disso o analista já sabe que isso é processo de "resistência" e um sinal que seu processo de análise ainda deve continuar para sua formação adequada.
Psicanalista pode não ser Deus ou o representá-lo! Porém você deve sempre se "lembrar" dele e bem antes do seu horário e dia.
Aqueles que estão em formação sabem impor sutilmente sua "resistência e não a ir a sessão analítica".
Porém não deveria perder tempo e a oportunidade! De saber que o "aprendiz" pode exercitar desde inicio a ética e respeito ao profissional que lhe supervisiona.

PSICOTERAPIAS BREVES - 2001

TRABALHO APRESENTADO EM 2001  PSICOTERAPIAS BREVES          Este trabalho terá   como objetivo mostrar a economia em se ter como práti...