sábado, 30 de junho de 2012

“Mania de Criticar ou julgar pode Desvendar a Bipolaridade”


"Mania de Criticar ou julgar pode Desvendar a Bipolaridade"

 

É interessante a invenção de novos nomes ou diagnósticos para descrever velhas patologias conhecidas.

Assim como a síndrome de pânico foi uma mera derivativa das chamadas fobias, a bipolaridade é o nome moderno para o chamado transtorno maníaco-depressivo. 

A renomeação de moléstias segue o princípio da maquiagem moderna farmacológica, dando certa ilusão de um instrumento mais efetivo e poderoso no combate à doença. 

Como todos sabem, a bipolaridade é definida principalmente pela constante e repetitiva oscilação do humor e comportamento do sujeito; ora um estado depressivo, melancólico, ou a euforia, alegria e uma energização que deixa perplexo todos que convivem com a pessoa.

A primeira coisa interessante para se notar é que ao contrário do que muitos pensam, o fenômeno da agressividade não se encontra no pólo maníaco, mas justamente na fase depressiva.

A explicação é simples, a agressividade permeia dito pólo como uma reação à frustração da pouca durabilidade da fase maníaca e também como uma forma de contaminar completamente o ambiente ao seu redor, "como nunca irei superar tal situação, desejo que sintam a mesma angústia".

Claro que neste ponto entram elementos poderosos de inveja e vingança contra o meio. Infelizmente o bipolar é muito julgador e crítico e sempre irá comemorar o insucesso ou infortúnio do outro, a projeção é seu mais puro e doce alimento. (claro que não estou emitindo um juízo de valor sobre o caráter de ninguém, apenas relatando uma manifestação comportamental frente ao transtorno)

 O que mais chama atenção em tal enfermidade é quando da passagem depressiva para a maníaca, como disse anteriormente, há um vigor ou paz de espírito quase que sobrenaturais, causando uma total frustração no acompanhante ou familiar da pessoa, que não se conforma que o indivíduo não consiga se estabilizar em tal estágio, pois teria amplos recursos para tal empreitada.

Mas neste ponto, o leitor irá indagar que é justamente a bipolaridade que não permite tal fato.

O que desejo concluir é que a lamúria, tendência ao auto-sofrimento, autocomiseração é incrivelmente mais potente do que qualquer princípio da realidade que traga satisfação ou estabilidade.

A mensagem máxima de todo esse processo mórbido, é a insistência numa ingenuidade ou infantilidade, achando que o meio ao seu redor deve ter eterna paciência e compreensão perante todos os mecanismos confusos e difusos apresentados. 

O criticador e bipolar reclama um amor incondicional, ao mesmo tempo em que tenta condicionar os outros para a aceitação de sua estrutura neurótica de personalidade. 

A bipolaridade não deixa de ser um fenômeno psicológico que denuncia com exatidão o espírito sociológico de nosso tempo: "tenho pleno potencial para o amor, afeto e harmonia, mas, repentinamente me lembro de meu contrato quase que vitalício assinado com o caos ou perturbação nos relacionamentos, tudo isso oriundo de um mimo não resolvido perante uma suposta rejeição das figuras parentais. O bipolar apela o tempo todo, forçando seu direito ao amor que não obteve, sendo que não resgata em hipótese alguma suas falhas pessoais nesse histórico de convívio.

 A instabilidade histórica do bipolar se origina em sua angústia pessoal de identificar quem é o modelo afetivo que irá lhe proporcionar segurança; ora é o pai, a mãe, ou o ódio contra ambos, nunca havendo uma linha linear. Parece não existir uma vontade interna para a superação do problema. A medicação é vista como uma espécie de império absoluto, sendo que na maioria dos casos a psicoterapia é encarada com total desconfiança.

O fato é que a manifestação mórbida possui um caráter muito forte de sedução, seja pela pena ou compaixão, exigindo uma resposta constante de pleno cuidado por parte do meio ao redor da pessoa.

A insistência da psicoterapia passa a ser fundamental, pois acima de tudo, o bipolar deve a si mesmo uma explicação para todo o seu excesso. Gostaria neste ponto de colocar uma tese talvez estranha, mas que na minha concepção é bastante inovadora.

E se determinado transtorno mental for um derivado de um protesto familiar ou social reprimido?

Antes que alguém ache tal tese absurda, pensem que o maior medo em nossos dias é em relação à opinião alheia, coisa que o bipolar dribla com a máxima maestria, se utilizando da descompensação como escusa de suas atitudes.

Este é exatamente o ponto chave, sendo que a doença é o que sobrou de certa forma de uma mitigação política e ideológica; a rebeldia ou protesto social é totalmente convertido para o pólo psicológico.

Obviamente não estou querendo inferir que determinada pessoa avessa à política irá desenvolver a bipolaridade, mas, apenas ressalto o transporte de um fenômeno social para uma área privada da personalidade. A mente parece que capta qualquer aspecto importante de algum derivativo social, sendo que o mesmo jamais se apaga, apenas adquire novo molde ou formato. 

O bipolar encena num microcosmo toda uma esfera política e histórica da humanidade, de luta pela atenção, poder, compaixão, sedução e diversos outros fenômenos sociais. Nunca podemos pensar num modelo individualizado de tratamento sem a compreensão paralela que a doença é criativa ao adquirir determinados formatos dos moldes econômicos e sociais de nossa era.  

 

A grande questão que se coloca é quando realmente estaremos plenamente motivados a atacar de frente determinado problema, pois parece que sempre o estamos mascarando ou rodeando.

O desequilíbrio psicológico nunca é por acaso, é principalmente uma seqüência histórica de frustração e desilusão. Uma reflexão vital que todos devem fazer é sobre o tipo de poder que tentam adquirir durante a vida: criatividade, poder econômico, político, sedução e beleza ou através da doença.

A necessidade de ser notado é praticamente um correlato das necessidades fisiológicas do ser humano, seja de uma forma saudável ou em tons bizarros. Nomeando de bipolaridade ou psicose maníaco-depressiva, como devemos interpretar a fundo tal fenômeno? Tanto a ascensão ou o famoso pico, quanto à queda ou depressão, remetem ao famoso conceito do psicólogo ALFRED ADLER acerca do complexo de superioridade e inferioridade.

A bipolaridade nada mais é do que este intercâmbio psicológico.

Na mania, a euforia, certeza da vitória, autoestima em elevação e sensação de auto-suficiência, e ainda tentativa de destaque tendo ou não os recursos para tal empreitada; na fase depressiva o choro, culpa, lamúria, necessidade de projeção do caos pessoal para outras pessoas, e insistência no mecanismo da sedução, através da pena ou solidariedade do meio enquanto a pessoa permanecer recaída.

Será que vale a pena, digamos assim, chamar a atenção ou atuar algo psicossomático constantemente? A resposta novamente nos remete ao complexo de poder. Se não temos uma vaga cativa na cena política, social ou econômica, resta o uso do corpo ou enfermidade da alma para sermos lembrados.

É interessante como sempre notei o aspecto mais do que ambicioso do bipolar.

Assim como no começo do estudo, faço um alerta quanto a qualquer concepção reducionista; sem sombra de dúvida, pessoas abastadas e com poder também podem descarregar suas frustrações nas enfermidades mentais, apenas estou salientando a existência do fenômeno em determinadas pessoas onde impera um vazio de poder pessoal. 

Quando determinado sujeito começa a notar que seu espírito talvez seja estéril, começa a manipular ou até brincar com os conteúdos psicossomáticos citados, visando uma diversificação deformada ou amplificação corrupta de seu self ou sentido de existência.

Ao contrário do obsessivo, o bipolar rejeita qualquer tipo de ordem ou organização de sua conduta diária de vida. Tudo é sempre através do improviso ou impulsividade, sendo que o resultado é bastante óbvio; uma perda em todas as esferas: econômica, pessoal e afetiva.

Pensemos neste ponto na questão do dinheiro; igualmente ao maníaco-depressivo de antigamente que perdia sua casa em jogo de azar, o bipolar traça o mesmo caminho de forma talvez resumida ou dissimulada; dívidas bancárias, protestos contra seu nome, perda de objetos comuns, esquecimento ou falta de cuidado com seus bens, enfim, jamais consegue cuidar efetivamente de seu patrimônio, pois se sente eternamente miserável ou dependente, atuando como uma criança que não tardará a estragar algo valioso que lhe foi fornecido ou conquistado, o consumismo é apenas uma fachada contra a terrível ansiedade que se abate sobre a pessoa.

Outra característica notável no bipolar é que o mesmo se dá plena autorização para vivenciar o egoísmo sem nenhum remorso ou culpa; faz uma matemática singular; todo o sofrimento de seu passado terá de ser pago e aceito sem reclamações acerca de sua conduta narcisista, egóica e individualista. 

Seus disparates são vistos pelo próprio indivíduo como uma excentricidade criativa e louvável; dando a entender que o sinal de estar vivo é sempre o comportamento de risco ou tensão.

O bipolar manipula um palco para a apresentação quase eterna de uma personalidade neurótica que não dá quase nenhum sinal ou vontade de mudança.

O que temos de perceber é que o desafio extremo contra a civilização ou moralidade saudável não é apenas a conduta agressiva ou marginal, mas, como FREUD pontuou com maestria, a neurose se incumbe de dita tarefa de uma forma onde não será achada ou combatida.

Recalque não é apenas energia sexual ou afetiva parada, é antes de tudo um combate violento e quase que invisível às regras e normas instituídas, principalmente às que dizem da normalidade e saúde psicológica.

Como estou dizendo neste estudo, a tarefa básica é colocar seu mundo de caos e lamúria pessoal acima de qualquer conceito racional de prazer ou satisfação. Novamente falando do passado o maníaco-depressivo usava sua doença ou regressão como uma fuga de sua realidade insuportável; o bipolar insiste em obter mais alguma dose de mimo ou proteção, mesmo que há muito já tenha passado de tal fase, o saudosismo será sua marca no transcorrer da vida.

Sobre a questão comportamental é interessante notar alguns sintomas adjacentes em tal moléstia, um deles é a neurose obsessivo-compulsiva ou o moderno "toc" (transtorno-obsessivo compulsivo), mais uma vez um novo nome para um velho problema conhecido.

Mas o curioso é que sua obsessividade é totalmente restrita a certa área, ou círculo de atuação bem reduzido: mania de limpeza apenas em um cômodo da casa, em seu corpo também, citando dois exemplos. A análise deste círculo diminuto de poder ou preocupação é simples; é uma denúncia ou reprodução de sua carência ou sensação de ter obtido pouca atenção afetiva de seu meio, ou seja, reproduz sua miserabilidade emocional em determinadas manias

 Fato é que determinadas pessoas famosas ou célebres, como observei também desenvolvem os sintomas citados, o que refutaria todas as colocações anteriores, porém, em defesa de meio argumento deixo claro que o bipolar utiliza determinado estratagema em virtude de sua imensa carência ou baixa estima, já determinadas pessoas notórias desenvolvem todo o comportamental descrito pela culpa ou a famosa neurose de êxito, tão bem descrita por ALFRED ADLER, como sendo uma solidariedade neurótica para os não afortunados, destruindo seu próprio potencial pessoal para tal finalidade. Mas tal fenômeno não entraria em choque com o egoísmo de nosso modelo social?

A resposta é não, porque o destaque também irá cobrar um preço, e o mesmo pode vir a ser a vulnerabilidade para todo o tipo de crítica do meio.

A diferença entre a descrição dessas pessoas notórias e o bipolar, é que este último lida, desvia ou contém muito bem o sentimento de culpa, pela obrigação da dívida do meio para seu afeto reduzido. Três coisas o ser humano jamais conseguirá, pelo menos até o presente; imortalidade, sentimento de segurança, e blindagem contra a vergonha ou crítica da sociedade, mesmo que tenha obtido sucesso ou poderio econômico. 

O bipolar segue o mesmo traçado da problemática das drogas, ou melhor dizendo, uma total insensibilidade perante as pessoas que o acompanham, principalmente na esfera econômica, obrigando gastos excessivos para o tratamento sem nenhum remorso ou senso do sacrifício para cobrir tal necessidade.

É valioso dizer que esta questão que estou discutindo se assemelha novamente à questão da medicação psiquiátrica em nossos dias, num primeiro momento há uma melhora, para depois, o remédio se tornar um ícone por si só, independentemente se produz ainda ou não resultados.

É como se uma determinada substância química cobrasse o preço de seu efeito muito além do que o indivíduo está habilitado a pagar, não é esse o problema central do drogadicto?

Se pensarmos em termos estruturais a coisa se torna até um pouco mística ou paranormal, como se algumas pessoas tivessem um convite especial para usufruírem de todo sofrimento sem nenhum limite ou prazo de validade.

Um passe livre permanente ao caos desenfreado ou até sem propósito se fizermos uma análise profunda pelo lado racional.

 

Retomando o aspecto da infantilização do bipolar, tal fenômeno é uma reação pretérita, presente e futura contra a terrível angústia da morte, pois a partir do momento que jamais aceito o crescimento ou evolução, simbolicamente estarei adiando o triste fim de todo ser humano.

O problema é que tal conduta tem sérios efeitos colaterais, pois mescla fases de desenvolvimento que geram conflitos internos poderosos, e o resultado é a insatisfação crônica acerca de si própria, nada o satisfaz, sendo que até o lado positivo ou determinado ganho é encarado com queixas ou desconfiança.

Mas se o bipolar lida muito bem com a culpa, já não o consegue com a questão do arrependimento. E qual seria a diferença entre os dois?

A culpa é um processo rígido, crônico, estabelecido ou extremamente embasado na personalidade do sujeito, é uma espécie de estilo de vida ou traço marcante de seu self. O arrependimento se assemelha mais a um estratagema infantil para a comoção ou evitar a agressividade ou vingança do outro por alguma falta cometida. A prova disso tudo é que se pensarmos na culpa, a mesma tem raízes históricas, pois na maioria das vezes imputa no semelhante uma fragilidade inexistente, sendo que a pessoa acha que o outro será destruído por determinado comentário ou ação, a culpa reduz plenamente a capacidade de absorção do outro, sendo que o arrependimento quer motivar a compaixão. Um fenômeno curioso que noto há algum tempo é que parece que determinadas pessoas vivenciam ou atuam problemáticas que não são verdadeiramente de seu íntimo, mas que são emprestadas de seu meio circundante, como se fosse uma terceirização do sofrimento como brincou um de meus colaboradores dos meus textos.

Tal situação novamente se remete à culpa ou solidariedade com o caos alheio, um acordo mais do que mórbido para a pessoa adiar a resolução de seu problema íntimo, sentindo que o mesmo é quase que insuperável; obviamente fica mais fácil depositar as energias na consecução da resolução do problema do outro.

 Voltando a questão da medicação, novamente faço um alerta para o extremo cuidado ao ser ministrada, pois a química tem o simbolismo da emergência, sendo tudo que o espírito do bipolar está acostumado e não consegue afastar.

Acho que está claro até o presente ponto que fica quase que impossível o estabelecimento de limites comportamentais em tal enfermidade, o que seria a cura se tal ato fosse possível. O problema é que qualquer tentativa externa é sempre inócua e só produz mais rebelião e protesto, dado que o bipolar ama com paixão a extravagância, rebeldia infundada ou o protesto inútil. A essência do desvio comportamental é exatamente se alimentar da preocupação ou esforço para sua extinção ou cura, esta é sem dúvida alguma a contradição máxima jamais resolvida pela psicologia ou psiquiatria. 

A coisa é tão clara que na experiência clínica noto que o bipolar apenas faz uma reflexão de suas atitudes na extrema perda ou rompimento, quando não consegue mais ser o centro do palco através de sua neurose, sentindo que a pessoa ao lado desistiu literalmente de todo o esforço para uma melhoria da condição em que o sujeito se encontra.

Nesse momento respinga no mesmo um ar adulto ou consciência de sua responsabilidade seja afetiva, profissional ou social, porém, não tardará a se utilizar novamente de sua arma preferida para que as coisas permaneçam do mesmo jeito que outrora, apelando incessantemente para a compaixão ou piedade de seu infortúnio.

Notem que todos detestam o termo piedade, pois se refere a uma pessoa totalmente despotencializada ou desprovida de capacidade de gerir sua existência. Porém, o bipolar sempre arruma uma forma genuína de transformar aquela piedade vergonhosa num triunfo de suas expectativas ou atos desajustados a fim de perpetuar os mesmos.

 Tal tese coloca na encruzilhada talvez quase que toda a história da psicologia, acerca do fenômeno da escuta. Este muitas vezes passa a ser uma espécie de sonífero contra a percepção da dificuldade de mudança ou transformação verdadeira. Não estou tampouco defendendo nenhuma abordagem comportamental ou imposição de regras, o que seria totalmente infrutífero, ressalto apenas o lado pouco prático da psicoterapia, pois a resistência se acha na própria queixa do paciente ou na escuta passiva do terapeuta, sendo a missão máxima do mesmo desvendar todo o rol de mentiras que o sujeito interpreta acerca de seu problema.

Nunca uma queixa é isolada, nem mesmo os chamados fenômenos psicossomáticos, ou orgânicos, tudo forma um palco nebuloso de continuar na mesma, mesmo com todas as perdas de tal escolha. Mas então se trataria de uma espécie de masoquismo e a psicoterapia apenas seria uma desculpa para dizer que se tentou algo novo?

FREUD, ADLER, JUNG, todos tocaram no chamado mecanismo da compensação que a doença produz, desde a atenção até evitar a humilhação de um teste real caso a pessoa não se escondesse atrás de determinado infortúnio.

Retomando minha velha idéia, o distúrbio neurótico se torna uma espécie de vírus ou entidade com inteligência própria e sentido de sobrevivência, não é a toa que os antigos confundiam doença mental com possessão, e ao invés da psicanálise ir a fundo nisso, se escondeu atrás de preconceito ou um falso senso científico dos fatos. Uma prova dessa tese toda é a característica do neurótico se cercar de pessoas tão ou mais problemáticas, mascarando por completo todo o seu dever de evolução psíquica ou melhor dizendo, zerando sua dívida para com a saúde. Tudo o que estou falando serviria para diversas moléstias; depressão, compulsão, paranóia dentre outras e obviamente bipolaridade.

A neurose nunca foi criativa por natureza ao contrário do que podemos pensar, mas tal fato nunca serviu de atenuante para seu alto poder destrutivo na pessoalidade do ser humano.

O bipolar é apenas uma variação um pouco mais moderna, tomando todas as características de chantagem emocional num patamar extremamente potencializado, onde a diferença de outrora é o perigo real, pois nunca mede conseqüências. Não chega a ser um suicida, mas sabe como ninguém matar todo um equilíbrio emocional, familiar e afetivo.

Se todos os filósofos e grandes pensadores destacaram a necessidade da descoberta do sentido da vida, cabe a psicologia descobrir a causa do real e verdadeiro sofrimento que abala a estrutura psíquica. Antigamente a doença mental levava certamente ao óbito; hoje em dia, seguindo a tendência da medicina no tocante ao prolongamento da expectativa de vida, notamos que o abalo psicológico tenta se eternizar sem destruir a vida biológica da pessoa.

Retomando as diferenças ou semelhanças entre bipolaridade e transtorno obsessivo-compulsivo, é interessante a falha na recomendação da conduta sobre o tratamento.

Muitos avaliam que a terapia comportamental é a melhor solução para ambos os casos, se esquecendo que o esforço para eliminar tais moléstias, já é sem sombra de dúvida o combustível para a perpetuação das mesmas, pois ambas se alimentam de uma atenção consciente e inconsciente sem precedentes no âmbito psicológico.

Na verdade o transtorno obsessivo compulsivo não deixa de ser a loucura da segurança ilimitada transportada para todo o tipo de mania ("não admito em hipótese alguma perder as coisas conquistadas em meu suposto reino pessoal"), já a bipolaridade tocando novamente na diferença é justamente o inverso, uma espécie de esporte radical da mente, levando a mesma a todo tipo de excesso ou desajuste pessoal e social.

Se pensarmos no próprio complexo de Édipo ou a clássica noção do trauma em termos da psicologia, veremos que ambos remetem sempre à canonização do passado, seja revivendo o sofrimento ou o saudosismo de um prazer que foi real ou imaginado pelo sujeito, o fato é que no distúrbio da bipolaridade as coisas são semelhantes, regredir, necessidade constante de ser cuidado e amparado.

 

O bipolar assim como a maioria dos drogadictos não vislumbra nem de longe a hipótese de uma tomada de decisão para a resolução de seu caos pessoal; as conseqüências são mais do que conhecidas, perda de oportunidades em todas as esferas: profissional, social e afetiva.

No decorrer deste estudo, venho salientando um paralelo pouco notado pela medicina e psicologia entre bipolaridade e infantilismo.

Todas as armas serão usadas para a manutenção deste último, e é neste ponto que a bipolaridade irá se confundir quase que totalmente com o fenômeno da loucura ou esquizofrenia, pois não medirá nenhum esforço em qualquer manifestação mórbida para a consecução de tal objetivo, seja através da histeria, compulsão ou toxicomania.

Todo profissional experiente já notou há muito tempo que tal transtorno talvez seja o maior desafio da saúde mental das últimas décadas, pois assim como a drogadicção, parece que qualquer esforço sempre acaba em desilusão ou fracasso.

Por acaso alguém tinha a ilusão de que numa sociedade que potencializa toda esfera negativa o tempo todo, o distúrbio mental não iria mimetizar da mesma forma? O fato é que estamos nos deparando com desafios mentais extremamente amplificados, e parece que só estamos narcotizando ou mascarando os nefastos efeitos de nossa vida cotidiana permeada pela competição, disputa de poder e inveja. Infelizmente em tais pecados capitais ninguém ousa adentrar, conseqüência de um puritanismo maléfico para qualquer espírito que deseje alguma evolução na alma humana.

 Enfim, cabe uma reflexão científica acerca do que é realmente constituída a doença mental ou distúrbio psicológico? Desequilíbrio hormonal, variações do sistema límbico ou do hipotálamo, instabilidade nos níveis da serotonina; creio que tudo isso é mais do que verdadeiro se analisado por equipamentos eletrônicos ou de última geração da medicina contemporânea, mas se desejarmos uma análise meramente humana veremos que seu início sempre ocorre na recusa do avanço ou desenvolvimento interpessoal; sabotagem da criatividade visando reviver uma etapa de vida totalmente ultrapassada e não condizente com a atualidade do indivíduo.

Que imensa mentira aquele provérbio que todos almejam a felicidade ou satisfação; FREUD provou as barreiras morais para a consecução do prazer genital genuíno, e hoje em dia vemos barreiras totalmente dissimuladas que limitam um sentido de vida saudável ou frutífero para a pessoa.

A diferença é que no começo do século vinte a fala era praticamente proibida, daí o advento da psicanálise como socorro de uma alma torturada pela tirania moral, e hoje o discurso do sujeito é totalmente alienante e sem sentido, pois a maioria procura um prazer que jamais foi seu, apenas imitação de símbolos impostos pela sociedade de consumo que está pouco se importando com a saúde mental das pessoas, e sim, o quanto as mesmas estão dispostas a gastar ou se endividarem; sofrimento é uma solidão incurável por se buscar algo totalmente imaginário ou irreal, e é isto que se faz neste mundo há muitos séculos, embora com mais virulência nas últimas décadas.

Todos se esqueceram que há nítida diferença entre satisfação, prazer e felicidade; o primeiro fenômeno é quase que totalmente corrompido pela inveja e competição, levando o indivíduo para caminhos distantes de se verdadeiro self; o segundo tão estudado por FREUD é plenamente contaminado pela estrutura e histórico familiar do sujeito, fazendo com que o mesmo seja solidário ou repita o sofrimento dos pais em todos os contextos dos relacionamentos; o terceiro não diz de ausência de sofrimento, nem de se viver numa ilha ou paraíso artificial, mas de uma mente capaz sempre de fazer leituras profundas e verdadeiras e é isto que está em total escassez em nossa sociedade, uma capacidade verdadeira de análise pessoal e social, e como o indivíduo se enquadra nesse processo e quais serão suas reais escolhas, sem o vício ridículo de culpar alguém por determinado infortúnio ou insucesso.

Felicidade é a capacidade eterna de reação, mesclando elementos de ódio e amor, mas nunca caindo na armadilha da destrutividade ou vingança, apenas exigir para si próprio a retomada da energia exaurida ou perdida, quando digo ódio, não é aquele fomentado diariamente pela mídia ou a sociedade insensível em que vivemos, mas o apelo para a reação do sujeito, que o mesmo fique com rancor de seu vício de sofrer e tente algo criativo, que possa lhe abrir o horizonte para uma conquista verdadeira, esse é sem dúvida o paraíso do prazer e preenchimento da alma.

Antonio Carlos A. Araujo

É Psicólogo e  Terapeuta de Casais

 


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sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Expulsão da Infância

A Expulsão da Infância  

É preciso que pais, educadores e a justiça repense o que alguns  programas de auditórios na televisão, estão fazendo com  a "Infância" e o pior com autorização dos seus próprios pais, cujos a  maioria (dos pais)  "projetam em seus filhos os  conteúdos, desejos  recalcados, reprimidos  da sua infância, ou mesmo do  seu Édipo mal resolvido ou não dissolvido.

Os filhos (crianças) televisivas têm que desejar e realizar os desejos dos seus pais, têm que aumentar a audiência e dar Ibope, e me pergunto isso não seria uma forma de trabalho infantil.; fica aí a minha sugestão de reflexão aos nossos educadores, juristas e juízes

As Crianças que  se vestem como adultos e imitam  ser "artistas" ou cantores é o verdadeiro furto e abandono da sua "Infância" para se transformar em imitadores de ser "Adultos" fora de época e fora do tempo.

Em  algumas dessas crianças já "percebe-se" que são projetos de seus  "pais" que formularam esse "projeto" para os seus  filhos onde se é "Imitar"  ou o que jamais se desejou ser.

E fico a refletir se o "isso" e o  "disso tudo" não é uma forma de "abuso" ou de agravamento a pedofilia ou estamos mesmo diante de uma nova forma de uma pedofilia que é  aceitável e que foge ainda ao mérito educacional, penal e jurídico.

Mesmo que não haja nenhum envolvimento objetal/adulto  ou de sexualidade, ainda é questionável se essa "erotização" artística do infantil onde,  deixamos de  "ser criança" para envolver-se em ser um "Adulto".  Fico a imaginar como seria se os "pais" fossem obrigados por lei a imitarem e passarem por esse "travestis mo" de ser o que se não se deseja ou não se é.

Ao se anular o desejo da "Infância", expulsa-se o desejo de ser criança em sua época de infância para ser "Adulto" infantilizado para produzir prazer e ser remunerado. 

E diante da psicanálise ficamos imaginando se hoje eles se tornam imitadores de artistas e cantores adultos, qual o tempo que ficará para serem crianças; será em suas velhices, será que esse projeto de imitação do "outro" não extingue a possibilidade de "Eu" ser "eu" mesmo ou algum dia vir a me conhecer quando o tempo de todas essas imitações passarem.

É urgente repensar o abandono da infância para imitar o "Outro" ou os "Outros" porque nisso podemos num futuro ter um efeito trágico e nefasto nas famílias, na educação e sociedade.

Luiz Mariano é M.D. Psicanálise Clínica 


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"O Avarento guarda o seu Tesouro como se fosse seu; Mas teme Servir-se dele como se na Realidade pertencesse a Outrém." (Bion)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

In Memorian: Autor do 'Vocabulário da Psicanálise' França

Morre Jean Laplanche, autor do 'Vocabulário da Psicanálise'
PARIS, 08 Maio de 2012 (AFP) - O filósofo, Psiquiatra e Psicanalista francês Jean Laplanche, autor do "Vocabulário da Psicanálise", morreu no domingo em Beaune (centro-oeste da França) aos 87 anos, anunciou a Associação Psicanalítica da França (APF). Depois de realizar sessões de psicanálise com Jacques Lacan, Laplanche se distanciou sensivelmente de seu ex-analista, fundou em 1964 a Associação Psicanalítica da França e foi professor na Sorbonne. Em 1967, publicou uma obra que se tornou uma "bíblia" da psicanálise.  "O Vocabulário da Psicanálise", traduzido para quinze idiomas.
Anteriormente, havia participado do movimento de Resistência contra a ocupação nazista da França no início dos anos 40. Além de ter sido doutor honoris causa de várias universidades, Laplanche foi proprietário até 2003 do castelo de Pommard e de 20 hectares de vinhedos que permitiram a ele produzir o famoso vinho da Borgonha.

Fonte Consultada: Terra Mundo




Juíza TRT Ministra Curso com Temas da Psicanálise

Juíza do TRT de Minas
Ministra curso na JT da Paraíba com Temas da Psicanálise
A juíza Adriana Goulart de Sena, titular da 35ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte (MG) e membro do Comitê Gestor da Conciliação no CNJ, participou, na última semana, do curso "Psicologia Jurídica aplicada ao processo trabalhista e técnicas de conciliação" promovido pela Escola Judicial do TRT da 13ª Região, na Paraíba.
Foram abordados os seguintes temas: Acesso Material à Justiça; Política Judiciária de Tratamento Adequado dos Conflitos de Interesses; a Resolução 125 do CNJ; O Conflito e suas Dimensões.
A Conciliação Eficaz e Eficiente; a importância da Postura Pró-ativa do Magistrado do Trabalho; Relevância e Papel da Conciliação no Processo do Trabalho; Técnicas Aplicadas à Conciliação Judicial; Engenharias de gestão conciliatória e Dificuldades concretas na prática conciliatória trabalhista e ações possíveis.
A juíza Adriana Goulart de Sena é Professora Adjunta da Faculdade de Direito da Ufmg e leciona, desde 2007, na graduação e na pós-graduação, disciplina denominada "Acesso à Justiça e Formas de Resolução de Conflitos".
Ela defende a eliminação de obstáculos econômicos e sociais, entre os quais a falta de informação, para garantir à sociedade o acesso a uma ordem jurídica justa, contextualizada dentro da política pública da Resolução 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão responsável pelo controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário, bem como pela observância do art. 37 da Constituição da República.
A Resolução estabelece uma política judiciária de tratamento adequado para os conflitos de interesses no âmbito do Judiciário brasileiro.
Ocorrido entre os dias 21 e 24, o evento contou também com a participação da psicanalista da Escola Judicial do TRT de Minas Gerais, Judith Euchares Ricardo de Albuquerque, que abordou temas de psicanálise, conciliação, conflito, alem de aspectos atuais do exercício da magistratura.
 (Márcia Barroso)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Uma Linda Mulher" por Contardo Calligaris é Psicanalista e Escritor

“Uma Linda Mulher”

Contardo Calligaris é Psicanalista e Escritor (*)

Se você ama uma mulher por ela ser prostituta, tente entender a fantasia que está atrás de seu amor. Numa cobertura da Vila Leopoldina, em São Paulo, na noite de 19 de maio, Elize Araújo Matsunaga, 30, assassinou o marido, Marcos Matsunaga, 42, com um tiro na cabeça.
 Na manhã seguinte, com uma faca de cozinha, Elize esquartejou o cadáver, de modo a poder transportar os pedaços em três malas. Logo, ela foi se desfazer das malas e da faca.
Esse fato de crônica tem tudo para se tornar literatura de cordel.
Há o sangue frio de Elize depois do crime.
 Há a diferença social entre Marcos, empresário e herdeiro da Yoki, que acaba de ser vendida por R$ 1,7 bilhão, e Elize, enfermeira e bacharel em direito, mas de origem bem humilde.
Além disso, o ciúme foi um dos motivos: na noite do crime, Marcos acabava de ser confrontado por Elize, que conseguira a prova da infidelidade do marido.
 Mais: o horror aconteceu depois de seis ou sete anos do que foi, ao que tudo indica, uma genuína paixão; a filha, de um ano, estava no apartamento, dormindo, durante o crime; foi Marcos que transmitiu a Elize o interesse pelo tiro e pelas armas (havia 30, todas registradas, no apartamento).
Mas, acima de tudo, o que transforma a história do casal em matéria de cordel é o fato de que Marcos encontrou Elize, em 2004, num site de garotas de programa.
 A informação parece ser repetida pela imprensa como uma mensagem aos homens: olhe o risco que você corre, se você amar uma prostituta e casar com ela!
 Ora, quero corrigir esse lembrete. Se você se apaixonar por uma prostituta (ex ou não, tanto faz) e quiser se casar com ela, recomendo apenas uma cautela, que não tem nada a ver com sua futura mulher e tudo a ver com você.
Claro, a culpa do crime de 19 de maio é só de Elize, mas o lembrete preventivo é para os homens, embora chegue tarde para Marcos. Se você ama uma mulher que por acaso é prostituta, aí, tudo bem; mas, se você ama essa mulher POR ELA SER prostituta, atenção: nesse caso, seria sábio você se familiarizar com a fantasia que sustenta seu amor.
 Qual é, em geral, a fantasia em questão?
Todo mundo se lembra de "Uma Linda Mulher", filme adorável de Garry Marshall, em que o rico Edward (Richard Gere) se apaixona por Vivian (Julia Roberts), uma prostituta que ele "levantou" na rua.
 Será que a história de Marcos e Elize é "Uma Linda Mulher" sem o final feliz?

De fato, sempre pensei que, depois dos sorrisos do fim do filme, Edward e Vivian acabariam mal -talvez não tão mal quanto Marcos e Elize, mas mal. Por quê? Logo quando Edward decide trazer Vivian para o seu mundo, ele "acha graça" confessar a um amigo que aquela linda mulher que está com ele é uma prostituta de rua.
Prognóstico inelutável.
 Um dia, Edward não resistirá à fantasia que lhe fez escolher Vivian: ele a humilhará (e se humilhará), lembrando, eventualmente diante de amigos e parentes, que Vivian vem da sarjeta e que ele poderia jogá-la de volta para lá.
Na noite do dia 19, segundo a confissão de Elize, Marcos a ameaçou: "Vou te mandar de volta para o lixo de onde você veio". Ele também declarou que, se a mulher quisesse se separar, a filha ficaria com ele, pois será que um juiz daria a guarda da menina a uma prostituta? (Eu aposto que sim, mas sou otimista...).
 Em regra, o desejo de um homem que se apaixona por prostitutas (e planeja "redimi-las") é sustentado por uma fantasia (inconsciente) de vingança -contra a mulher e contra ele mesmo, por ter se deixado seduzir.
 Explico.
A sexualidade de muitos homens é patologicamente neurótica: eles olham para o sexo pelo buraco da fechadura do quarto dos pais.
 Nessa ótica infantil, não se salva ninguém: é "puta" qualquer mulher que vai com os outros, ou seja, todas as mulheres são "putas", inclusive a mãe (surpreendentemente), porque ela vai com pai, padrasto e companhia -enquanto, para a gente, ela só tem carinho contido.
 Para o homem de calça curta, ajoelhado diante da fechadura, a "puta" é um paradoxo: vergonhosamente acessível a todos, salvo a ele.
 É nessa infantilidade que nascem a misoginia básica, o gosto da violência contra as prostitutas, a ideia de que todas as mulheres, se não são prostitutas, sonham com isso e uma preferência amorosa quase exclusiva por meretrizes.                                                              
Quando um desses homens ama uma prostituta e se casa com ela, seu ressentimento pode se calar em nome do amor, mas só por um tempo: ainda ele vai puni-la por ter sido e ser para sempre a "puta" que vai com os outros.


(*) Contardo Calligaris é um psicanalista italiano radicado no Brasil.

 É colunista da Folha de S. Paulo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Fanatismo Religioso entre Outros

 

 “O fanatismo religioso entre outros

"O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma única verdade"

 

"Todos os crentes parecem escandalosos e indiscretos: procura evitá-los"

 

(Nietzsche)

Em nossa época, supostamente dominada pela ciência e pela tecnologia, o fanatismo parece ser uma reação made inrecalcado do inconsciente da humanidade. Fanatismo, vem do latim fanaticus, quer dizer "o que pertence a um templo", fanum. 

 

O indivíduo fanático  ocupa o lugar de escravo diante do senhor absoluto, que, pode ser uma divindade, um líder mundano, uma causa suprema ou uma fé cega.

 

O fanatismo é alimentado por um sistema de crenças absolutas e irracionais  que visa  servir [1] à um ser  poderoso empenhado na luta contra o Mal. 

 

Ou seja, o fanático acha que pode exorcizar pessoas e coisas supostamente possuídas pelo demônio" [2] , "combater as forças do Mal" ou "salvar a humanidade" do caos.

Tendo origem no dogma religioso, o fanatismo não se restringe a esse campo único; existe fanatismo por uma raça, um time de futebol, por um partido político, sobretudo por ideologias revolucionárias quando extrapolam a dimensão racional, sentindo-se guiada pela "fantasia da escolha divina".  Foi fanatismo religioso que fez muitos seguirem Jin Jones (Templo do Povo), Asahara (Verdade suprema), David Koresh (Ramo davidiano), Jo Dimambro (Templo Solar) e tantos outros místicos ou charlatães que terminaram causando tragédias coletivas, noticiadas no mundo todo. A história conheceu também os histerismos coletivos da "caça as bruxas", a perseguição aos negros, índios, comunistas, homossexuais, prostitutas.  

 

O movimento da Jihad islâmica contra os "infiéis do ocidente" e a "guerra aos terroristas" do ocidente cristão, demonstram que o fanatismo está vivo e atuante em nossa época supostamente "científica" e "tecnológica". Precisamos admitir que, a história da humanidade é também a história dos vários fanatismos dominando grupos humanos, sempre com conseqüências trágicas. Esse pedaço da história renegado nos causa vergonha, medo e sinalizam alertas para possíveis efeitos negativos no rumo da civilização.

Como dissemos, o fanatismo atua para além do efeito religioso, mas não extrapola ao campo ideológico como um todo. Há fanatismo entre crentes de todo o tipo, do menos ao mais irracional. Mas, não existe fanatismo racional, em que pese o fato de um certo tipo de razão (instrumental, cínica, etc) também ter cometidos os seus desatinos e crimes [3] . Assim, para o fanático religioso, não basta adorar um Deus visto como Senhor absoluto, é necessário ser soldado dele na terra, lutar pela causa superior, pregar, exorcizar, forçar os "infiéis" ou "divergentes" à conversão absoluta, à qualquer preço.

 

O fanático está sempre disposto a dar provas do quanto sua causa suprema vale mais do que as próprias vidas: dele, de sua família ou mesmo de toda a humanidade. Ele mata por uma idéia e igualmente morre por ela.

Os sintomas do fanatismo

Os sintomas do fanatismo, em grupo, são: orações, privações, peregrinações, jejum, discursos monológicos e martírios que podem terminar com o sacrifício da própria vida visando salvar o mundo das "trevas" ou do que ele entende ser "o mal" [4] .

O fanático não fala, faz discursos; é portador de discursos [5] prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso ou a inculcação política de idéias que poderá vir a se tornar ato agressivo ou violento, tomado sempre como revelação da "ira de Deus" ou "a inevitável marcha da história" ou, ainda, a suposta "superioridade de uns sobre os demais". Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da dialética, do discernimento da verdade, osdiscursos - especialmente o discurso fanático - fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objetos de um desejo divinizado; servir ao desejo divino e à produção da repetição de algo já pronto, onde o retorno do recalcado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa ser destruído para reinar o Bem.

Os textos sagrados, tomados literalmente, fornecem a sustentação "teórica" do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não se dá ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda, contextualizá-lo, etc.

 

O fanático tem certeza e isso lhe basta. Creio porque é absurdo, já dizia Tertuliano. Certeza para ele é igual a verdade.

 

(Segundo Popper, no campo científico, a certeza nada vale porque é "raramente objetiva: geralmente não passa de um forte sentimento de confiança, ou convicção, embora baseada em conhecimento insuficiente", já a verdade tem estatuto de objetividade, na medida em que "consiste na correspondência aos factos", na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. (Popper, 1988, p. 48).

O problema da religião não é a paixão "fé", mas a inquestionalidade de seu método.

O método de qualquer religião traz uma certeza divulgada em forma de monólogo,jamais de diálogo ou debate de idéias.

O pastor, padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que "vale tudo" para difundir a "verdade única" que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que jamais se voltam para  escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir a verdade - não a "certeza" [6] .

Psicopatologia do fanatismo

Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade.  A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afetada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência  tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a civilização.

O terrorismo, por exemplo, que atua com a única meta de destruir inimigos [7] aleatórios é realizado por indivíduos fanáticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade. No terrorismo é uma das expressões do fanatismo combinado com uma inteligência tecnológico, mas totalmente incapaz de exercitá-la por meios mais racionais, políticos e legais. Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível e a construção de um novo projeto político-econômico, não está em questão, porque a realidade no seu todo é forcluída [8] .

O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de "ter sido escolhido por Deus para uma missão "x", já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. Mas, seguindo o raciocínio de Freud, vemos que"aquilo que o psicótico paranóico vivencia na própria pele, o parafrênico experiência na pele do outro" [9] , ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranóia. 

Hitler, antes considerado um paranóico, hoje é mais aceito enquanto parafrênico [10] , pois seus atos indicam sua idéia fixa pela supremacia da raça ariana e a eliminação dos "impuros"; mais ainda, o gozo psíquico do parafrênico não se limita "ser olhado" ou "ser perseguido", tal como acontece com paranóicos, mas sim se desenvolve "uma ação inteligente de perseguição e extermínio de milhares de seres humanos", donde extrai um quantum de gozo sádico.

Portanto, deve existir membros de um grupo de fanáticos paranóicos, mas certamente o pior fanático é o determinado pela parafrenia, pois visa de fato destruir em atos calculados "os impuros", "os infiéis", enfim, todos os que não concordam com ele.

Hitler e seus comparsas usaram de inteligência para inventar e administrar a chamada "solução final" contra os judeus, porém, antes de ser este um fato criminoso era uma exigência interna de seu próprio psiquismo.

Na parafrenia vigora a compulsão de observar e atuar o ser do Outro como alimentador de seu delírio interno. O parafrênico "faz acting out em nome de..." e jamais assume seu ato criminoso, pondo a responsabilidade em alguém que para ele encarna o "mal".

Para sua "lógica", as vítimas são os únicos responsáveis. É curioso observar que ontem os judeus se agarravam ao sacrifício do holocausto [11] como modo de explicação da tragédia em que eram vítimas, mas hoje a ultra direita israelense, no poder, parece resgatar dos nazistas essa terrível idéia da "solução final" contra os palestinos. "Quem lutou muito contra dragão, também vira dragão", diz um antigo provérbio chinês.

Os fanáticos pela "solução final" dos judeus, no Julgamento de Nuremberg, não se consideravam culpados ou com remorsos pelo extermínio coletivo. Goering, considerado o segundo homem depois de Hitler, tentou se defender segundo o princípio de sua lealdade e fidelidade para com o Führer; "cumprira ordens" e "nenhuma vez ele se considerou um criminoso" [12] .

Eis a "razão cínica": a culpa pelo genocídio era dos próprios judeus gananciosos por dinheiro, não de seus carrascos nazistas. Os israelenses da "era Sharon" também não se responsabilizam pelos atos criminosos de Israel contra os palestinos generalizados como terroristas.

Se no fanatismo o sujeito inexiste para dar lugar ao Senhor absoluto e maravilhoso, então faz sentido não assumir a sua própria responsabilidade, porque ela é "obra do Senhor" [Werk de herrn.] [13] , "o Senhor quer que eu faça", "foi a mão de Allah" [14] , etc.

São mais do que frases, são efeitos de uma poderosa "fantasia da eleição divina" [sic!] onde o sujeito é nadificado para dar lugar ao discurso delirante da salvação messiânica [15] . O mundo fanático foi dividido entre "os eleitos" e os que continuam nas trevas e que precisam ser salvos ou serem combatidos por todos os meios, pois "são forças do mal".

O famoso caso Schreber, analisado por Freud [16] , que acreditava ter recebido um chamado de Deus para salvar o mundo, que lhe era transmitido por uma linguagem particular - só entre ele e Deus - , tornou-se o modelo psicanalítico para se pensar a relação loucura e fanatismo.

 Como já dissemos, o fanatismo é sustentado por sistema de crença delirante, psicótico, dominado por uma autoridade absoluta e invisível (Deus ou a causa da "supremacia da raça ariana", ou a "missão do povo judeu", ou "a Jihad islâmica", "ou salvar o mundo do diabo", enfim, um significante posto no lugar "absoluto" que comanda a ação do grupo fanático [17] ,etc). Segundo a psicanálise, isso poderia apontar para a hipótese de um "complexo paterno" de origem.

A leitura lacaniana fala de "um buraco no Nome-do-Pai, que produz no sujeito um buraco correspondente, no lugar da significação fálica, o que provoca nele, quando é confrontado com essa significação fálica, a mais completa confusão. É  isso que desencadeia a psicose de Schreber, no momento em que ele próprio é chamado a ocupar uma função simbólica de autoridade, situação à qual só teria podido reagir com manifestações alucinatórias agudas, às quais a construção de seu delírio iria pouco a pouco fornecer uma solução, constituindo, no lugar da metáfora paterna fracassada, uma "metáfora delirante", destinada a dar um sentido àquilo que, para ele, era totalmente desprovido de sentido" [18] .

Os primeiros sintomas de fanatismo e suas estratégias de sedução

O início de qualquer fanatismo consiste, em primeiro, reconhecermos um sujeito ou grupo estarem convictos, quando julgam de posse de uma certeza que recusa o teste da realidade. Nietzsche dizia que "as convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras", porque quem mente sabe que está mentindo, mas quem está convicto não se dá conta do seu engano. "convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria" [19] . Até no campo científico, há cientistas correndo o perigo de tornar-se convictos de suas teses.

 Edgar Morin analisa que quando algumas idéias se tornam supervalorizadas e adquirem um caráter de grandiosidade e absolutismo tendem a levar os seus sujeitos a abdicarem de seu raciocínio crítico e se tornarem meros objetos dessas idéias. Indivíduos assim submetidos a tão grandes idéias, fazem qualquer coisa para "salva-las" de um possível furo de morte; elas funcionam como muleta existencial. Isso acontece principalmente no meio religioso, mas também pode ocorrer nos meios político, filosófico  e científico. 

segundo sinal do fanatismo é quando alguém quer impor a todos de modo tirânico a "verdade" única extraída de sua inspiração ou crença absoluta. Pretende assim a uniformização via linguagem, através de aparência física, rituais e slogans do tipo: "O único Deus é Allah", "só Cristo salva", "Jesus Cristo é o Senhor", "somos o Bem contra o Mal", "Em nome do Senhor Jesus eu ordeno..."

São expressões de caráter estereotipado, sustentado por uma "estrutura de alienação do saber" [20] , onde o discurso passa a falar sozinho, é uma resposta que está no gatilho, pronta para qualquer emergência que o sujeito não quer pensarObservem o caráter tirânico, narcisista e excludente dessas afirmativas. Todos possuem uma visão que nega outros modos de crer e pensar.

O mesmo acontece nos auto-elogios das pessoas de raça branca e o desprezo pelas outras como proclamam os fanáticos da extrema direita, nas ações violentas de uma torcida sobre a outra, todos, sinalizam que o indivíduo se rende ao grupo e este "a causa". Os recém convertidos de qualquer seita religiosa ou política estão sempre convictos que, finalmente, contemplam a verdade e essa tem que ser imposta a todos, custe o que custar.

O terceiro indicativo de fanatismo, já dissemos, é quando uma pessoa passa a colocar uma causa suprema (podendo esta ser justa ou delirante) acima da vida dela e dos outros.

Quarto, quando um indivíduo e/ou grupo se isolam da convivência familiar e social e adotam um modo de vida narcísico [21] (no igual modo de vestir, de cortar ou não cortar o cabelo, no jeito de falar, nas regras de comer, na ritualística, etc), enfim, quando uniformizam seu discurso, gestos, postura, atitudes em geral e punem os que se recusam a seguir as regras impostas. Entrar para um grupo de fanáticos implica em renunciar: pai, mãe, os filhos, os amigos, o lugar onde viveu, o trabalho, enfim, os membros são persuadidos a matarem os vestígios simbólicos da vida anterior para fazer renascer a vida em outra base moral e de fé.

Quinto, quando o indivíduo e/ou grupo perdem o bom-senso na lógica da comunicação e nas ações do cotidiano. O discurso passa a ser repetitivo e estranho à vida comum.

O sexto indício de fanatismo é quando se perde o sentido de respeito e humanidade para com os diferentes, em nome de uma causa transcendente.

psicólogo francês, J-M. Abgrael, resume o método de doutrinação fanática em 3 etapas: 1osedução das pessoas para a "causa"; 2odestruição da antiga personalidade, eliminação dos elos familiares, sociais e profissionais e 3oconstrução de uma nova personalidade "renascida" ou "renovada", de acordo com o modelo e as regras da seita.  

Geralmente essa passagem da vida normal para a vida "renovada", há um ritual, algum tipo de batismo, onde se inicia a adoção de um novo nome, novos hábitos, apresentação de novas "famílias". Sentir-se incluso num grupo "de irmãos" ou "de luta pela causa" "é como estar apaixonado; surge uma sensação maravilhosa, tudo passa a fazer sentido na vida, a pessoa se sente acolhida e imensamente alegre". 

O indivíduo passa a se ver se modo especial, diferente dos demais para realizar a missão elevada; se vê inundado por um sentimento grandioso que Freud chama de "sentimento oceânico". Imagine um indivíduo desesperado, desgarrado de seu grupo social, sem uma forte identidade psicossocial cuja vida perdeu o sentidoao ser acolhido em um grupo fanático, recebe mensagens confortadoras, do tipo: "nós amamos você", "você é muito importante para o projeto de Deus", "você faz parte de nossa vida", "Deus te ama", etc Diz P. Demo (2001) "o sentimento de ser amado, move o entusiasmo mais do de qualquer coisa".

Faz parte da estratégia para atrair pessoas para novas seitas e igrejas, investir em programas produzidos para solitários que sofrem insônia e depressão nas madrugadas. Os desesperados sentem-se acolhidos com tais palavras mágicas e facilmente se sentem inclusos e maravilhados pela ilusão de nova vida e sentimento extremo de felicidade,  numa igreja em que o fanatismo é o seu ponto cego.

Todo fanático é intolerante.

fanatismo é a intolerância extrema para com os diferentes. Um evangélico fanático é incapaz de diálogo e respeito para com um católico ou um budista. Um fanático de direita não quer diálogo com os de esquerda. Organizações como a Ku Klux Klan são intolerantes igualmente com negros adultos, mulheres e crianças. Por isso se diz que há em cada fanático um fascista camuflado, pronto para emergir em atos de exclusão e eliminação.

semiólogo e filósofo italiano, Umberto Eco, reconhece que o protofascismo está presente nos movimentos fanáticos [22] . No campo político, não importa auto denominar-se de "esquerda" ou de "direita" pode existir um protofascismo. No fundo os atos terroristas são produzidos e sustentados por fanatismos de inspiração místico-fascista [23] incapazes de diálogo ou argumento racional que esclarece sua causa objetiva.

Não é sem sentido que os atos terroristas deixaram de dizer algo pela palavra e passaram a ser apenas o ato, o acting out.  S. P. Rouanet diz que "os terroristas são agentes de uma ideologia religiosa extrema direita ... que funciona como ópio do povo..." (A coroa e a estrela, FSP, Mais!, 18/11/01)

O fascismo, tanto o de Estado dos fundamentalistas religiosos, como o que está pulverizado nos atos do cotidiano das relações humanas, é fanático porque desrespeita, desconsidera, é intolerante quanto ao modo de ser, pensar e agir do outro [24] , é tradicionalista-fundamentalista.  

Enquanto o fascista "quer o poder pelo poder", há o fanático "autêntico" que anseia dominar o mundo com sua crença, e o "fanático terrorista" que "deseja apenas destruir a estrutura de sustentação do inimigo". Mas, ambos, o fascismo e o fanatismo não são compatíveis com a democracia. Ambos pregam intolerância multirreligiosa, a intolerância multicultural e multirracial e usam o espaço de liberdade democrática para espalhar o seu ódio e sua crença.

sentimento que no fundo sustenta o fanatismo e o fascismo não é a fé, nem o amor [Eros], mas o ódio [Thanatos] e a intolerância. O desejo do fanático "autêntico" é dominar o mundo com seu sistema de crença cheio de certeza. No plano psíquico, o lugar do recalque torna-se depósito de ódio e desejo de eliminar todos os que atrapalham o seu ideal de sociedade. Certa dose de paciência doutrinada o faz esperar-agindo para que a "idade de ouro puro" possa um dia acontecer. 

São tão fanáticos os terroristas-suicidas muçulmanos como os fundamentalistas cristãos norte-americanos que atacam clínicas de abortos, perseguem homossexuais, proíbem o ensino da teoria evolucionista de Darwin, obrigando aos professores ensinarem a doutrina criacionista tal como está na Bíblia, ou ainda, os protestantes da Irlanda do Norte que atacam crianças católicas ou os bascos que querem ser um país independente a qualquer preço, por meio do terror.

Alguns personagens "messiânicos" de nosso tempo, como Hitler, Idi Amin, Reagan, G. W. Bush, Sharon, os grupos dos martírios suicidas do Oriente Médio, entre outros, tem algo em comum: cada um se sente o escolhido para cumprir uma especial missão [25] . Hitler discursou que "as lágrimas da guerra preparariam as colheitas do mundo futuro". G. Bush, na sua ânsia de guerra contra o ditador S. Hussein, não estaria delirando no mesma linha ?

Não é sem sentido que os EUA, tem sido o solo fértil de seitas cristãs fanáticas. Uma delas, A Casa dos Filhos de Jeová, torce para o mundo se acabar logo, porque seus membros acreditam que depois surgirá uma nova civilização do Bem.

Fanáticos e suicidas carecem de humor

fanatismo parece ser uma doença contagiosa, pois tem o poder de atrair adeptos geralmente em crise profunda de vida pessoal. Fanáticos e suicidas tem em comum a falta de humor e o desapego pela própria vida. A certeza cega tira-lhes o humor e os colocam no caminho do sacrifício místico.

O escritor e pacifista israelense, Amós Oz, numa carta ao escritor japonês Kenzaburo Oe, Prêmio Nobel de 1994, escreve ter encontrado a "cura para o fanatismo": o bom humor. Diz que: "nunca vi um fanático bem-humorado, nem alguém bem-humorado se tornar fanático". Oz imagina uma forma mágica de prevenir o fanatismo: um novo tipo de messias que "chegará rindo e contando piadas".

Emil Cioran, um filósofo amargo e pessimista, vê nas atitudes dos céticos, dos preguiçosos e dos estetas, os únicos que verdadeiramente estão a salvo do fanatismo. Já os religiosos estreitos, os políticos sectários, os dogmáticos que habitam em todas as áreas do conhecimento, tendem ao fanatismo com seus instrumentos próprios. O fanática jamais se pensa ser fanático [26] .

Enfim, é preciso estarmos atentos e preparados para resistir os apelos do fanatismo que como erva daninha não escolhe lugar para germinar e se alastrar. Os grupos fanáticos exercem um atrativo para os indivíduos que possuem uma estrutura psíquica vulnerável, os desesperados, os desgarrados, os avessos ao espírito crítico ou predispostos à crendice, ao desejo de encontrar uma certeza e a se "contentar-se com pouco" na terra, porque ele tem certeza de que ganhará na suposta vida após a morte. Tanto o fanatismo como a guerra estão entre as situações que se encontram na contramão da sabedoria. 

Para prevenção do fanatismo

Freud, como pensador evolucionista, pensava que só quando a civilização ascendesse à maturidade psíquica é que descartaria os mecanismos infantis ou alienantes cuja matriz é a religião. Segundo o fundador da psicanálise, a religião infantiliza as pessoas e as arrasta ao delírio de massa. O homem não poderia viver nesse estado de infantilismo para sempre, daí a urgente necessidade de um projeto de uma "educação para a realidade" [27] , que fortaleceria a vida intelectual, facilitando o acesso de todos ao conhecimento científico, por ser este verdadeiro.

Ademais, a religião não fez e nem faz as pessoas felizes, mas, dá-lhes uma ilusão de felicidade; sem dúvida, ela tem o poder de controla os impulsos primitivos psicossexuais e proporciona alguma direção moral, que costuma ir além do necessário, ou seja, reprimindo o potencial criativo ou de prazer genuíno das pessoas.

Amós Oz [28] , o escritor pacifista, sugere a criação de escolas em todo o mundo da disciplina "fanatismo comparado". Tal disciplina não apenas serviria para entender os fanatismos: religioso, nacionalista, racial, político, desportivo, mas também outros que passam desapercebidos, como o "antitabagista" que poderia queimar os que fumam, o "vegetariano" que comeria vivo quem come carne, "o ecologista" que prefere salvar as baleias às pessoas famintas, etc. Uma disciplina como essa, teria uma função mais que educativa, teria uma preocupação preventiva quanto a possibilidade de "contágio" social do fanatismo, já que pode-se pegá-lo ao tentar curar alguém desse mal. "Conheço o perigo de se tornar um fanático antifanatismo", alerta o escritor.

Concluindo, resumimos que, previne-se o fanatismo com uma educação de boa qualidade, que saiba promover a cultura geral - mais do que a fé - e o sentido degrupo, de criatividade humor.

Emil Cioran

 

Psicanalista, docente na UEM e doutorando na Universidade de São Paulo

[1] Geralmente os fanáticos que se tornam assassinos o fazem "em nome de Deus", ou em nome de um Outro qualquer. Ele é apenas um comandado. Já os assassinatos múltiplos disparados por um franco atirador anônimo, nos EUA,  parecem não ser movidos por um Outro, ou "Grande ser", isto porque o assassino se diz que é o próprio "Deus".

[2] Basta ir a um templo evangélico ou, nas madrugadas, assistir pela televisão um show de exorcismo

[3] Nesse sentido, o Prof. Hilton Japiassu, costuma citar F. Jacob, que diz: "Não é somente o interesse que leva os homens a se matarem. Também é odogmatismo. Nada é tão perigoso quanto a certeza de ter razão. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada como absoluta. Todos os crimes da História são consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram realizados por virtude: em nome da religião verdadeira, doracionalismo legítimo, da política idônea, da ideologia justa; em suma, em nome do combater contra a verdade do outro, do combate contra Satã" . Cf.: Crise da razão no ocidente. In: Japiassu, H. Desistir de penar? Nem pensar, 2001.

[4] Zusman, W. 2001.

[5] Para uma melhor compreensão dessa distinção, ver Juranville, A. Lacan e a filosofia. Rio: Jorge Zahar, 1987, principalmente a segunda parte.

[6] Ossama Bin Laden é um bom exemplo de um fanático tecnológico que faz comunicados, monólogos, declarações ou discursos, jamais se oferece para um diálogo franco e aberto para confrontar com outros pontos de vista.

[7] "O terrorismo é uma das expressões do fanatismo fundamentalista".

[8]   Cf.: Chemama, R.1995, p. 79-81.

[9] Cf.: conforme análise de Becker, S., 1999.

[10] Essa é a tese de S. Becker, 1999.

[11] Originariamente o holocausto [gr. Holókauston] era o "sacrifício em que a vítima era queimada inteira". Entre os hebreus, o holocausto era também o sacrifício em que se queimavam inteiramente as vítimas, tendo assim um sentido de imolação ou expiação. No período nazista, entre 1935 e 1945, os judeus se viram diante de um novo holocausto, sendo obrigados a perda da cidadania, a trabalhos forçados, a serem fuzilados em massa, serem transportados pela força para os campos de concentração onde terminavam sendo exterminados coletivamente em câmaras de gás. Durante esse holocausto, cerca de 6 milhões de judeus pereceram.

[12] Cf.: Manvell, R, e Fraenkel, H. 1962, p. 262. Conferir pelo menos todo o capítulo final "Nuremberg". 

[13] Dito por Hitler, em Mein Kampf. Apud Becker, S. 1999, p. 157.

[14] Dito por Ossama Bin Laden, por ocasião do ataque aos EUA.

[15] "É o saber instituído no discurso universitário, quando o S1 vem no lugar da verdade. Com a extinção desse lugar ético, acontece a forclusão do Nome-do-Pai e a formação da holófrase parafrênica". (Becker, S., 1999, p. 158).

[16] Cf.: S. Freud. [1911] Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (dementia paranoides), v. XII, p. 15 -105.

[17] Raciocínio parecido fez o ensaista, poeta e dramaturgo alemão, Hans Magnus Enzensberger, onde escreve: "Não importa saber de qual alucinação se trata. Qualquer instância superior serve - uma missão divina, uma pátria sagrada, a uma revolução qualquer. Em caso de emergência, no entanto, o suicida assassino [refere-se aos kamisazes de 11 de setembro, entre outros atos suicídas]pode se arranjar até com uma justificativa qualquer de segunda mão. Seu triunfo consiste no fato de que não poderá ser atacado nem punido; disso ele mesmo se encarrega. E também o mandante à distância aguarda em seu "bunker " o  momento da própria extinção; deleita-se  - como Elias Canetti já há meio século formulava - só com a idéia de que antes dele possivelmente todos os outros, inclusive seus correligionários, serão mortos" (grifo meu). Enzensberger, H. M. Paranóia da autodestruição. Folha de S. Paulo - Mais, 11/11/2001.

[18] Cf.: Chemama, R. 1995, p. 161-2.

[19] Cf.: R. Alves. 2001, p. 105-10.

[20] Trata-se de uma conceito de R. Barthes, trabalhado por L. Mrech 1999) . As "estruturas de alienação do saber" são formas estereotipadas de saber, mas que perderam o contato real  com a realidade entre os sujeitos. É uma estrutura  programada para filtrar o que o sujeito deve escutar, o que dizer e o que fazer em um determinado momento. Não incorpora nada novo, apenas repete.

[21] Observamos que o narcisismo visa um resultado de gozo místico que implica, sobretudo, "amar a si mesmo", tal como o Mito de Narciso, que morre diante de sua imagem refletida na água, ignorante que era sua própria imagem. O êxtase do místico, que faz um ato de terror, ou de suicídio ou, ainda, de ambos, é a intenção de "ultrapassagem do limiar do gozo-Outro" (Nasio, 1993) ; de um gozar que implicam o corpo e o psíquico, na crença suposta de uma vida após a morte.

[22]   Cf.: Nebulosa fascista. FSP, 1995.

[23] O fascista não é necessariamente nazista. Esclarece Eco que enquanto o nazista é obcecado pela raça pura, o fascista é pelo comando total das pessoas, que perdem suas liberdades.

[24] Estamos nos baseando nas teses de U. Eco, escritas no artigo ensaio "Nebulosa fascista", que aproveitamos em nosso artigo "Tolerância zero ao profofascismo", publicado na revista virtual www.espacoacademico.com.br , ano 1, n. 4, set. 2001.

[25] O tamanho do cinismo de Hitler está na frase: "pela graça de Deus, eu sempre evitei oprimir meus inimigos" (apud Chalita, M., s.d., p. 186). Tem sido frequente, ditadores se verem os eleitos de Deus para cumprir uma missão na terra. Idi Amim Dada, o ditador-açougueiro de Uganda, certa vez declarou: "Eu só atuo conforme as instruções de Deus". (apud Chalita, M., s. d., p. 186).

[26] Segundo pesquisa de P. Demo (20000) 3/4 dos crentes da Igreja Universal do Reino de Deus negam com veemência que a religião fosse uma forma de fuga. Também é frenética a exacerbação do nome de Jesus, que é visto como única solução de todos os problemas.

[27] Freud, S. Futuro de uma ilusão, p. 64.

[28] A. ÓzFolha de S. Paulo - Cad. Mais!

 

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