segunda-feira, 26 de março de 2012

O Amor é dar o que não se tem (a alguém que não o quer).

O Amor é dar o que não se tem (a alguém que não o quer). 

Esta frase aparece como um refrão no Seminário VIII, "A transferência" (1960-1961), tendo já figurado no texto "A Direção da Cura" (1958). Em ambos os contextos, é da transferência analítica que se trata, aquela que Freud não hesitou em chamar de amorosa.

Na definição do Dictionnaire de la Psychanalyse, de Roland Chemama, no verbete amour (références Larousse), o amor é um "sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado de ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo".

O amor inspirou os poetas e os filósofos desde sempre, a própria Filosofia se intitulando como "amor da sabedoria".

A psicanálise veio dar um giro no conceito, acrescentando ao psicológico e imaginário as incidências inconscientes do ser de desejo e de falta.

Para demonstrar o quanto de antinômico pode perpassar os dois polos, Freud aponta o fato pouco raro de que muitos homens não conseguem desejar a mulher que amam, nem amar a mulher que desejam.

É que a mulher amada e respeitada, escolhida segundo um modelo da mãe, torna-se, por isto mesmo, proibida.

Mais que o amor, é a pulsão sexual que mobiliza as pessoas e energiza o mundo.

A energia psíquica das pulsões, a libido, foi sempre mantida por Freud como de natureza sexual, contra a insistência de Jung em afirmá-la como energia psíquica não especificada.

Para Freud, o genital da reprodução não cobre o sexual do prazer e do desejo, existente este desde a tenra infância, para espanto e escândalo dos leitores do começo do século XX.

Para qualquer criança, o primeiro objeto amoroso é a mãe.

O próprio Freud descobriu, em sua autoanálise, que, quando criança, teve sentimentos de amor para com sua mãe, e de ciúme em relação ao pai. Toda criança passou por isto, embora o tenha recalcado, o que vai acarretar mais ou menos dificuldades nas escolhas de objeto posteriores.

É que estas escolhas são mediadas por um modelo, o de um outro.

 É assim que se instaura o processo de estruturação do sujeito.

O infans, que não teve ainda acesso à linguagem, não tem a imagem unificada de seu próprio corpo, não tem noção do eu e do objeto, não tem sua identidade de verdadeiro sujeito.

O investimento pulsional é aí autoerótico. Tudo se passa no registro da necessidade. A estruturação do sujeito implica ultrapassar o registro da necessidade para o do desejo.

O grito e o choro, inicialmente, expressão de insatisfação e desconforto, tomam-se apelo, demanda de outra coisa.

A resposta do outro, sob a forma de olhar de reconhecimento, vai constituir a identidade do sujeito.

Este é, para Lacan, o narcisismo primário, investimento libidinal do sujeito em si mesmo, nesta imagem de si confirmada pelo outro.

A esta identificação primordial vão se suceder as identificações imaginárias, ainda exteriores, a ponto de Lacan dizer que "o eu é um outro". A mesma imagem com que a criança se identifica, também a aliena.

E quando o espelho é outra criança da mesma idade, o que ocorre é a eclosão da agressividade, cada qual se julgando "sua majestade onipotente".

Como não há lugar para dois onipotentes ao mesmo tempo e no mesmo trono, um deve eliminar o outro, sob legítima defesa. O ódio aí aparece como uma paixão que visa destruir o objeto.

E Lacan não perde a ocasião de evocar, em seus seminários, o exemplo autobiográfico descrito por Santo Agostinho, nas Confissões, do menino que, antes do domínio da fala, contempla, pálido e com o olhar envenenado, seu irmão de leite, mamando no seio da mãe. Contempla, de fato, sua própria imagem corporal, fornecida pelo irmão, onde o sujeito se percebe como excluído do objeto de seu desejo.

Apesar de a imagem ser fundadora, ele a odeia.

É esta ambivalência que Lacan vai denominar, no Seminário XX, "Encore", de hainamoration, ódio e enamoração, (amódio, amor e ódio, na tradução brasileira).

Mas, é através dos Diálogos de Platão, que qualquer consideração sobre o amor toma consistência.

Retomando o título deste capítulo, a frase é uma "invencionice" de Lacan, segundo ele mesmo.

O que está escrito n’O Banquete de Platão é : "é impossível a qualquer pessoa dar aquilo que não tem, nem ensinar aquilo que não sabe".

O Banquete foi citado também por Freud nos textos: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e Além do princípio de prazer.

 No prefácio à quarta edição dos Três ensaios, Freud assinala que a nova dimensão dada ao conceito de sexualidade, na psicanálise, corresponde ao conceito de "Eros" do divino Platão.

Lacan toma O Banquete como base para desenvolver o seminário sobre a transferência.

O Banquete se compõe de vários discursos sobre o amor, que Lacan nos orienta a ler como se fossem relatos de sessões de análise.

Numa versão que só se encontra em Platão, assim é descrito o mito do nascimento do Amor: Amor é filho dePoros (a Astúcia, a Riqueza) e de Penia (a Pobreza ou Miséria).

Por ocasião do nascimento de Afrodite (aquela que nasceu dos órgãos castrados de Zeus, lançados ao mar), os deuses deram um banquete comemorativo, ao qual compareceu Poros.

Durante a festa, Penia sentou-se do lado de fora, nas escadarias, para mendigar as sobras da mesa.

Não entrou, porque não tinha nenhum presente a oferecer. Acontece que Poros se embriagou, saiu para o jardim, e Penia se fez engravidar por ele, enquanto estava adormecido.

Nasceu Amor, de um masculino passivo, desejável, e um feminino ativo, desejante.

O que ocorre entre o amante e o amado?

O que é amante? É aquele que, sentindo que algo lhe falta, mesmo sem saber o que seja, supõe em outro, o amado, algo que o completaria.

O amado, por sua vez, sentindo-se escolhido, supõe que tem algo a dar, sem saber bem o quê.

Mas, como o amado é também um ser falante e faltante, algo também lhe falta, como ao amante. Assim, o que ambos têm a dar é um nada, um vazio. E aquilo que o amado supõe ter para dar, não é o que falta ao amante.

O amante não sabe o que lhe falta, o amado não sabe o que tem, um não-saber que é do inconsciente.

Quanto ao amor, nada mais discordante, como diz Lacan: "basta que se esteja nele, basta amar, para ser presa desta hiância, dessa discórdia".

O amor é um significante, uma metáfora, uma substituição: "É na medida em que a função do Érastès, do amante, na medida em que é ele o sujeito da fala, vem no lugar, substitui a função do Éroménos, o objeto amado, que se produz a significação do amor".

No Seminário XI, sobre "Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise", Lacan é mais enfático, dizendo que "amar é querer ser amado", formulação bem próxima do conceito de amor narcísico em Freud.

Sendo assim, no mesmo momento em que o amante constitui alguém como amado, transforma-o em seu amante, e vice-versa. Do lado do amante, está a posição ativa, que provoca automaticamente sua reversão em passividade. A metáfora do desejante aponta para a resposta à questão: "o que é desejado?

É o desejante no outro". Isto é tão profundo e forte que, se fosse convocado um exército feito de amados e amantes, segundo Lacan, "seria um exército invencível, na medida em que o amado, para o amante, tanto quanto o amante para o amado, são eminentemente suscetíveis de representar a mais alta autoridade moral, aquela diante da qual não se cede, aquela diante da qual não se pode ser desonrado.

Esta noção alcança, no seu ponto extremo, o amor como princípio do sacrifício último".

Mas, o paradoxo do amor ostenta seu lado fraco, um impasse e um problema, na medida em que "o sujeito não pode satisfazer a demanda do Outro senão rebaixando-o, fazendo deste Outro o objeto de seu desejo".

Mesmo assim, o amor é privilégio do ser falante. Os animais não amam porque não podem demandar a um outro que produza a metáfora do amor.

Por isto, se alguém responde à demanda de amor dando alguma coisa sem metaforizar, não está amando. É um engano, um logro. "Há, no rico, uma grande dificuldade de amar".

Porque ele se apressa em responder à demanda, dando o que tem. Para Lacan, "dar o que se tem, isso é a festa, não é o amor". O rico, ao dar, quer se livrar do pedinte.

Dar, para o rico, é o mesmo que recusar o amor.

A má reputação dos ricos os dificulta de entrar no reino dos céus. Ali só entram os santos, os que, não tendo nada para dar, sendo pobres, podem amar verdadeiramente, estando aí sua riqueza.

Qual era o encantamento que levava Alcebíades a declarar amor a Sócrates? Ele mesmo o diz n’O Banquete: "Começarei dizendo que Sócrates é semelhante a esses silenos que se encontram nas oficinas dos estatuários;... quando se abrem estas estátuas, vê-se que no interior se aloja um deus".

O que continham estas estátuas, ninguém sabe ao certo. Lacan sugere: ornamentos, enfeites, jóias, ex-votos, fetiches; eram sempre objetos preciosos e brilhantes, chamados de "Agalma", de onde Lacan extrai a letra "a" do "objeto a". São correlatos, na psicanálise, aos conceitos de objeto parcial, objeto do desejo, “objeto a”, falo.

Tê-lo ou sê-lo, é a dialética que gira em tomo do falo, este "objeto privilegiado no campo do Outro".

O homem não é sem tê-lo, e a mulher é sem tê-lo. "É na proporção de uma certa renúncia ao falo que o sujeito entra na posse da pluralidade dos objetos que caracterizam o mundo humano".

E o analista?

Este se coloca, inicialmente, na posição de amante, de demandante.

Já que decidiu ser analista, este desejo lhe indicou que algo faltava.

Faltava ser analista. Falta fundada no desejo de saber sobre o desejo do paciente, do amado.

O analista pede, então, que o paciente lhe dê ou fale algo que ele, analista, não sabe o que é.

O paciente, por sua vez, supondo que tem algo a dar, a dizer, o seu não saber sobre os sintomas, inverte a situação, passando a amante, agora na posição da atividade associativa. Esta gangorra do amante amado, mestre-‘objeto a’, vai se substituindo.

O paciente sabe que tem algo não-sabido, o analista sabe que seu saber é só suposto. Assim, cada um só tem a dar um nada. Isto é a transferência, dar o que não se tem o verdadeiro amor.

Diz Lacan: "Para que o analista possa ter aquilo que falta ao outro, é preciso que ele tenha a nesciência.

É preciso que ele esteja sob o modo de ter, que ele não seja, ele também, sem tê-lo, que não falte nada para que ele seja tão nesciente quanto seu sujeito".

Daí a importância de que o analista não compreenda e não confie na sua compreensão. É bom até duvidar dela. Ele não tem que procurar, mas convém achar, justo onde não compreende e não espera encontrar.

Pois, "é somente na medida em que, decerto, ele sabe o que é o desejo, mas não sabe o que esse sujeito, com quem embarcou na aventura analítica, deseja, que ele está em posição de ter em si, deste desejo, o objeto".

E se o analista sabe o que é o desejo, sabe-o pela própria experiência de se ter defrontado com o "objeto a", causa do desejo, em sua própria análise.

Foi um processo de depuração de um desejo mais forte, uma mutação na economia de seu próprio desejo, que o transformou em desejante, habilitado a ocupar o lugar de desejado, lugar de causa do desejo.

Estão dadas assim as condições para que aconteça o verdadeiro amor, no dizer de Lacan:

 "A cela analítica, mesmo macia, não é nada menos que um leito de amor".

Duas pessoas se encontram, com determinada freqüência, durante meses, durante anos, numa salinha trancada, onde passam horas a sós, falando do que há de mais íntimo, pessoal, secreto, sofrido, magoado, esperançoso, feliz, alegre, todas as fantasias à solta, nenhum risco de julgamento ou censura.

Sem falsas promessas, dizem-se coisas que a ninguém mais é dado ouvir, nem aos pais, irmãos, parentes, amigos, namorados, amantes, parceiros, colegas; coisas que, se não fossem ditas ali, nunca mais seriam proferidas pelo resto da vida, e isso, diante de alguém total e incondicionalmente disponível a escutar, sem limites. Então, isto não é o grande e verdadeiro amor?

Aquele que dá o que não tem?

Freud se interrogava se o amor de transferência era verdadeiro ou falso. Admitiu até que era verdadeiro, mas com a pessoa errada. O erro sobre a pessoa aconteceu também n’O Banquete.

Quando Alcebíades tomou a palavra para proferir seu discurso sobre o amor, dirigiu-se a Sócrates e, entre encômios ao amor, lhe fez os mais rasgados elogios. Sócrates, contudo, numa interpretação psicanalítica, respondeu lhe: "todas as tuas palavras tendiam unicamente a suscitar inimizade entre mim e Agatão; crês que devo amar-te a ti e a ninguém mais; e que Agatão só deve ser amado por ti, e por mais ninguém.

Nenhum de nós, porém, deixou de notar tua intenção".

Concluindo, uma citação da Direção da Cura:

"Se o amor é dar o que não se tem, é bem verdade que o sujeito pode esperar que se lho dê, já que o psicanalista não tem nada mais a lhe dar. Mas, mesmo este nada, ele não lho dá, e é melhor assim: é por isto que, este nada, paga se a ele, e generosamente, de preferência, para mostrar que, se não fosse assim, isto não seria caro".

Prof. Geraldino Alves Ferreira Netto

É Escritor, Psicólogo, Psicanalista Professor da PUC

 

BIBLIOGRAFIA

CHEMAMA, R. Dictionnaire de Psychanalyse. Références Larousse.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, E.S.B., vol. VII, Imago.

FREUD, S. Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor, E.S,B., vol. XI, Imago.

FREUD, S. Sobre o Narcisismo: uma introdução. E,S.B., vol. XIV, Imago.

FREUD, S. Além do Princípio de Prazer, E,S.B. vol. XVIII, Imago.

LACAN, J. Écrits, La direction de la cure. Ed. du Seuil. LACAN, J. Seminário VIII: A Transferência, Jorge Zahar Ed.

LACAN, J. Seminário XI: Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, Zahar Ed. LACAN, J. Seminário XX: Mais, ainda, Zahar Ed.

PLATÃO, Diálogos, Edições de Outro e Ed. Tecnoprint.

 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um Deus que Sorri por Rubens Alves

 

Um Deus que Sorri!

 

Rubem Alves é Psicanalista,

Escritor e Professor Emérito da Unicamp

 

Eu acredito em Deus!

Mas não sei se o Deus em que eu acredito, é o mesmo Deus em que acredita

 

o balconista, a professora, o porteiro, o bispo, o pastor... 

 

O Deus em que acredito não foi globalizado.

O Deus com quem converso não é uma pessoa, não é pai de ninguém.

É uma idéia, uma energia, uma eminência.

 

Não tem rosto, portanto não tem barba.


Não caminha, portanto não carrega um cajado.

Não está cansado, portanto não está sempre no trono.

O Deus que me acompanha vai muito além do que me mostra a Bíblia.

Jamais se deixaria resumir por dez mandamentos, algumas parábolas

e um pensamento que não se renova.

O meu Deus é tão superior quanto o Deus dos outros, mas sua superioridade

 

está na compreensão das diferenças, na aceitação das fraquezas e no estímulo à felicidade.

 

O Deus em que acredito me ensina a guerrear conforme as armas que tenho e detecta em mim a honestidade dos atos.
Não distribui culpas a granel: as minhas são umas, as do vizinho são outras.

Nossa penitência é a reflexão.


Para o Deus em que acredito só vale o que se está sentindo.

O Deus em que acredito não condena o prazer.

 

O Deus em que acredito não me abandona, mas me exige mais do que uma flexão de joelhos e uma doação aos pobres: cobra caro pelos meus erros e não aceita promessas performáticas, como carregar uma cruz gigante nos ombros.

A cruz pesa onde tem que pesar: dentro.


É onde tudo acontece e este é o Deus que me acompanha: Um Deus simples.

Deus que é Deus não precisa ser difícil e distante, sabe tudo e vê tudo.

Meu Deus é discreto e otimista.


Não se esconde, ao contrário, aparece principalmente nas horas boas para incentivar, para me fazer sentir o quanto vale um pequeno momento grandioso: de um abraço numa amizade, uma música na hora certa, um silêncio.


O Deus que eu acredito também não inventou o pecado, ou a segregação de credo.

E como ele me deu o Livre-Arbítrio, sou eu apenas que respondo e responderei pelos meus atos.

***

 

 

 

Estou aqui

 

                                                                                                                   

 Estou Aqui

 

Então eu estou aqui e você também

Me permite ser o seu espelho esta noite

E cantar em mim o teu encanto

Como quem sabe no fundo

Que não há distâncias neste mundo

 

Pois somos uma só alma...

Me permite ser esta noite

A voz que te canta e te encanta de si

Que te faz sentir-se e parar

 

Como quem volta para casa e resolve se amar.

Somos livres e não possuímos as pessoas...

Temos apenas o amor por elas e nada mais...

E é preciso ter coragem para ser o que somos...

Sustentar uma chama no corpo

sem deixar a luz se apagar!

 

É preciso recomeçar no caminho que vai para dentro

vencendo o medo imaginado

Assegurar-se do inesperado

Confiando no invisível

Desprezando o perecível na busca de si mesmo

Ser o capitão da nau no mais terrível vendaval...

 

Na conquista de um novo mundo mergulhar bem fundo

para encontrar nosso ser real!

E rir, pois tudo é brincadeira...

e que cada drama é só nosso modo de ver.

A vida só está nos mostrando aquilo que estamos

criando com o nosso poder de crer.

 

 

Luiz Antonio A. Gasparetto

 

 

"O Avarento guarda o seu Tesouro como se fosse seu; Mas teme Servir-se dele como se na Realidade pertencesse a Outrém." (Bion)

 

 

 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Ganhei Coragem

Ganhei Coragem

Rubem Alves

É Psicanalista, Escritor

Professor Emérito da Unicamp-SP

 “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:  “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei:  “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo. Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio;o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre.” Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

 

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola  com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

 

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta,  se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.


Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

 

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares.  Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,  eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos  e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção.”,

Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

 

sexta-feira, 9 de março de 2012

15 Dicas Práticas para Viver Segundo a Regra de Ouro

 “15 Dicas  práticas

Para Viver segundo a Regra de Ouro

Não há maior simplicidade do que a Regra de Ouro: tratar os outros como gostaria de ser tratado. Também conhecida como a ética da reciprocidade, este código ético afirma que todos temos o direito de ser tratados de forma justa, mas também temos a responsabilidade de assegurar a justiça para os outros. Fazer um esforço para viver segundo a Regra de Ouro pode trazer-lhe tantos benefícios que depressa se tornará num estilo de vida. Para além disso, pode mudar a vida de quem o rodeia, inclusive a sua, que ganhará uma forte lufada de felicidade pessoal. Estas 15 dicas são formas simples para cada um de nós tornarmos o mundo num lugar melhor.

  1. Pratique empatia.

Crie o hábito de se colocar no lugar de outra pessoa. De qualquer pessoa – um familiar, amigo, colega de trabalho ou até um estranho. Tente realmente perceber o que é ser outra pessoa, o que essa pessoa está a passar e porque motivo fazem o que fazem.  

  1. Pratique compaixão.

Depois de compreender as outras pessoas e perceber aquilo que sentem e vivem, aprenda o que é querer terminar com o seu sofrimento. E, logo que seja possível, faça o que puder (pode até ser o mais pequeno dos gestos) para aliviar esse sofrimento.

  1. Como gostaria de ser tratado?

Na sua essência, a Regra de Ouro não significa que deve tratar alguém exatamente da mesma forma como gostaria de ser tratado, mas sim que deve tentar imaginar a forma como essa pessoa gostaria de ser tratado e agir de acordo com esse desejo. Ao colocar-se no lugar de outro, vá mais longe e procure sentir o que precisam; questione-se acerca da forma como você gostaria de ser tratada se fosse essa pessoa.

  1. Seja simpático.

Quando em dúvida, seja sempre simpático para com os outros. Quem não gosta de se sentir bem-vindo e desejado? Existem, naturalmente, momentos em que a outra pessoa pode não querer a sua simpatia e você deve estar igualmente sensível a esses desejos. Para além disso, há que saber distinguir entre ser simpático e ser intrometido.

  1. Seja prestável.

 Este poda muito bem ser uma das grandes fraquezas da sociedade do século XXI. É claro que existem muitas pessoas que se desdobram para serem prestáveis, mas em geral, as pessoas preferem manter-se nas suas próprias vidas e “ignorar” um pouco as dificuldades dos outros. Não feche os olhos às necessidades e problemas dos seres humanos, procure ajudar, mesmo antes que alguém lhe peça.

  1. Seja educado no trânsito.

 Outra fraqueza da sociedade moderna. As pessoas podem ser extremamente egoístas quando estão a conduzir: não queremos que ninguém se meta à nossa frente, ultrapassamos desenfreadamente tudo e todos, buzinamos, gesticulamos e verbalizamos palavras que não devemos. Terá alguma coisa a ver com o facto de estarmos isolados num veículo? É que normalmente não somos tão rudes quando nos encontramos frente a frente com outros. Conduza mais devagar e tente ser mais bem-educado na estrada.

  1. Ouça as outras pessoas.

 Infelizmente, mais uma fraqueza: todos queremos falar, mas poucos querem ouvir… no entanto, queremos que os outros nos escutem atentamente. Faça questão de ouvir o que as pessoas têm para dizer, em vez de se limitar a esperar pela sua vez de falar. Esta atitude também o irá ajudar a compreender melhor os outros seres humanos.

  1. Ultrapasse os preconceitos.

Todos temos os nossos preconceitos pessoais, sejam eles baseados na cor da pele, beleza, altura, idade, ideologia política, religiosa ou sexual… faz parte da natureza humana. No entanto, também deve fazer parte da natureza humana um esforço para compreender e respeitar a individualidade de cada pessoa, afinal é isso que as faz quem são. Apesar das diferenças que nos separam, procure aquilo que possam ter em comum.

  1. Deixe as críticas de lado.

Todos temos uma veia de crítico, seja para criticar alguém que conhecemos, que acabamos de conhecer ou que nunca vimos pessoalmente na vida, só na televisão ou em revistas. É importante pensar no reverso da moeda: gostaria de ser criticado se estivesse no lugar dessa pessoa? A resposta a essa pergunta é quase sempre “não”. Restrinja essas críticas e aprenda a interagir com os outros sempre de forma positiva. 

  1. Evite controlar os outros.

Ninguém gosta de ser controlado, mas há quem insista em fazê-lo. Não o faça! É um hábito difícil de eliminar mas, mais uma vez, compreenderá melhor os seus efeitos negativos nos outros ao colocar-se no lugar de quem tenta controlar. Também quer liberdade, autonomia e confiança, não quer? Então dê isso mesmo a todas as pessoas com quem contacta.

  1. Liberte a criança que há em si.

 A vontade de controlar e criticar torna-se especialmente forte quando se lida com crianças. Claro que existem situações em que isso é absolutamente necessário (mais a vontade de controlar, para evitar que a criança se magoe, por exemplo), mas também existem limites. Lembre-se o que era ser uma criança controlada e criticada por adultos? Não vai querer infligir essa sensação noutras, até porque devemos deixar as crianças serem crianças.

  1. Lembretes diários.

A correria do dia-a-dia pode deixar a Regra de Ouro esquecida num canto, por isso, faça questão de se lembrar diariamente através de um e-mail enviado para si próprio, um lembrete no telemóvel ou na agenda, um mantra no seu ambiente de trabalho ou afixado na porta do frigorífico.

  1. Seja superior a todas as formas de retaliação.

O ser humano tem uma enorme tendência para “vingar-se” quando é maltratado. Embora seja natural, devemos resistir a essas vontades. A Regra de Ouro nada tem a ver com a retaliação, mas sim tratar bem os outros, independentemente da forma como essas pessoas o tratam a si. Isto não quer dizer que tem de se sujeitar a ser um tapete que todos podem calcar – há que fazer ouvir os seus direitos, mas de uma forma agradável e sem vinganças… mesmo se alguém o maltratou primeiro. Chama-se “dar a outra face”.

  1. Personifique a mudança.

Já Gandhi dizia que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo e embora essas sábias palavras são mais depressa aplicadas a grandes conceitos como a violência, pobreza e racismo, servem perfeitamente para o nosso quotidiano. Quer que as outras pessoas o tratem com delicadeza e compaixão? Então dê o exemplo. Se o mundo não mudar, pelo menos você mudou.

  1. Como é que se sente?

 Faça questão de observar a forma como as suas acções afectam os outros, principalmente quando começar a tratá-los com simpatia, compaixão, respeito, confiança e amor. Mas observe também as mudanças que ocorrem consigo. Sente-se uma pessoa melhor? Mais feliz? Mais segura? Com mais vontade de confiar nos outros? Estas mudanças dão-se de forma devagar, mas sustentada… e é maravilhoso senti-las.


Lembre
-se sempre:

“Você atrai tudo o que agradece”.



Você atrai tudo o que agradece