quinta-feira, 31 de julho de 2014

VOCÊ ESTÁ DOENTE DE QUE...?



VOCÊ E ESTÁ DOENTE DE QUE?

DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS

UM NOVO OLHAR PARA O MEDO E RAIVA DA VIDA DO SUJEITO.
No Processo Humano as doenças rotuladas como "psicossomáticas" resultam da fuga de psicose transitória. 

Os pacientes pelo temor da vida psíquica convertem as manifestações emocionais reprimidas em lesões do soma, de cujos sintomas se queixam.

Durante tratamento analítico a psicose vivida entre analisando e analista permite desaparecimento dos sintomas e abrandamento das lesões estruturais.
Advertência na Investigação do Doente Psicossomático

Em princípio não existiria relação de objeto nos transtornos psicossomáticos pelo bloqueio existente no inconsciente que impede a filtragem de seus produtos. Estabelece-se uma regressão como se estendesse até o corpo, dando ilusão de comunicação direta com o inconsciente, o que é inteiramente falso.Sabemos que os sintomas somáticos traduzem irregularidades no funcionamento mental, todavia não há contato com o inconsciente, de tal modo que a transferência supostamente proporcionada pelo paciente é uma armadilha para o analista, que ouve palavras de simpatia, amor, aversão, atração, ódio, rejeição, etc. mas nada de conteúdo inconsciente.
Explica-se tal ocorrência porque o paciente tem falhas na elaboração psíquica.
Os sintomas somáticos, a semelhança de um acting traduzem essa lacuna do psiquismo.
Dimensão do Funcionamento Mental.

Nesta altura, para entendimento dos fenômenos psicossomáticos cabem noções do funcionamento mental, sobretudo quando se considera a prática clínica do processo analítico em duas visões: de globalização e de diferenciação.

No exercício da analise sob visão de globalização a pratica se realiza em função da relação de objeto com mecanismos de transferência e contratransferência, diminuindo-se o papel da pulsão. Trata-se de comunicação onde o paciente é tomado como um todo e traduzida em termos de ansiedade, angústia, fantasias e mecanismos de defesa, perdendo-se a dimensão do funcionamento mental pelo não aproveitamento de pormenores dos mecanismos psíquicos. São a favor dessa pratica da relação de objeto não só o seu introdutor Fairbarn, Widlocher e Melanie Klein.

No exercício da análise sob visão de diferenciação a prática inclui o conceito de pulsão dispondo-se o afeto como seu componente de descarga podendo estar ligado a uma representação como no exemplo clássico descrito por Joan Riviérie: Um bebê ficava muito ansioso quando a mãe entrava no quarto. Após três anos, a criança pode falar sobre esse episódio, quando encontrou, no armário de sua mãe, um sapato velho, com sola solta dando impressão que a genitora poderia comê-lo.
Tem-se conceito de energia na descrição desse episodio, bem como conceito de representação e de palavra.

Freud pode reconhecer a importância de uma só palavra, fazer analise em torno dela e concluir que em certo momento o inconsciente sofre modificações por um só vocábulo.

Reconhece-se o valor da comunicação pela linguagem em função dos inúmeros enunciados que uma só palavra encerra. Leva-se em conta de forma rigorosa o significado das palavras, pois a cadeia da linguagem nos dá acesso ao inconsciente. A interpretação segue a trilha dos vocábulos que a associação livre fornece.

A favor do conceito de pulsão e conseqüentemente ligados aos conceitos de energia e diferenciação se alinham Greenl Laplanche e Anzieu.
Procura-se na prática clinica acoplar a teoria da relação de objeto com visão globalizada com a teoria da diferenciação mental.
Representação

Poder-se-ia dizer que alguma excitação pode partir da esfera somática e ir de encontro a barreira somatopsíquica e a seguir penetrar no psiquismo, onde vai encontrar excitação, que chegam derivadas da pulsão.
Seria descrito o conceito limite entre o somático e o psíquico quando aparece a pulsão, que surge como representante psíquico das excitações que nascem no interior do corpo e chegam ao psíquico.
A pulsão surge como medida de exigência de trabalho imposta ao psíquico devido seu vinculo com o corporal.

Tudo se passa como mensagem de noticias pouco alvissareiras do corpo, pedindo ajuda ao se ouvir uma paciente exclamando: "se o senhor tem méritos, pelo que eu li em revista cientifica, posso aceitar ter em mim uma perturbação psicossomática".
A paciente parece dizer que algo não vai bem com ela. Seria o primeiro sinal psíquico da pulsão manifestada sob a forma de tensão, mas sem representação. E, todavia, mensagem de quem espera uma resposta em função de sofrimento.

O que vai ocorrer?
O que vai suceder com a tensão da pulsão?
Procurar no psiquismo um objeto que outrora trouxe alívio?
Começamos tirando do latim a palavra representatione na procura de algo que se reproduz apreendido pelo pensamento, pela imaginação ou pelos sentidos.
Assim o representante psíquico ao aliar-se com a representação da coisa vai constituir o representante-representação investido de grande energia econômica, dinâmica e tópica.
Seria este o caráter do desejo, o caráter da compulsão, o caráter da manifestação inconsciente contra a qual a vontade nada pode fazer.
Mas, o representante-representação estando ainda insatisfeito tenta passar para a consciência mas encontra a segunda barreira somatopsíquica ou o limite inferior do inconsciente.

O representante-representação, face às relações com a repressão, é reprimido e obrigado a trabalhar porque uma representação não permanece no inconsciente como estava no inicio. Há grande dinamismo, pois se transforma, disfarça-se, condensa-se, desloca-se por ser o único modo de ter êxito para atravessar a fronteira.
Toda representação em estado bruto não passa pela barreira. Será reprimida. Ultrapassará somente com nome falso.

Na passagem ao sistema consciente devemos lidar não apenas com representações de coisas mas com a relação:
representação de palavras
representação de coisa + afeto
quando se dá a passagem para a linguagem do sistema primário para secundário.

A representação da coisa inconsciente é carregada de onda energética e tem relação com a representação da coisa consciente, que traz consigo energia, portanto dispondo de potencial dinâmico e potencial de transferência. Existiria, assim representação de transferência e transferência de representação.
Todos esses potenciais se encontram na linguagem. O analista procura servir-se de todas as ambigüidades possíveis, pois através da linguagem encontra o único caminho do inconsciente.

O trabalho analítico, rico em analise de transferência, se faz com o confronto da representação da coisa com a coisa inconsciente.

A representação da coisa é o único elemento comum entre o sistema inconsciente e o sistema consciente. Nesse espaço, nessa diferença encontramos o acesso aos conflitos inconscientes.
Suas Lacunas e Necessidade de Ajuda
O doente psicossomático não tendo emoções foge do mundo interno e faz , adaptações em posição distante da realidade externa.
Ele ilude e se ilude, em relação ao principio da realidade. Não suporta frustrações porque não agüenta a dor mental e foge da experiência emocional porque tem medo da vida e chora pelo corpo (3).
Ele não percebe, não sente, não ouve e não fala porque não usa a sua mente.
Tudo é percebido, sentido, ouvido e falado pelo analista, utilizado como instrutor, que usa sua mente.
O paciente perdeu tudo, só tem o corpo. Necessita de ajuda pois encontra- se sem palavras para as emoções e sem símbolos para os estados somáticos, Montagna (5).
Agora, quer recuperar o que o corpo tomou conta, a representação, mas não sabe recuperar sozinho.
O analista serve de instrumento. Cabe a ele entrar em sintonia com o paciente e, ao mesmo tempo, fazer sentir como ter postura, expressão facial, amor, ódio, fantasias, etc.
O paciente vai sentir o que o analista sente, onde todos, com experiência reafirmam essa assertiva Pally (6).

O analista, quando em sintonia, organiza o paciente anatomicamente, ao abrir espaço para o psíquico, onde só havia corpo. Vai substituir a mãe que falhou na função de pensar e usou o paciente como extensão de si própria, com características narcisicas MC Dougall (4).
O analista vai recriar dentro do paciente o que está morto dentro dele, organizando sua memória, abrindo espaço para novas representações. O pai estaria possivelmente, desqualificado e ausente em seu mundo de representações.
O paciente e o analista estariam, guardadas as devidas proporções, a disposição do "reverie", deficiente ou incapaz de atenção, memória, julgamento, imagens capazes de propiciar associações, etc.

Estratégia dos Distúrbios Psicossomáticos

O doente psicossomático faz adaptações em posição distante da realidade externa, sem contato emocional e fugindo do mundo interno. Ele ilude o desenvolvimento do principio da realidade, não tolera a dor mental e foge da experiência emocional, porque não sabe falar. O que ele percebe, sente ouve e fala não é dele. Tudo é percebido, sentido, ouvido e falado pelo analista. Não usa sua mente, mas a do analista. Tudo ele perdeu e agora quer recuperar o que o somático tomou conta, a criação da representação.

O analista serve de instrumento. Ele vai sentir, fantasiar, ter afetos, etc. para o paciente. Tudo vai sendo despertado dentro do paciente para que este possa perceber dentro de si e apreender a realidade.

A chave dos distúrbios psicossomáticos deve ser procurada no funcionamento pré-natal, que deixa vestígios na vida uterina, mas obscurecidas pela cisão do nascimento.
Esses vestígios pré-natais parecem derivados de uma herança indesejável, porque constituem parte das forças hostis ao crescimento mental.
Seria de se supor que a sensibilidade do feto não agüentaria certas tarefas excessivas por serem ainda muito precoces.

O bebê intra-uterino, muito sensível ao desprazer, tenta ficar livre da “proto-idéias", que possibilitam, no futuro, pôr-se em contato com os “fatos" da experiência da realidade.
Captar, em análise, os elementos pré-natais dependeria da capacidade de percepção, cujo alcance é muito rudimentar.

Os estados mentais pré-natais e as proto-emoções podem romper barreiras (cisões) e produzir manifestações psicossomáticas.  (Winnicoot)

As forças hostis ao crescimento mental e ao conhecimento podem propiciar irrupções psicossomáticas, uma vez que a mente é aquisição tardia e pouco evoluída em relação a herança animal. Talvez, por esse motivo, as manifestações psicossomáticas compartilham com o funcionamento psicótico, como o "modelo" da mente constituída por personagens pré e pós-natais.

Sofrimento Proporcionando Simbolização

A mente enfrentando o sofrimento ganha o desenvolvimento simbólico. A oposição entre amor, ódio, conhecimento e o pensar, acerca da experiência emocional, permite a construção de símbolos. Tal acontecimento decorre da possibilidade de tolerar a depressão da posição depressiva.

Os símbolos, despojados do significado e da emoção, criam a desmentalização e a mentira.
O encontro entre a mente do bebê e a mente da mãe com capacidade de devaneio propicia a operação mental que é o pensamento. A mentira é vinculo que destrói a mente de ambas.
Os signos indicam objetos, coisas, etc. e também os representa.

A simbolização é uma capacidade inata que só pode se desenvolver num vinculo humano. As progressivas qualidades simbólicas partem do corpo com dados sensoriais em estado bruto e carente de significado. Mas, na seqüência, com a percepção da experiência emocional é possível alcançar os ideogramas oníricos, equiparações simbólicas como o pré-simbolo, chegando aos pensamentos ligados em narrativas e aos novos pensamentos.

Essa transformação simbólica é necessidade básica como atividade primaria.

O paciente e o analista, diz Bucci (2) põem na sua relação núcleos afetivos que são
compartilhados na experiência bi-pessoal, que se renova continuamente, através de códigos de processamentos sub-simbolico, simbólico não verbal e simbólico verbal como levando do corpo ao psíquico.

A satisfação de expressar idéias, e o prazer de simbolizar constituem capacidades inatas da espécie humana.

Em uma relação parasitaria, a mente primitiva despoja a mente evoluída das conquistas simbólicas.O processo de simbolização tem duplo sentido: por ser observado em uma direção tornando-se cada vez mais complexo em sua evolução e em outro sentido caminhando para degradação, deteriorando-se.

É sabido que a onipotência, a violência e a mentira exacerbam o ódio à verdade da mente. O desenvolvimento simbólico pode ser usado a serviço de conseguir mentiras e enganar as pessoas. Têm-se exemplos nacionais, o execrável, mestre em criticas destrutivas, desejando sempre o mal a alguém e a malvadeza, impiedosa provocando intrigas, confusão e revolta.
A passagem de alterações do corpo para mente, tal como o não verbal para expressão simbólica retira o peso e liberta o fenômeno do processo humano, antes aderido ao soma.
O alivio do sofrimento seria desligar, do corpo alterado, o sintoma, e, conectá-lo ao símbolo não verbal e depois o símbolo verbal, em última instância tirando do soma e conduzindo ao psíquico.

Poder-se-ia supor, dentre múltiplos códigos de pensamentos, retirar o signo da concretude somática, através da energia das emoções, para a abstração simbólica onde há significação.
Considerações sobre Experiência Clínica.

As experiências com o corpo, difíceis de serem expressas por palavras, seriam como palpá-lo, toca, cheirá-lo, talvez como elementos sub-simbólicos. (Lacan)

Paciente de 35 anos, casada, com um filho, engenheira, portadora de gastroenterocolopatia funcional, chega ao consultório, e andando, antes de acomodar-se, diz "sua casa é agradável e gostosa". Logo, a seguir, entra em narrativa, descrevendo episodio do dia anterior, quando muito ansiosa, esperava a chegada, com muito atraso, do marido, para jantar. "o senhor não pode supor, quanta coisa eu disse, dentro da minha cabeça, sobre essa espera. Todavia, antes dele chegar, tive diarréia com três a quatro evacuações pastosas, precedidas de cólicas abdominais terríveis. Na hora em que meu marido chegou, não disse uma palavra.
Em seguida, olha-me dizendo: "ele chegou e tudo foi aqui, e, aponta o abdômen todo. Olha, foi aqui mesmo e nada mais".

A- mostra-me que perdeu tudo, até o bom de sua casa. Possui somente o corpo, onde o ruim se localiza.
Sua indicação parece mostrar desejo de transformação da opção significa para sub-símbolos, ainda em concretude.

Criação de Espaço Mental Rara Memorizar

Em outra oportunidade, consegue lembrar-se de palavras proferidas em sessão e que diziam respeito à pessoa da paciente, atendida por mim, quando de um impedimento dela. Por outro lado, acha curioso, em certo dia, ter-se esquecido de levar seu filho ao escritório do marido, pois ambos iriam à uma reunião.

Como analista estaria, como nos conta Montagna (5), em disponibilidade para recriar em sua mente alguma área obtida por afeto, para memorizar, ficando surpresa por sentir em sua mente algo diferente do que acontece com o aparelho digestivo.

Organização mental

Como moldura dos episódios clínicos dessa paciente, destaque-se a organização em sua mente, quando percepção, visão e audição vinculadas abrem caminho significativo: "ontem, me foi possível, quando daqui sai, ter percebido, olhando para o senhor e ouvindo suas palavras, a chegada de uma idéia jamais ocorrida em minha vida: eu também existo como meu marido e meu filho".

No dia seguinte, ao entrar, caminhando para sentar-se, ainda de pé, disse: "como está muito frio, creio, para vir para cá, devo-me cobrir com uma manta".
Depois de acomodada, poucos instantes a seguir, principia a falar: "não sai da minha cabeça aquele episodio, já lhe contei quando eu esperava muito inquieta o chegar, usei o celular e desabafei, mesmo estando longe, falei, falei, falei,... na hora eu não disse. Formidável o celular!!!"

Perguntei-Ihe sobre o receio daquele momento. Responde-me ter medo das palavras, no sentido geral!!.
Manifestei-me dizendo: agora, ao chegar, conta-me que percebendo que existe, pede-me ampara-Ia cobrindo-a com uma manta pelo receio de que eu possa falar e minhas palavras possam machucá-la, neste momento.

Comentários

Propõe, pela sua grande ansiedade, que falemos pelo celular, seu instrumento de proteção, que pode usá-lo, desligando-se de mim, quando não lhe agrado ao falar.
A paciente parece não poder admitir que depende de um objeto externo. O celular é instrumento, em que ela produz e consome, de tudo que depende em sua vida, por essa razão é... formidável.
O processo psicossomático é dominado por consequências de fatos físicos. Ficam distantes as seqüências dos episódios mentais, porque nenhum é conseqüência de outro.
Pode-se partir do soma para o psiquismo, como da conseqüência para a seqüência.
A paciente esta muito distante para superar a tripeça: frustrações, depressão e culpa.

A expectativa de evolução favorável da paciente consiste na sua capacidade de suportar a dor da frustração, de ouvir o que não deseja.

Sua capacidade de verbalizar somente vai aparecer, o que queremos comprovar, somente depois de passar por depressão e reconhecer-se culpada pelos acontecimentos específicos de sua vida.

A ligação entre paciente e analista não é mensurável. Há algo profundo na comunicação. Às vezes, falamos sem saber o que falamos. Talvez, a conotação mais fácil seria a procura de palavras simples indicadoras de dois objetos relacionados.
A interpretação reside na analise das palavras, sua trajetória e no jogo bi-pessoal analista-analisando como caminho para o inconsciente.

Quem é o sujeito?

Na exposição desta experiência clinica cabe dizer: "você e eu e não você- isto (abdômen) e eu", numa relação racional entre dois seres humanos, sem um intruso (abdômen)!
O intruso interrompe a percepção dela própria e a minha.
A paciente reside em outro município. A distancia é grande para chegar ao consultório e nunca chega atrasada. Chegar depois do horário marcado talvez não agradasse a ela e nem à mim, com o sinal que estaria errando.
Mas quem é o sujeito? Ela, o abdômen ou eu?

Abre-se novo espaço em sua mente

Em nova sessão, introduz-se na sala e ainda de pé, fala: "tive muitas saudades de sexta-feira para cá. Não me foi possível vir, pois submeti-me à uma endoscopia. Nesse intervalo de tempo pensei no que estávamos conversando aqui e, ao mesmo tempo, o que acontece entre eu e o meu marido. Eu quando vou responder, procuro antes escolher as palavras para falar o que é certo. Tenho constantemente essa preocupação porque fico espremida dentro de minha cabeça para selecionar aquilo que é correto".

Respondo-lhe, que me pede aumentar sua capacidade mental, abrindo espaço, para receber- e não evacuar pelos intestinos -palavras por mim pronunciadas, diferentes das suas.
Ao que, a paciente logo comunica: "se o senhor abre espaço na minha mente eu não preciso mais ficar espremida, angustiada!!!"
Então, poderia me ouvir, sem medo?
Diz a paciente: '\enquanto o senhor falava de novo espaço -eu senti qualquer coisa na barriga, mas logo passou..."

A Violência de nossos dias

Acho terrível a violência nos dias de hoje. Não poucas vezes, quando saio de carro, de repente paro em um semáforo. Olho para um lado e vejo alguém - um sujeito, em outro carro, observando-me como se fosse me assaltar!
Subitamente, o sinal verde permite me livrar desse susto! Penso ser um assalto de brincadeira. Eu entrego o meu relógio e pago minhas culpas.
Esse seu relato está ligado a nossa relação aqui? Eu contei por contar uma brincadeira como outra qualquer...
Parece, em sua h isto ria, pagar para livrar-se de alguma coisa sua? Não sei bem o que seja...
Receia que seja eu o sujeito que assalte por atributos que tem?
Bem, bem, bem. Temo uma coisa dentro de mim e não sei o que é. Talvez, um receio que sempre tive, desde moça, de provocar atenção e ser atraída por muitos rapazes...
Um desejo seu posto em mim?
Talvez... não sei.

Uso de antidepressivos durante as férias

Um dia antes de entrar em férias esteve em consulta com gastroenterologista, que lhe receitou antidepressivo, podendo tomar quando necessário.
A paciente relata que decidiu tomar desde o primeiro dia de férias. Começou com meio comprimido tendo diarréia durante cerca de uma semana. Cessada a diarréia, passou a tomar um comprimido ao dia, na suposição de que poderia encurtar o processo analítico.
Chega no primeiro dia, após as férias, cerca de 30 minutos antes, dizendo que vem fazendo sobre si mesmo um processo de pressão para abreviar o tratamento comigo, uma vez que está muito tensa sobrecarregada de tarefas muito numerosas em seu trabalho, queixando-se da distancia de onde mora e dificuldades de transito que enfrenta e que isso não dá para agüentar!

A- O que pensa sobre a coincidência de tomar antidepressivo a partir do primeiro dia de férias?
P- Penso que o antidepressivo apressa o processo do tratamento!
A- Sua diarréia coincide com alguma coisa?
P- Não sei. Não tenho idéia!
A- Se o antidepressivo melhora o aparelho digestivo não acha estranho ter diarréia?
P- Não sei nada. Apenas tensa, confusa, ansiosa e preocupada de que não dou conta do trabalho exatamente, agora, que dispensaram vários funcionários e tudo cai em cima de mim!*

Descobre a hostilidade de um homem

Na sessão seguinte, encontra explicações em um homem agressivo. 

Desde criança, minha mãe fazia criticas, porque eu punha tudo para fora, com muita raiva e ódio! Me transformou em outra mulher que devia ouvir e não rechaçar as pessoas intempestivamente. Quando comecei a trabalhar como advogada, tinha colega sócia, que tolerava desaforos por uma ou duas horas de algum cliente muito perturbado. Eu seguia no mesmo tom. 

Desfiz a sociedade. 

Passei, em concurso, para Oficial de Justiça. Nessa função, encontrei hoje, um homem muito agressivo, quando lhe fiz entrega de uma intimação. Soltou impropérios que me abalaram incontinente aqui na minha barriga. Entendi na hora que devo ser diferente e não aquela que tolera tudo.

A- Não seria eu o homem agressivo que disse algo que não gostou, e que lhe teria feito alguma pressão?
P- Não o senhor falou o que é justo. Pode ter sido duro, mas foi carinhoso. Esse homem não, foi rude, tempestuoso e mau. Senti logo a dor na barriga. Percebi que devo mudar, não devo continuar assim. Agora, parece que estou entendendo.
Suas tarefas

Desde cedo estou preocupada se consigo dar conta do que tenho afazer durante o dia. Fico ansiosa com o volume de processos à despachar, e, se tudo vou fazer no prazo que estipulei! A minha preocupação é desde que acordo até à noite. Estou sempre assim!
Lembro-me quando criança tinha alergia bem aqui na barriga. Depois de desaparecer a alergia veio a coceira no mesmo lugar e é aqui hoje que estou me lembrando de ter cólicas intestinais e diarréia.
A- Fala-me de coisas e do corpo, que me mostra tomando conta de tudo. Parece que nada sente ao estar junto comigo?
P- Eu falo sobre as tarefas Que desenho de manhã até à noite. Sou assim!
* Com essas perguntas, procurei emprestar, sem êxito, meu Ego para elaboração psíquica de suas funções somáticas.

Medo de viver a vida

P-
 O senhor parece um lorde. ..sua observação sobre o uso de antidepressivo me pareceu tê-Io chocado e, ao mesmo tempo, decepcionado com minha evolução até o inicio das férias.
A- O antidepressivo afogou possibilidades de viver sua separação comigo, mas neste momento consegue me ver... mas sem dizer o que sente.
P- Refleti sobre a tolice que fiz, como se eu tivesse me proposto a perder minha identidade com o uso de antidepressivo.
Eu recebi informação por telefone, que meu sobrinho sofrera um acidente e fora hospitalizado. De repente, tive uma sensação estranha dentro de mim, como alguma coisa já experimentada no passado e que não sei o que é! Nada senti no abdômen.
Não tive repercussão alguma no aparelho digestivo. Mas, essa sensação... Incontinenti, tive desejo de ir vê-Io no Hospital.
A- o receio de viver uma emoção foi dissipado ao fazer alguma coisa concreta: ir ao Hospital?
P- Não tinha pensado nisso. Ao chegar ao Hospital vejo o rosto de meu sobrinho: uma metade cheia de escoriações, sangue,olho saltado avermelhado, impressionante, a oub"a metade normal, sem qualquer lesão, lisa, perfeita.
A- Poderia perceber as suas duas metades: uma, a mente que lhe causa muito medo e a outra, o corpo domesticado por suas exigências?
P- Puxa! Que coisa! Olho para o sobrinho vejo seus olhos vermelhos como se fosse chorar. Eu me contenho, faço tudo para não impressioná-lo. Consigo não chorar!
A- Supõe o choro como alguma coisa má?
P- Ele poderia, ao me ver chorando, pensar: "eu enlouqueci!!!"
A- Sentimentos e emoções traduziram loucura! Por essa razão se empenha na separação da mente louca com o corpo supostamente sadio?
P- Começo a entender o meu medo de viver a vida!
A- Sua experiência parece ajuda-Ia a conhecer-se um pouco mais.

Considerações

Não se ajustam as mensagens corpo-mente. O soma não consegue representação simbólica no aparelho mental. O seu corpo parece anulado como fonte vital de informações provocando lacunas no crescimento mental.
Em conseqüência, seu plano de vida, não oferecendo episódios de sensações e emoções, gera crises somáticas.
O imaginado "viver a vida" esconde pulsão de morte como tributo a ser pago pela sua grande capacidade de trabalho.

Sua linguagem pré e paraverbal fornecem dados sobre a cisão mente-corpo.

Quando o corpo não consegue representação simbólica ( episódios do acidente do sobrinho, quando hospitalizado) a paciente é impulsionada a fazer coisa!.
-Perdeu tudo. Só tem o corpo, parecendo ter vida regida por código visceral.Talvez, o medo de viver abriria caminho do soma ao símbolo.
 A analise, em sua evolução, pode proporcionar transformações com o surgimento de mensagens com significados.

É idéia estimulante do crescimento, que pode, segundo Bion, envelhecer rapidamente.


 Resumo

O grande desafio da Medicina Psicossomática, de nossos dias, é descobrir conexões sinápticas que articulem as emoções geradas pelos sistemas neurais, ainda não registradas pela nossa percepção profunda, com as mesmas emoções de nossas constelações psíquicas que utilizamos nos cuidados bi-pessoais ou grupais dos transtornos psicossomáticos.
A grande esperança é transmitir a todas as pessoas capacitadas para esses cuidados não esqueceram que o doente psicossomático tem uma impotência régia : não usa a sua mente e, como tal, foge de toda experiência emocional porque o que percebe, sente, ouve e fala, não pertencem a ele.

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Referências bibliográficas:

1. Bion, W. (2000) Cogitações, edição Francesca Bion. Tradução de E.H.Sandler e P.C.Sandler, Imago Ed, 16 -30.2. Bucci, W (1997) Symptoms and symbols.
A multiple code theory of somatization. psychoanalytic Inquiry, 151- 72.3. Capisano, H. (1978) Afetos na enfermidade psicossomática.
Contribuições psicanalíticas a Medicina Psicossomática. II Encontro Argentino Brasileiro de Medicina Psicossomática. Vol. 1.21 -49.4. MC Dougal, J. (2001)
Teatros do Corpos, Ed, Martins Fontes, S.Paulo.5. Montagna, P (2001) Afeto, somatização, simbolização e a situação analítica.
Ver. Brás. Psicanalítica, Vol. 35(1) : 77 -88.6. Pally, R. (1998) Emotional processing: the mind-body connection. Internat. Joum. Psycho-Anal, 349- 62.  Fonte de Imagens: Sites Internet Aberta




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Por que a Psicanálise, Hoje ?

                         Por que a Psicanálise, hoje?

É difícil acreditar, mas a Psicanálise já foi considerada perigosa, e em primeiro lugar por aqueles que a praticavam nos seus inícios.

Ao avistar a Estátua da Liberdade do navio que os levava aos Estados Unidos, Freud teria sussurrado ao ouvido de Jung: “eles não sabem que nós lhe trazemos a peste.”
Esta história foi contada por Jacques Lacan, que a teria ouvido do próprio Jung.

Mesmo que a tomemos cum grano salis, já que não existe qualquer outra menção a ela, a frase faz sentido no contexto da época: a correspondência entre o fundador e seus discípulos, naqueles anos heróicos, formiga de referências a “inocular” as idéias freudianas na Psiquiatria e no público em geral, como se fossem um vírus capaz de abalar as colunas da sociedade.
São metáforas, por certo, mas que deixam entrever o potencial subversivo daquelas doutrinas.

        A direita conservadora também considerou a Psicanálise perigosa, chegando os nazistas a bani-la sob o argumento de que era mais uma das artimanhas judaicas para envenenar a civilização ariana.

A Igreja condenou-a por sua análise da religião; os comunistas, por trazer a marca do individualismo burguês – razão pela qual foi proscrita da União Soviética e dos seus satélites.

        O que chocava tanto nas idéias de Freud?

Na época, a tese da sexualidade infantil, e de modo geral a importância concedida aos fatores sexuais na determinação de comportamentos aparentemente muito distantes de Eros.

Hoje em dia, terminado o século XX – que já foi chamado de “o século de Freud”, pela influência que suas idéias tiveram na visão do homem ocidental acerca de si mesmo, na literatura, no cinema, nas artes, nos costumes, na educação, na Psicologia – hoje em dia já não parece chocar ninguém a existência do inconsciente ou do complexo de Édipo, assim como o peso das fantasias eróticas na vida cotidiana de todos nós.

        De “perigosa”, assim, a Psicanálise dificilmente seria acusada hoje.

É mais comum vê-la tachada de “irrelevante”, “ultrapassada” ou “elitista”: as críticas provêm com freqüência da Psiquiatria e da Psicologia dita cognitiva, e se referem à suposta ineficácia do tratamento analítico para aliviar o sofrimento psíquico, se confrontado à terapia com drogas ou a métodos mais diretivos.
        Esta afirmação, trombeteada com monótona freqüência, é quase sempre acompanhada por uma outra: “Freud está morto”.
Mas por que anunciar isso tantas vezes, e com tamanha veemência?

É inevitável a suspeita de que tais declarações sirvam de fachada a algo exatamente oposto – à percepção, vaga e obscura, da Psicanálise como inquietante.

E o que haveria de inquietante na Psicanálise?

Não pode ser sua suposta ineficácia, seu caráter “pouco científico” ou a “arbitrariedade” do seu método de interpretação: nada disso (que não passa de caricatura) suscitaria medo - quando muito, provocaria desprezo. O que inquieta na disciplina freudiana é sua exigência ética

o sujeito deve responsabilizar-se por sua vida, não no sentido de ser acusado pelos sintomas que apresenta – o extremo deste absurdo é a idéia de que alguém “estressado” pode provocar em si mesmo a eclosão de um câncer – mas no sentido de assumir a parte que lhe cabe nos problemas e fracassos da sua existência, como primeiro passo para os superar - na medida em que isso for possível.

        Vivemos numa sociedade em que a autonomia, valor máximo do Iluminismo que plasmou a modernidade, é entendida como liberdade para consumir e para perseguir o prazer a qualquer custo.

Pouco importa o sentido das nossas experiências: é a sua intensidade que, nos é dito incessantemente, deveríamos buscar, transformando cada ato e cada instante numa fonte de excitação, fazendo de nossas vidas um constante borbulhar de sensações sem continuidade.

Viveríamos, nos dizem, numa cultura pós-moderna, na qual impera a fragmentação e a condição humana se reduziu a migalhas promovidas à categoria de espetáculo; só nos restaria acomodar-nos a isso, e renunciar àquilo que a modernidade promoveu como ideal da humanitas: a consciência de si e a responsabilidade pelo que somos e fazemos.


        A Psicanálise está longe de endeusar a consciência per se: ela nos diz que somos movidos a paixões, que o ego não é senhor em sua própria casa, que muito do que somos nos escapa, talvez o essencial. É por isto que somos levados a atribuir a outrem a culpa por nossas infelicidades – aos pais, ao cônjuge, ao consenso de Washington.

 A experiência psicanalítica vai por outro caminho, que pode parecer paradoxal: ela convida, por meio do dispositivo mais simples que se possa imaginar – falar sobre si mesmo para outra pessoa – a um mergulho nos desvãos de nossa alma, para tentar conhecer algo daquilo que nos determina à nossa revelia. O extraordinário é que esta experiência pode levar a uma profunda transformação da pessoa, não porque exclui, mas, ao contrário, porque inclui no raio da sua consciência alguns destes fatores.

Não é Freud quem “explica”, nem de resto o psicanalista: é o próprio paciente quem se descobre, ouvindo-se falar, deixando-se levar pelo seu discurso, elaborando seus insights e o que o analista pode lhe comunicar por meio das interpretações.

        Não é raro, nas entrevistas preliminares, que o candidato a analisando expresse o temor de ficar “dependente” da análise, como se pode ficar dependente do álcool ou da cocaína.
Mas na verdade o que assusta é outra coisa: a meu ver, a perspectiva de ter que abandonar os padrões de dependência inculcados na infância, as servidões que resultam do recalque, das defesas mutilantes e do medo de sentir angústia.

A liberdade que nasce do auto-conhecimento – aparentemente desejada por quem procura uma análise, a crer no que é dito na superfície do discurso – é que ameaça: pois implica em dizer a verdade a si mesmo, em ver dissipadas muitas e queridas ilusões, que levamos tanto tempo construindo, e das quais somos – aí sim, cabe o termo – dependentes.

        A viagem psicanalítica ao fundo de si mesmo não é fácil, nem indolor.

Ela está na contramão do narcisismo infantil, promovido sem pudor pela sociedade atual como solução para as dificuldades do viver.

O espelho que ela estende ao paciente, como o da madrasta de Branca de Neve, lhe dirá que não é “a mais bela”, e esta descoberta provocará desconforto, às vezes terror, certamente angústia.
A Psicanálise pode ser tudo, menos complacente com nosso profundo desejo de iludirmos a nós mesmos

– e a chamada “resistência” é precisamente a prova de quão arraigada é esta tendência.
Ela propõe a conquista da autonomia possível - e nisto é herdeira do Iluminismo; autonomia, contudo, fundada na admissão daquilo para cada qual é mais íntimo e secreto - e nisto é herdeira do Romantismo. 
Como nos admirarmos de que tal proposta seja tão pouco compatível com a superficialidade, a pressa e o pouco caso com o  sentido que perpassa nossa vida atual?

Disso não se conclui que a Psicanálise seja irrelevante; ao contrário, é seu gume crítico (tanto em relação à cultura de massas quanto à “massificação” da experiência de si) que nela perturba.

Não queremos ser incomodados, mas o fato é que esta cegueira nos faz sofrer.

A Psicanálise apela a uma razão ampliada, que inclua em si o que a sociedade contemporânea mais teme: 

o conflito, e modos de lidar com ele que não pretendem expulsá-lo dali onde ele se enraíza – em nós mesmos.                  

Renato Mezan
Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professor titular da PUC/SP, e autor de vários livros, entre os quais Freud: a Trama dos Conceitos (Perspectiva), A Vingança da EsfingeA Sombra de Don Juan e Escrever a Clínica (Casa do Psicólogo), Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias (Imago), Freud, Pensador da Cultura, Tempo de Muda e Interfaces da Psicanálise(Companhia das Letras).