terça-feira, 24 de abril de 2012

Pais e Filhos na Clínica de Psicanálise - Reportagem da Revista "Isto É"

 

Assunto: Pais e Filhos na Clínica de Psicanálise - Reportagem da Revista "Isto É"

 

 

 

Fale sério com eles

 

Pais que tratam os filhos como bobinhos perdem grandes encontros, pois crianças são seres que sabem e entendem, alerta o psicanalista Nasio

Pequeninos, desprotegidos, inocentes.

 

Para o psicanalista Juan-David Nasio, vem desse olhar superprotetor de muitos pais sobre os filhos a dificuldade de diálogo por toda a vida.

 

Segundo Nasio, pais que não valorizam a sabedoria das crianças criam filhos inseguros, que não confiam nos pais e acabam se escondendo deles, sem nunca chegar a se conhecer de fato.

 

Essa dificuldade é o tema da conferência "Como escutar uma criança?", que o psicanalista, argentino naturalizado francês, dará na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, nos dias 13 e 14 de agosto.

 

Discípulo de Jacques Lacan e de Françoise Dolto, uma das maiores autoridades na análise de crianças, Nasio é professor na Universidade de Paris VII – Sorbonne, há 28 anos e há 13 dirige a Associação Seminários Psicanalíticos de Paris.

 

Autor de 18 livros, como o recém-lançado O prazer de ler Freud, ele acaba de ser condecorado com a Legião de Honra da França.

 

"Exerço a mais linda das profissões", diz.

Com quatro filhos (uma adolescente e três já adultos), ele diz que teve as mesmas dificuldades que a maioria dos pais.

 

"Ser psicanalista não me poupou de nada", diverte-se ele.

 

Pouco antes de partir com a mulher para uma temporada no Club Mediterranée em Rio das Pedras, no litoral do Estado do Rio, deu esta entrevista a ISTOÉ no hotel Copacabana Palace.

 

ISTOÉ –

 

Citando o tema de sua palestra, como se deve escutar uma criança?

JUAN-DAVID NASIO -

 Na psicanálise, há diferenças entre ouvir e escutar.

 

Ouvir é ouvir as palavras ditas e entender a idéia destas palavras. Escutar é ser surdo às palavras.

 

É se concentrar para captar o que a criança tem de mais íntimo. Dou-lhe papel para desenhar, lápis, massa de modelar e brinquedos. E pergunto: o que você desenhou? Isso é uma comunicação no plano racional, o plano superficial.

 

 Eu ouço suas palavras, olho seu desenho, os bonequinhos que ela modelou, os brinquedos que ela usou. E há um segundo plano ou nível de comunicação, chamado fantasioso.

 

É preciso que eu esteja muito concentrado para que a partir da comunicação fluida, direta, eu possa chegar a me comunicar, escutar a criança no plano de sua fantasia, seu sofrimento, se ela tem uma fantasia masoquista ou se sente derrotada, por exemplo.

 

Entendo isso pelos desenhos e por algumas palavras. Com 35 anos de experiência, posso dizer que escutar uma criança é muito mais difícil do que um adulto.
 

ISTOÉ -

Por quê?

JUAN-DAVID NASIO -

 Uma de minhas mestras, mme. Françoise Dolto, dizia: para ser um bom psicanalista infantil, é preciso primeiro ser um excelente psicanalista de adultos. Em ambos os casos escutar é difícil e precisa de muita concentração. Mas quando se fala com um adulto, a concentração é mais fácil. Com as crianças, é mais complicado.

 

Primeiramente, há a mãe e o pai.

 

Depois, é necessário não se deixar distrair nem pelos desenhos, nem pelo brinquedo, nem pela criança, que se mexe muito. É mais difícil encontrar sua fantasia, captar sua intimidade.

 

Ela escapa, escorrega, foge. Por um lado, é mais inocente, mas ela brinca, não o deixa se concentrar. 
 

ISTOÉ -

E os pais, como devem escutar seus filhos?

JUAN-DAVID NASIO -

Essa é uma pergunta muito comum: como fazer para escutar meu filho e para me comunicar com ele?

 Eu digo: primeiramente, é preciso que se sinta vontade, desejo de se comunicar com a criança.

Parece evidente, mas é bom que se diga. Às vezes, sem perceber, os pais não têm esse desejo, ligam a tevê e ficam alheios.

ISTOÉ -

É errado falar com a criança de modo tatibitate?

JUAN-DAVID NASIO -

Sim. É preciso evitar falar com as crianças assim, a não ser com bebês.

 

É muito importante que o pai, a mãe ou a professora sintam a criança como uma pessoa inteira, que não a sintam como algo pequeno. Não se trata de achar que ela é adulta, mas que é um interlocutor válido, alguém que compreende, sabe e sofre.

 

 Significa que você a respeita, que a vê como sujeito. Não é fácil.

 

Os pais têm a tendência de falar com os filhos como se eles fossem sempre pequeninos, indefesos, fracos, sem inteligência. Muitas vezes pensando: eles não sabem de nada. Não é bom. É preciso falar-lhes como pessoas que compreendem. Eles sabem muito mais do que nós imaginamos. 
 

ISTOÉ -

O sr. pode dar um exemplo?

JUAN-DAVID NASIO -

 A criança adotada, mesmo quando nunca se disse isso a ela, sabe de sua condição.

 

Ela tem um saber, talvez não consciente, de que é adotada. Às vezes a mãe não sabe como ou em que momento dizer, o tempo passa, o pai reluta em dizer. Com 12 ou 15 anos, contam-lhe que ela é adotada.

 

É pior. E ela vai dizer: eu já sabia.

 

É porque a criança sabe as coisas essenciais, básicas no que diz respeito aos sofrimentos dos pais, mesmo se não se dá conta disso conscientemente.

 

Uma coisa é o saber com a cabeça e a outra é o saber com o coração.

 

Isso é extraordinário nas crianças e sempre me surpreende. Isso também não significa que se pode dizer tudo. Há certas coisas que não é preciso dizer. Mas a criança o sabe, é preciso encontrar o momento oportuno para dizer-lhe. 
 

ISTOÉ -

No caso de adoção, o que o sr. aconselha?

JUAN-DAVID NASIO -

Vou generalizar a questão. Se me perguntam: é preciso dizer a verdade às crianças ou não? Digo sim, mas em um momento oportuno. Se digo muito cedo, é ruim, se digo tarde também.

 

 Existe um momento justo. Também não se pode dizer as coisas brutalmente. Não se pode dizer de uma vez: "Olha, você é adotado."

 

Não! É preciso falar docemente, introduzir o assunto com algo como: "Você se lembra de quando era criança?" Então vamos ver algumas fotos. As crianças sempre gostam de ver fotos delas.

 

Enquanto se fala das fotos pode-se falar: "Olha, eu queria te contar uma coisa que nunca te disse. Você era nosso bebê, mas, ao mesmo tempo, nós não somos seus pais." É preciso dizer isso, mas suavemente, pouco a pouco. Se a criança foi adotada bebê, pode-se dizer aos sete, oito anos, a idade da razão. Não mais tarde. Se ela foi adotada após essa idade, diga logo ou no máximo um ano depois.
 

ISTOÉ -

Quais os motivos mais comuns de consultas infantis no seu consultório?

JUAN-DAVID NASIO -

 Em primeiro lugar, problemas escolares. Crianças com dificuldade de aprendizado: dislexia (dificuldade de ler), dispraxia (dificuldade de escrever) e discalculia (dificuldade de efetuar operações matemáticas).

 

O segundo é o medo. Às vezes mesmo acordadas, em casa, têm medo de monstros, de bichos. É claro que todas as crianças têm medo – e os adultos também –, isso é normal. O problema é quando o medo se transforma em uma inibição, perturba a vida da criança. Em terceiro, está a enuresia, o problema das crianças que fazem xixi na cama.

 

Acontece mais nos meninos.

 

A enuresia diurna é mais rara e mais grave.

 

A noturna, quando a criança já tem sete, oito anos, atrapalha a vida social.

 

Ela não vai poder ir para o acampamento ou para a casa de um amigo porque tem vergonha.

 

 Há também a agressividade, a criança bate a cabeça contra a parede ou contra o chão, com raiva.

 

Ou às vezes morde os irmãos, os amigos ou maltrata o bichinho de estimação. E, por fim, a depressão.
 

ISTOÉ -

O que esses sinais querem dizer?

JUAN-DAVID NASIO -

Muito. O primeiro ponto importante são os antecedentes nos pais.

 

Sempre que a criança tem esses sintomas, eles são encontrados na infância dos pais.

 

Ou o pai ou a mãe foram agressivos, medrosos, tiveram enuresia, etc.

 

 É impressionante. Há um fator hereditário, seja psicológico ou biologicamente herdado. No caso do medo, a criança é superprotegida. Quanto mais ela é superprotegida, mais ela se sente desarmada, indefesa, frágil.

 

No caso da agressividade, são tiranas, crianças extremamente mimadas, que se consideram os reis da casa.

 

Frequentemente, são filhos de pais mais velhos.

 

A criança que se agride, batendo a cabeça na parede quando os pais lhe chamam a atenção, é chamada colérica.

 

Muitas vezes também é uma criança mimada e é muito comum que um dos pais tenha sido assim. 
 

ISTOÉ -

O sr. poderia explicar melhor a questão da enuresia?

JUAN-DAVID NASIO -

 A enuresia também é uma manifestação de agressividade, muitas vezes de ciúmes de um irmão que dorme no mesmo quarto.

 

É um sinal de sadismo da criança. A urina é como um ácido que ela joga contra o outro, seja o irmão ou um dos pais.

 

A tristeza e a depressão são causadas, na maior parte das vezes, pela separação dos pais.

 

A criança sofre porque perde a identidade familiar. O pai ou a mãe levam o filho ao consultório porque ele está triste.

 

E a criança diz logo: eu queria que meus pais estivessem juntos. Depois ela se habituará. O homem é um ser adaptável. Podem acontecer as piores coisas que nos adaptamos. 
 

ISTOÉ -

O que os pais costumam dizer no consultório?

JUAN-DAVID NASIO -

 Entre pais e filhos, há muitos não-ditos. Esses não-ditos vêm justamente do fato de os pais não enxergarem os filhos como capazes de ouvir e compreender o que se diz a ele.

 

Ao mesmo tempo, isso cria na criança o sentimento de que deve esconder certas coisas dos pais porque teme decepcioná-los, chateá-los. Muitas vezes, por isso, os pais acham o filho fraco, medroso, não muito inteligente.
 

ISTOÉ -

O que eles dizem dos pais?

JUAN-DAVID NASIO -

 Eu sempre chamo as crianças primeiro. Não faço como os pediatras que deixam os pais falarem pelas crianças. Eu vou à sala de espera e chamo a criança. Os pais se levantam automaticamente.

 

Eu lhes digo para ficarem e converso com ela a sós.

 

Pergunto-lhe se sabe por que os pais a levaram ali.

 

Começo a perguntar suavemente sobre sua família. Conto que todas as pessoas que vêm me ver têm problemas. ‘Você tem problemas?’, pergunto.

 

Desse jeito a criança se comunica rapidamente, conta seus problemas.

 

Os filhos falam mais dos pais quando eles estão se separando.

 

É comum contarem que ficam tristes quando os pais estão saindo com outras pessoas, quererem que continuem juntos. Muitos pais dizem que, para os filhos, é melhor vê-los separados do que juntos brigando.

 

Mentira. A criança vai preferir sempre ver os pais juntos.
 

ISTOÉ -

Há muitas diferenças no relacionamento entre pais e filhos na América Latina e na Europa?

JUAN-DAVID NASIO -

 Não muitas. Basicamente, o que percebo é que as crianças aqui são criadas com mais liberdade, com menos cobranças sociais. Na Europa, em geral, é maior o peso do êxito escolar, passar para uma boa faculdade.

 

Fora isso, os problemas são muito parecidos.
 

ISTOÉ -

O que muda na relação entre pais e filhos na adolescência?

JUAN-DAVID NASIO -

 A adolescência é muito diferente. É próprio desta fase um grande pudor. Mesmo as garotas que saem de umbigo de fora, por exemplo, se sentem tímidas com um elogio mais direto.

 

Elas podem brincar de mulher fatal, mas no fundo têm um enorme pudor, vergonha excessiva, que é uma forma de autocrítica. É típica dessa idade uma crítica excessiva.

 

Aos pais, à sociedade e a si mesmo. São juízes muito severos, muito cruéis. Não perdoam nada nos pais. São muito preocupados com a aprovação social, com o respeito dos princípios sociais, mas ao mesmo tempo são rebeldes contra esses mesmos princípios.

 

 Eles têm um superego excessivo, muito rígido, severo. O conselho que dou aos pais é para serem muito pacientes. É preciso tolerar. 
 

ISTOÉ -

O que os pais devem fazer quando o filho se tranca no quarto e não quer conversa?

JUAN-DAVID NASIO -

O diálogo é sempre fundamental, mas acontece muito nesta fase de o adolescente não querer se abrir.

 É preciso esperar, respeitar.

O pai deve ser tolerante, mas manter sua posição.

Se ele quer ficar trancado no quarto, diga que você não gosta e que continuará à disposição quando ele quiser conversar.

O importante é você sempre marcar sua posição.

Uma coisa interessante em relação ao quarto do adolescente é que é sempre uma bagunça.

E não adianta o pai pedir para ele arrumar.

A gente fala uma vez, duas vezes e depois espera. Muitas vezes, ao sair de casa, a nova casa desse ex-adolescente bagunceiro será perfeita, impecável. Inconscientemente, ele queria provocar os pais.

ISTOÉ -

Os pais ainda devem insistir em educar na adolescência ou a personalidade está totalmente formada?

JUAN-DAVID NASIO -

 Não está totalmente formada. É claro que ainda há muito a fazer.

 

Eu sempre digo aos pais: a adolescência é uma etapa, eles continuam a evoluir até adultos. É difícil dizer que alguém está formado de forma definitiva. Já vi pessoas mudarem toda sua vida de forma impressionante depois dos 30.

 

É verdade que a margem de mudança na personalidade de um indivíduo diminui à medida que o tempo passa, mas não nos precipitemos. Sempre é possível mudar alguma coisa.
 

ISTOÉ -

Como dar liberdade sem cair na permissividade?

JUAN-DAVID NASIO -

Esta pergunta não tem uma resposta clara, uma regra única.

 

A melhor forma de exercer o papel de pai é se concentrar em dar à criança o lugar de sujeito, em enxergá-la como uma pessoa inteira, lembrando sempre de seus direitos e deveres.
 

Fonte pública consultada: http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/33046_FALE+SERIO+COM+ELES

 

 

 

Repassando a todos:

 www.drluiz.com

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SOBRE A ÉTICA DA PSICANÁLISE

 

SOBRE A ÉTICA DA PSICANÁLISE

 

    
 

          Quando falamos de ética é quase inevitável pensar na moral, e discorrer sobre este tema frente a pessoas interessadas no assunto parece-me sempre muito difícil!

Isto me fez lembrar de um comentário feito por Mark Twain quando foi apresentar um ensaio Sobre a decadência na arte de mentir para o círculo de História e Antiguidades de Hartford: seu atrevimento era comparável ao de uma solteirona desastrada que tentasse dar conselhos na arte de amamentar às fecundas matronas de Israel.

 

Acho que o risco que se corre é sempre mais ou menos este.

 

          A preocupação com a ética é antiga e historicamente o tema tem sido dominado pela religião preocupada com a relação do sujeito com o outro.

 

Os profetas nunca se cansaram de asseverar que Deus nada exige de seu povo senão uma conduta de vida justa e virtuosa. E mesmo a exigência de crença nele parece ficar em segundo lugar, em comparação com a seriedade desses requisitos éticos.

 

O que se buscava era a abstenção de toda satisfação pulsional, condenada ainda como impura também por nossa moralidade atual, apesar da aparente liberdade sexual dominante em nossos dias.

      

    Sempre se esperou da ética resultados importantes. Freud a interpreta como “uma tentativa terapêutica, como um esforço para alcançar, através de uma ordem do supereu, algo até agora não conseguido por meio de quaisquer outras atividades culturais”.

 

O problema, para Freud, é que “a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte”.

Atribuo a isto a pouca simpatia de Freud pelo tema!

 

E ele acredita, conforme afirma em O mal-estar na cultura (1930[1929]) que “enquanto a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética pregará em vão”. 
 
          A preocupação aparece através de um dos grandes mandamentos, já no terceiro livro do Pentateuco:Amarás ao próximo como a ti mesmo.

      

          São Mateus e São Marcos retomam este mandamento, cada um à sua maneira, e quando São Lucas trabalha esta questão, utilizando-se de um recurso dialógico, ele introduz um legista para perguntar a Jesus: quem é o meu próximo? 

 

 E Jesus responde com a parábola do bom samaritano, onde a resposta parece indicar que o próximo é o bom. Tenhamos presente, contudo, que na sua enunciação a parábola diz que os maus são o plural; os indiferentes - o sacerdote e o levita - singularmente dois: e o bom... um.

 

Não se poderia entender como o enunciado de uma proporção?

 

Talvez trançá-los?

 

Quer dizer, todos estão de acordo quanto a ser difícil reconhecer o mau como sendo o próximo, embora todos saibam que ele ronda, e que é preciso delimitar os direitos da sociedade contra o indivíduo e vice-versa.

 

          A distinção da ética com relação a moral foi proposta por Jacques Lacan.

Quando se ocupa desta questão, ele a retoma desde um jogo de palavras feito por Aristóteles entre  /  , para dizer - através do segundoêthos (este de pronúncia mais fechada) - que a ética de Aristóteles é uma ética de formação do caráter. Vejamos: usualmente se traduz o primeiro éthos, grafado com 'epsilon' e espírito brando, por ‘uso, costume, hábito’ e o segundo, grafado com 'eta', por ‘morada, estância, residência’ e mesmo por ‘estrebaria e curral’ quando se trata de animais.

 

O Prof. Donaldo Schüler trata esta questão de um modo muito interessante quando diz em Heráclito e seu (dis)curso que o êthos é a pele do homem, o que lhe permite habitar tanto a pele do cordeiro como a do lobo.  

       

   Este me parece ser o aspecto importante da ética: toda ação do homem tem sempre uma implicação, embora - como Pausânias deixa claro no Banquete de Platão - enquanto se realiza, uma ação não é de si mesma nem boa nem má.

 

Eu diria que depende de como se realiza; afinal quem não sabe das mentiras que se justificam. 

          Na Ética a Nicômaco Aristóteles começa dizendo que toda a ação tende para algum bem. Pois está certo! E aí encontramos um ponto de apoio para especificar rigorosamente a ética da psicanálise, dito de outro modo, de diferenciar o bem que se busca com a prática da psicanálise.

Digo prática na medida em que sua etimologia conota uma conversação mantida quando se freqüenta alguém. É isto, a psicanálise é uma prática do blá-blá-blá e a benção, a benedictio aí presente, implica em não dizer onde está o bem do outro e isto não por recusa nem por nenhuma negatividade imaginariamente implicada a alguma técnica e sim pela convicção da absoluta ignorância do analista em relação ao bem do outro.

O que o analista pode e deve fazer é ajudar o analisante, através da escuta de sua produção significante, a fazer a descoberta de sua própria morada, da pele que lhe é própria.  
   
          Esta conquista exige um tempo, mas enfim, como dizem as últimas linhas de As duas faces da moeda, um dos Maqâmât de al-Hariri (na versão de Rückert):

“Ao que não podemos chegar voando, temos de chegar manquejando (...).

O livro diz-nos que não é pecado claudicar.” 

Luiz Olyntho Telles da Silva

  
 

Homo homini lupus.  
(O homem é o lobo do homem).  
Plauto, Asinaria, II, IV, 88. 

Ethik ist aber Triebeinschränkung.  
(A ética é uma limitação da pulsão).  
S.FREUD, Moisés e o monoteísmo.