domingo, 24 de março de 2013

Porque Fazer Análise ?


A Psicanálise é a Clínica do Acolhimento da Palavra
Porque fazer Análise?
A Psicanálise serve para Acolhimento do Sofrimento amoral do discurso da Alma Humana*  *(inconsciente). Isso sem julgo e sem Medo.
A Psicanálise em sua essência é a clínica do acolhimento da Escuta, da Palavra.
Acolhimento da Palavra não dita, palavra que não tevê oportunidade de construir seu discurso próprio na sua estrutura psíquica.
Na análise o "discurso" remendado é gradativamente levado para uma recostura "per si".   Se a religião é o porto seguro para o exercício da fé e também da culpa do nascimento da transa dos nossos pais, visto que onde tem sexualidade. A religiosidade se insere com a culpa., como cunho de domínio e controle da família e individualidade do ego.
Vive-se o medo e a temência de ser   julgado por amores e paixões que fazem parte natural da existência humana.
A psicanálise dá asas para voar além do “porto” do pecado, além do purgatório e nessa perspectiva “de voo” podemos descobrir o quanto somos capazes, fortes para reeditar nossa existência com o "outro e sem o outro" num viver ético.
E mesmo que ainda nos sentimos culpado e com medo,  na caminhada da análise seremos capazes de exercer a sexualidade sem medo do pecado e sem medo de ser feliz. Logo sem necessitar de nenhum “intermediário” que venha me desautorizar o desejo e a libido da sexualidade da minha vida. 
"Freud dizia que as religiões são excelentes abrigos das neuroses humanas" (1856/1939) Livro: Mal Estar da Civilização.
Na Psicanálise existe o Acolhimento da Palavra sem medida, fazer análise é o lugar onde o “palavrão” é desmascarado e  desmistificado é onde ele pode ser inclusive falado.  Na clínica de Psicanálise  esse "palavrão" são todas as palavras que deixei de dizer algum dia para alguém desde de infância.

Na "análise" o sujeito constrói esse palavrão através do seu discurso.   
Fazer “análise” é "estar-se"  sujeito a descobrir que um “grande amor” nem era ou foi é um grande amor assim, fazer análise é descobrir que uma grande paixão nem é mais tão uma grande paixão.
Fazer “análise” é descobrir que as instâncias do se apaixonar e amar, não devem  existir como vinculação de “partilha” do “indivíduo” em sua totalidade, gerando assim relações de dependência afetiva e possessividade.
Mas amar analítico é para “compartilhar” e esse compartilhar deve se apontar para o amadurecer, crescer e evoluir para existência dessa vida compartilhada.
Na paixão “partilhamos” o caminho, no “Amor” compartilho o caminho sem renunciar minha individualidade e liberdade; mas se tiver resquícios de um complexo de Édipo mal resolvido vou sofrer e fazer alguém sofrer.
É no Édipo e na infância com nossa mãe que a maioria de nós aprende a referência para amar e com nosso pai aprendemos a disciplinar "isso" para esse amar.   
O Amor é aquilo que dou (doação, ágape).  A paixão é aquilo que exijo para “tamponar” uma lacuna uma brecha que me falta e é preenchida pelo “outro” ( é uma sensação de bem estar por receber e perceber- se a si (narciso)  e não dar quase nada para o outro).
No amor eu "doou" sem pedir nada em troca porque "Amor" é luz refletida "vai e volta".  Na paixão exijo inclusive exclusividade e é na paixão que inclusive manipulo a individualidade do "outro" exijo "luz" mas posso por meu "Outro" em trevas.
Grandes conquistas acontecem na instância da paixão mas também  crimes passionais e hediondos também moram na possessão da paixão e não do amor.
Por isso é muito importante o candidato e aspirante a formação para  “Analista” fazer sua análise pessoal continuada, fazer suas supervisões de atendimentos antes de se tornar psicanalista de fato.
É preciso reeditar sua caminhada, sua história é preciso conhecer sua neurose e tratá-la primeiro para depois tratar do "Outro".

A Psicanálise é das poucos ou únicas especialidade ou ocupação laboral em que se experimenta primeiro do seu método para depois se utilizar no outro.
Não há restrições médicas, contraindicações e efeitos colaterais indesejados em se fazer análise sendo neurótico.  Haverá alguns  sintomas e reações como mecanismo de defesa e resistência a mudanças de si para si mesmo.
Mas ninguém vai a "óbito" ou fica com sequelas clínicas indo fazer "análise. Por isso não há emergência clínica médica em se fazer análise de neuroses inorgânicas e da instância do inconsciente.
O psicanalista (não médico) não pode ou deve aviar nenhum tipo de indicação de tratamento medicamentoso e nem pode suspender nenhum tipo de tratamento clínico ou de exames clínicos do seu analisado.
Psicanálise é Psicanálise: (Associação livre de ideias, Interpretação de Sonhos, Pontuar, Interpretar e Confrontar os achados do Inconsciente pela palavra)
Nesse artigo tenho intento de levar aos pacientes de psicanálise como também aos alunos (as)  e candidatos a formação para a clínica de acolhimento da psicanálise a importância de se fazer sua análise e da supervisão.
O Divã não é o leito para o corpo, mas é a acomodação do corpo para o acolhimento do inconsciente do sujeito.
E é nisso que vai se permitir "o vir da fala"  que através da escuta do "Analista" via associação livre, se criará condições e tempo propício para o “inconsciente” se fazer presente pela “palavra” que deverá ser pontuada com imparcialidade e amoralidade pelo seu psicanalista.
“O Psicanalista é o Poliglota da Alma Humana” (Chafic)
A psicanálise serve para a desconstrução do olhar e reeditar o sentir do sujeito, do seu “outro” e do seu sofrimento como “sujeito”.
Porém na análise não é recomendável e nem o objetivo visar cura de algum sintoma clínico médico ou doença.
Fazer análise é se submeter não só a confiança e experiência do Psicanalista, mas a ao método da psicanálise tradicional e coloquial.
E é nesse viés que temos um construto novo semelhante a um homeopático abstrato onde vamos alcançar o insabido gradativamente e descobrimos, e  aos poucos saberemos que nossa consciência e nossa razão, nem sempre têm consciência e razão de sermos assim inclusive infelizes e vitimados pela infelicidade.
Na análise vamos descobrir que inclusive podemos nos reeditar  para a possibilidade de um novo sentir e um novo “ser assim”  inclusive em instâncias novas da consciência e razão.  
A estrada da psicanálise é direcionada sempre ao universo abstrato e inorgânico individual do inconsciente humano;  e cada sujeito é um universo único em sua análise e sua história de vida.
A análise é possibilidade de me “permitir” fazer a travessia por uma nova estrada para aquilo que já existe na minha história desde infância, é um passo onde me permito conhecer meu sofrer sem me arruinar.
Embora o objeto da psicanálise não é eliminar o sintoma a análise  e se inicia após toda representação simbólica da queixa. É na elaboração do sintoma que o sujeito faz sua análise gradativamente e (cada um tem o seu tempo) por isso fazer "análise" demanda tempo.
Na análise vai se permitindo vencer resistências e mecanismos de defesas  descobrindo-se o quanto havia em seus sintomas, o quanto de tempo ou desperdício energia e libido com coisas que podem ser  "ressignificadas" e tratadas pela psicanálise. 
E isso é a indicação da possibilidade da construção de um novo olhar, uma nova ética para viver sem culpa, sem medo exagerado.
A análise é a possibilidade de um novo viver mesmo sendo neurótico, um Viver "Real"  sem tamponamento vai-se descobrindo o que somos e o que realmente desejamos nesta Vida.
Fazer análise é um desafio para conhecer-se a "si mesmo" é estar disposto a verdade insondável  que habitava a palavra e seu discurso do cotidiano.
 No discurso existo e enquanto que simbolização da existência do individuo está na interpretação dos conteúdos simbólicos da fala.
É no discurso que fazer análise é a libertação do seu sujeito de si e do seu “outro”. (Lacan)
Enquanto que no cristianismo a máxima: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos Libertará”

Na Psicanálise poderíamos usar o jargão:
“Conhecereis a si mesmo e seu desejo que isso vos Libertará de si e do outro”.
É claro que na análise diferenciamos as instâncias morais e religiosas das instâncias do prazer e tratado do desejo no contexto da estrutura psíquica individual de cada um de nós.
A Psicanálise não é imoral porém deve tratar de todas as questões e conflitos humanos de forma imparcial e amoral dentro do método psicanalítico tradicional e coloquial.

Luiz Mariano
Member Doctor Psychoanalyisis Theories and Clinical Psychopathology 
Percurso de Psicanálise da ABMP-DF & Uk Psychoanalysis Society - London
Doutorado Psicanálise Clínica EPCRJ - American World University
Mestrado Psicanálise Clínica do Acolhimento EPCRJ - Soul Open University London  



quarta-feira, 6 de março de 2013

DIZEM QUE SOU LOUCO.....


Crônica da loucura
Por Mário Prata


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos.

Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra.
Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles.
Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera.
Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas.
Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.
Ninguém olha para ninguém.
O silencio é uma loucura.

E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo.
E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu.
Senão, vejamos: Na última quarta-feira, estávamos: (1) eu, (2)um crioulinho muito bem vestido, (3) um senhor de uns cinqüenta anos e (4)uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles.
Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo.
Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime.
Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam ou não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"?

Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza.
O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele.
Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça.

Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro.
Podia ser perigoso.
Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado.
Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo.
Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver.
Filho drogado? Bem provável.
Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa.
Claro, abandonado pela esposa.

Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?
Acho que não.
Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha.
Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus.

Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos.
Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora?
Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar.

Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava.
Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa.
Coitada. O que deve ser dos filhos dela?

Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos.
Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. 

Ele ri, ri muito, o meu psicanalista e diz:

"(2 ) O Ditinho é o nosso office-boy.
(3) O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
4) E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
E (1) você, não vai ter alta tão cedo..."