quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Juiz, O Psicanalista e o Estado de Exceção


O juiz, o psicanalista e o estado de exceção


Palavras cortam feitas lâminas.
Sentenças e atos são decisões que recortam o mundo das normas e dos fatos. E nada mais será como antes.
Saindo da sala de audiência ou do consultório do psicanalista, o demandante sabe que algo aconteceu ali, algo que rompeu com a mesmice, com a rotina, com o dia-após-dia, com o previsível, o explicável, com a ordem estabelecida.
Juiz, se for juiz e não um mero aplicador de leis, sabe do hiato entre o fato e a norma, entre a regra e a exceção, entre a teoria e a práxis, a validez e a eficácia, a legalidade e a legitimidade.
Psicanalista que é psicanalista estudou as falhas na linguagem, falhas essas, por onde transparece o inconsciente, como nos ensinou Sigmund Freud.
Sabe da radical diferença entre a cultura e o sujeito, entre o masculino, escravo da lei edípica que todos são obrigados a cumprir, e o feminino, a exceção, a invenção, como ensinou Jacques Lacan.
Decisões. Juízes e psicanalistas tomam decisões.
Cometem atos, muitas vezes dolorosos, que implicam os sujeitos, que os responsabilizam.
A decisão do juiz, da jurisdição, diz da justiça que só se faz por meio da força da lei, como diz Jacques Derrida.
Essa força está instalada no direito, pois sem a força da lei, a norma resta letra morta. Os revolucionários franceses fizeram da força da lei sua pedra angular. Sem força não há lei, não há ordem, não há direito.
A justiça contrasta com o direito. Situada no hiato entre a lei e o mundo vivo, entre a norma e os fatos, desmistifica o direito, desconstrói sua universalidade, seu cálculo, sua linguagem neutra. Justiça é feita caso a caso.
A decisão do juiz é sempre subjetiva. Sujeito da história, o juiz faz história, porque cada decisão rompe o sistema do cálculo normativo para criar algo novo: uma nova situação, um novo direito. Como não consegue agradar a gregos e troianos, a justiça provoca dessimetrias e, portanto, mudanças violentas no estatuto das partes.
Assim, o ato do juiz, a decisão judicial, desconstrói constantemente o direito, ele próprio fruto do ato da força.
Justiça nos angustia.
Desconhecida por natureza, infinita e incalculável, ela é “rebelde à regra”, permanece um “desejo no horizonte”, como quer Jacques Derrida.
O juiz que é juiz é um rebelde. Não bate o martelo em cima da mesa para restabelecer a ordem, mas cinde solitariamente e solidariamente os arrazoados das partes.
Revoluciona o mundo simbólico da norma, desmistifica o imaginário pelo qual “a cada um se atribui o que é seu” e, pelo qual, “a justiça tarda, mas não falha”.
Aplicando a justiça, o juiz toca o real, aquilo que “não tem lei”, como diz Jacques Lacan. Assim, a justiça situa-se na falha da intersecção entre os três registros do nó borromeano.
É sempre exceção, algo que excede. Por isso mesmo, nunca pode ser feita para todos, permanece um desejo vivo.
Carregando consigo a violência, o direito está prenhe de seu próprio paradoxo: force de loi (força da lei) para os franceses, Staatsgewalt (violência do Estado) para os alemães.
A garantia da lei é a não lei, a força, o estado de exceção.
Este pode ser um Estado de exceção com “E” maiúsculo.
Pode ser também um estado de exceção com “e” minúsculo. Dependendo de nossas escolhas políticas (Carl Schmitt que o diga!), o Estado de exceção transfere para um ditador a soberania, a capacidade de decidir na zona cega da validade da norma para, desta maneira, garantir a ordem.
Por outro lado, se acreditarmos às palavras de Giorgio Agamben, pela lógica do estado de exceção, é permitido ao povo favelado cavar dutos de água potáveis clandestinos e puxar luz com gambiarras na rede elétrica.
Diante da necessidade, a norma é suspensa. O que vale é a (não) lei da sobrevivência. Justiça se faz pela rebeldia. E as falhas na rede de água potável corroem o morro.
A falha é a razão de ser da psicanálise desde Sigmund Freud. Afasias, atos falhos, chistes, sonhos e sintomas, enfim, o mau funcionamento do nosso aparelho de linguagem, são, como diz as portas de saída do inconsciente habitado pro desejos recalcados pela culpa que a lei edípica nos proporciona.
Para Sigmund Freud, nossa cultura constrói-se a partir do recalque de nossas pulsões de vida e de morte. O resultado é um tremendo mal-estar perante a cultura.
Para espantar o mal-estar fazemos de conta que encontramos na cultura soluções para nossos males.
Para cada doença um remédio, para cada ato criminoso um tipo penal, para cada problema uma solução.
Assim nos ensinam nas universidades.
As contradições na sociedade resolvem-se pela síntese dialética, divulgam os revolucionários marxistas. A cultura e sua ordem nos contêm. Exigem um preço alto: neuroses, psicoses e perversão nos lembram como a ordem cultural é furada.
Para além do Édipo, o buraco é mais embaixo.
Se para a psicanálise cada caso é um caso, a classificação dos pacientes em neuróticos, psicóticos e perversos pode apenas auxiliar o psicanalista a realizar algo que o aproxima do juiz: tomar uma decisão.
Decide sobre a questão se o paciente é analisável, decide os rumos que o caso poderia ter seu direcionamento, decide, enfim, o ato que suspende a fala do paciente e que o desloca do lugar onde se encontra.
Para tanto, tem que ser rebelde à lógica, desconfiar da norma e cortar com a lâmina da palavra o discurso estabelecido.
O psicanalista deixa desnudo o estado de exceção, estado sem lei, para dar passagem ao desejo.
Para o psicanalista todos os pacientes são diferentes, são como se fossem uma mulher que, avessa á estandardização, constantemente se inventa, como diz Jorge Forbes.
Quando um cidadão preterido em seus direitos provoca o poder judiciário, o juiz decide, embora na base da lei, em nome da justiça, eterna rebelde à regra.
A responsabilidade é do juiz e do sujeito responsabilizado, nesse caso, pelo Outro.
Quando um paciente procura um psicanalista, ele decide provocado pelo psicanalista.
Radicalmente diferente dos demais, o paciente, o sujeito da psicanálise “pica” seus conceitos e fantasias e tem, assim, a chance de reinventar, cioso de sua responsabilidade diante do futuro. No fundo, é ele quem sabe.
Por isso, a decisão, o ato de cortar com palavras o status quo, é dele.

Dra. Dorothee Rüdger é Psicanalista, Advogada e Escritora

domingo, 19 de agosto de 2012

Vale a Pena Crescer ?


Vale a pena crescer?

Para que as pessoas crescem?
De acordo com Freud, para serem capazes de amar e trabalhar.
Isso pode parecer uma tarefa simples, mas nós sabemos que não é.
São muitos os perigos nessa jornada que começa no nascimento e vai até a morte.
Pensem em suas próprias histórias, em tudo que vocês passaram tentando crescer e me darão razão.
A coisa não é fácil.
Muito tem sido escrito sobre o desenvolvimento humano.
Sob a ótica da psicanálise nós crescemos, com a ajuda das pessoas importantes ao nosso redor, aos trancos e barrancos, enfrentando inúmeros conflitos que devem ser solucionados em cada etapa.
Esse crescimento é muito complexo e ocorre em múltiplas dimensões, entre elas os nossos instintos maleáveis, nosso ego, nossa consciência, os nossos relacionamentos com os outros e com a realidade na qual estamos imersos. Desde o nascimento, o ego e o super ego, juntamente com os instintos, se desenvolvem. Vocês já devem ter percebido que estou tentando abordar um tema difícil. 
Nos Estados Unidos, quando a psicanálise estava no seu auge, o “Instituto Nacional de Saúde Mental” publicou três volumes abordando o desenvolvimento humano, com o título “The Course of Life: Psychoanalytic Contributions Toward Understanding Personality Development”, editado por Stanley I. Greenspan and George H. Pollock.
Um livro que permanece valioso para quem se interessa por esta questão.
“Quem quiser encontrar o amor, vai ter de sofrer, vai ter de chorar”, diz a música. Do nascimento até o amor e o trabalho, são muitas tarefas a serem cumpridas
.
Nós só conseguimos nos aproximar desse ideal maduro depois de tentativas, erros e fracassos que geram desapontamentos. Mas, nós só fracassamos mesmo quando paramos de tentar.
O amor maduro genital é a experiência mais prazerosa que o ser humano pode ter, mesmo quando ela não é duradoura.
Já dizia o poeta que “o amor é eterno enquanto dura“.
Se pensarem bem, todos nós, no fundo e acima de tudo, estamos em busca desse amor maduro.
Mas como conseguimos chegar lá é uma coisa muito individual que não pode ser generalizada.
Vai depender da genética, da constituição, da constelação familiar, das sortes e adversidades que são sempre imprevisíveis. Nenhuma história pessoal é igual à outra.
Uma das inúmeras dimensões do desenvolvimento humano pelas quais os analistas sempre se interessaram é a progressão da libido à medida que a pessoa cresce.
A libido, isso é, o motor interno em busca do prazer, está presente desde o nascimento.
Por muitos anos Freud acreditou que ela fosse o nosso único instinto.
Ele adotava uma teoria monista dos instintos.
Só mais tarde ele, a partir da observação clínica e do mundo em geral (especialmente as reações terapeuticas negativas e a primeira guerra mundial) ele mudou essa concepção e considerou a agressividade um instinto tão importante quanto a libido. Passou a adotar então uma teoria dualista dos instintos.

Existe uma sequência mais ou menos previsível na busca do prazer, à medida que a pessoa cresce.
São as fases do desenvolvimento libidinal: oral, anal, fálica, latência e genital.

Essas fases são superpostas. Sempre existem elementos das fases anteriores nas subsequentes e nenhuma delas é totalmente abandonada.
As vicissitudes do desenvolvimento da personalidade tem uma relação muito íntima com a psicopatologia, pois os eventos de cada fase, especialmente os traumáticos, influenciam muito o nosso comportamento futuro.
Vamos começar com o nascimento.
O feto só se torna uma pessoa quando nasce.
Será que essa experiência, tão natural, seria traumática?
As opiniões divergem.
Existem analistas que acreditam que todas as neuroses estão enraizadas no “trauma” do nascimento.
Freud, sabiamente, nos chamou a atenção para a sobrevivência do bebê, em termos da necessidade da alimentação e do calor, vir acompanhada da experiência do prazer no contato físico com a mãe, especialmente através da pele e da boca.
Esta seria a fase oral do desenvolvimento. Claro que estou e irei simplificar muito essas fases do desenvolvimento para que esse artigo não fique muito longo.
Vamos para a segunda fase, a chamada fase anal.
Aqui a criança já fala, isto é, entrou no mundo do simbólico depois de viver no imaginário do primeiro ano de vida.
E ela já começa a andar e ter certa autonomia.
Muito do relacionamento mãe-criança se centra agora na questão do controle dos esfíncteres.
A criança começa a teimar e a dizer não, ficar emburrada. Ela quer ter a liberdade de brincar com suas fezes e não aceita o controle da mãe.
Esta, por outro lado, quer educar a criança.
A criança descobre outra zona no seu corpo que é capaz de lhe dar prazer: o ânus. Com ela vem o prazer de reter e de soltar as fezes como forma de autoafirmação.
Não será difícil para vocês imaginarem como conflitos nessa fase podem contribuir dificuldades emocionais na vida adulta.
Já pensaram no adulto que passa a vida só tendo o prazer de economizar e de reter?
Chegamos depois na fase fálica.
Aqui as crianças descobrem a presença ou a falta do pênis.
Os meninos descobrem que esse órgão visível que eles podem pegar lhes dá prazer.
As meninas veem o corpo do menino, percebem a diferença e sentem como se estivesse faltando alguma coisa nos seus corpos. Vocês também podem imaginar as consequências de conflitos nessa fase do desenvolvimento até a maturidade
Tanto o menino, quanto a menina podem não supera-la.
O menino fica com medo de perder essa parte do seu corpo e a menina, com inveja do menino, tentando descobrir como poderá sanar essa falta.
Se nas fases anteriores a relação principal é com a mãe, apesar da presença do pai já ser sentida desde o nascimento, nessa fase fálica o pai se torna mais presente e a situação entre filhos e pais passa a ser mais triangular.
O velho complexo de Édipo, tão bem descrito por Freud e presente desde o nascimento, aqui atinge o seu auge quando vemos o menino com o seu amor pela mãe, desejando tirar o pai do caminho.
Mas ao mesmo tempo ele também ama o pai, daí o conflito, a culpa e as fantasias de ser castigado por ele. Para as meninas a coisa é mais complicada. Primeiro porque, assim como os meninos, o seu primeiro amor é a mãe, só que aqui elas mudam na direção do pai que, supostamente, poderá lhes dar o que está faltando: o pênis.
Depois dessa fase fálica a libido entra no período de latência e a criança vai se dedicar a estudar e aprender.
A libido recua um pouco e a criança fica numa posição meio assexuada para poder se interessar pelo mundo e pelos estudos.
Chegou a hora de aprender nas escolas. A maioria dos esforços é nessa direção. Mas a libido, não se iludam, estará lá sempre disfarçada, meio subterrânea e poderá afetar muito essa questão pedagógica da aprendizagem
A coisa explode de novo na puberdade.
Aí os hormônios obrigam o (a) jovem a lidar com a libido outra vez.
E há quem diga que todas as fases da infância são revividas na puberdade e na adolescência, isto é, essa é uma segunda chance do (a) jovem lidar com o seu crescimento de um modo saudável.
Entramos na adolescência que ao contrario da infancia tem ca vantagem do (a) jovem poder eventualmente se separar dos pais, encontrar uma companheira (o) e uma profissão. Isso é, ser capaz de amar e trabalhar entrando na fase genital do desenvolvimento.
Só como uma parentese. Uma terceira maneira que a pessoa tem de tentar corrigir as dificuldades no seu desenvolvimento psicossocial é fazer uma psicanálise.
Assim os indivíduos têm três chances de corrigir o seu desenvolvimento emocional: a primeira na adolescência, a segunda na psicanálise e suspeito que ainda existe uma terceira que é na criação dos filhos.
Os filhos nos levam de novo às nossas fases do desenvolvimento e podemos com eles aprender a lidar com elas de um modo mais adaptativo.

Não queria terminar sem chamar a atenção sobre a importância dos relacionamentos interpessoais com pessoas significantes à medida que a criança cresce.
Harry Stack Sullivan um talentoso psicanalista norte-americano passou a vida estudando os relacionamentos interpessoais e criou uma Teoria Interpessoal da Psiquiatria.
Os relacionamentos humanos, como nós bem sabemos por experiência própria, podem nos influenciar para o bem e para o mal.
Não preciso dizer que quanto mais saudável mentalmente forem as pessoas significantes do nosso passado, mais facilmente nós iremos crescer. Mas, como consolo, as crianças que tiveram mais dificuldades em crescer são as que eventualmente entendem melhor a importancias das dificuldades emocionais próprias e de terceiros e, se conseguem supera-las, acabam virando ótimos psicanalistas.
Devo mencionar aqui que os contos da carochinha sempre terminam com as pessoas casando e sendo felizes para sempre.
Infelizmente, como bem sabemos as coisas não são bem assim.
O nosso crescimento continua em fases adultas mais ou menos previsíveis: ter e criar os filhos, meia-idade e mais tarde a velhice e a morte.
Nessa trajetória há sempre uma fase intermediária inevitável para cada um de nós: lidar com os nossos pais que adoecem e morrem.
Na escola da vida não existem férias e do nascimento até a morte tudo vai acontecendo, rolando, de modo imprevisível, e a gente tentando lidar com isso da melhor maneira que somos capazes. Como disse um comediante quando alguém lhe perguntou se ele acreditava na vida depois da morte:
Ah, meu filho, eu mal estou dando conta de enfrentar a vida depois do nascimento e você já quer que eu enfrente mais uma?”
Vale a pena crescer?
psicanalista e psiquiatra – ufmg-mg
DEPOIS DE 50 ANOS DE MEDICINA, PSIQUIATRIA E PSICANALISE PENSEI EM PARTILHAR A MINHA EXPERIENCIA QUE ESPERO SERA UTIL PARA OS MEUS LEITORES LEIGOS E PROFISSIONAIS. APRECIAREI QUAISQUER COMENTARIOS.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aos candidatos a Analista...Psicanalista

A formação da Psicanálise para a clínica "analítica" não têm "atalho" e qualquer "atalho" no percurso da "Psicanálise" significa muitas vezes numa formação de de-formação é algo "deficitário" por isso deve-se  seguir os critérios do tripé psicanalítico. O Psicanalista não é alguém que pode "desautorizar"  os sintomas de ninguém que o procure.  É na via dos sintomas que "Existo onde Penso que  não Existo".