quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O MEDO DA FELICIDADE...

O Medo da Felicidade
Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.
Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.
Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.
Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.
O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.
O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!
Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.
Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.
Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.
Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank.
Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.
A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.
Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.
Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade.
Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.
A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.
Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente.
Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.
Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado.
Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!
Dr. Flavio Gikovate   (In-Memoriam)
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A PSICANÁLISE MODERNA E PÓS MODERNA

A PSICANÁLISE PÓS-MODERNA

A neurobiologia como o novo materialismo.

A insistência de termos como novo , atual, moderno, aplicados como adjetivo ao termo sujeito, apontam ao momento que se vive não só na psicanálise, mas em quase todas as atividades ligadas ao homem.
O momento atual, no que se refere à psicanálise , aparece determinado pelo questionamento que as neurociências produzem nos fundamentos da psicanálise, pois a neurobiologia ao negar a existência de um sujeito desejante, e ao considerar as condutas humanas unicamente como fruto da atividade neuronal condicionada pela ação dos neurotransmissores, radicaliza a elisão do sujeito feita pela ciência moderna, produzindo com isso uma alteração na responsabilidade que seria atribuída a um sujeito pelos seus atos.
Uma conseqüência clinica e ética desta face da modernidade se impõe através do uso de fármacos na terapêutica psíquica como único meio de transformação.
Esta proposta denuncia praticas nas quais o entendimento da conduta humana é visto como efeito de um cérebro sem sujeito.
Coloca-se no lugar do sujeito desejante uma mind, cuja única verdade está nas entranhas dos neurônios.
Lacan desde os anos 60, no texto Ciência e verdade, apontava o nada querer saber da ciência frente à verdade como causa do sujeito.
Seria como efeito desta forclusão da verdade como causa do sujeito , como diz Lacan que a ciência faz, que a neurobiologia aboliu o sujeito desejante ?
A posição de Lacan sempre foi clara, tendo afirmado, no texto Ciência e Verdade: "...somos sempre responsáveis da nossa posição de sujeito.
 Que isto se chame, onde quiserem terrorismo".
 O lugar do sujeito moderno na psicanálise
Propondo-se articular a psicanálise com a modernidade se poderia falar numa relação do sujeito com a historia? Lacan ainda em Ciência e verdade , posicionado-se sobre esta questão, utilizou a expressão "um certo momento do sujeito" como também ainda referindo-se ao sujeito, falou de "um momento historicamente definido", e ainda, em relação ao sujeito, se refere a "um momento historicamente inaugural".
A razão desta possibilidade de se temporalizar o sujeito, está na afirmação de Lacan de que o sujeito está definido em relação ao saber.
Como o saber muda , o sujeito também muda, causando o surgimento de um sujeito novo em função da nova relação deste com o saber.
Para Lacan o sujeito novo atualmente, seria o sujeito da ciência em tanto fundamento da modernidade do sujeito.
Levando-se em consideração a articulação existente entre sujeito e historia, para alguns autores o sujeito pós-moderno seria caracterizado por não ser mais um sujeito que tenha um saber compartido socialmente, o sujeito pós-moderno seria um sujeito sem paradigmas de consenso, seria o sujeito decorrente da mudança dos costumes sexuais, das mudanças ideológicas, seria o sujeito que sofre da ausência de ideais preestabelecidos.
Seria este sujeito pós-moderno conseqüência do novo materialismo introduzido pela neurobiologia atual, e que se caracteriza pela ausência de um sujeito desejante, ou seria este sujeito pós-moderno a conseqüência do "declínio" da Função Paterna, como apontou Lacan?
Qual a diferença de um sujeito moderno e o pós-moderno?
Para Lacan o aparecimento de um sujeito que se poderia chamar de moderno, está historicamente localizado a partir da publicação das Meditações metafísicas de Descartes , que com a operação do Cogito teria produzido este sujeito novo.
Situar o sujeito moderno como decorrente da operação Cartesiana, é centraliza-lo em relação à uma razão objetiva. Este sujeito "reflexivo", seria moderno por diferir de um anterior cuja característica seria a de ser centro do conhecimento.
Para Lacan o sujeito cartesiano é pressuposto da noção de inconsciente, pois a psicanálise, tal qual Descartes, parte do fundamento do sujeito da certeza, ou seja o sujeito pode ter certeza de si desde que se possa destacar no seu discurso duvidas que aparecem como reveladoras de um sujeito dividido.
O lugar do "eu penso" é para Freud independente do "Eu sou".
A questão da "modernidade" porem só se transformou em questão recentemente. Segundo Foucault , foi Kant quem inaugurou uma nova forma de pensar ao se perguntar sobre a "atualidade", fazendo do tempo presente um acontecimento a ser formalizado., e com isso introduzindo na filosofia a probematização da atualidade, instante onde Kant buscava os signos do progresso.
Passando por Hegel, a questão do "moderno" se cristalizou com Max Weber e Habermas que foram os primeiros a usar a palavra modernização como terminus associando-a à formação de capital, ao estabelecimento de poderes políticos centralizados, mas também propondo a modernidade como algo que se auto-consome, por ser ela uma intercessão entre tempo e eternidade.
Também as referencias de Lacan à ciência moderna, ao pensamento moderno, à era moderna, mostram sua preocupação com a relação do sujeito com o momento histórico no qual ele esta inserido.
No seminário III, sobre as psicoses, Lacan sugere que um dos temas que caracteriza o pensamento moderno é a idéia de um personagem vivendo só em uma ilha deserta, e menciona a Robinson Crusoe.
Lacan retoma esta referencia no seminário de Um Outro a um outro para sugerir que esta idéia representa o começo da era moderna, pois seria fundamental para o homem moderno poder afirmar sua independência, e sua autonomia em relação a todo amo e a todo Deus.
Lacan faz referencia ao homem moderno relacionado-o ao discurso da liberdade, da mesma maneira que faz referencia à uma arte moderna, e à ciência moderna , que segundo ele se caracterizaria pela eliminação do simbolismo religioso dos céus, o que possibilitou estabelecer os fundamentos da física atual.
Para Lacan a ciência moderna foi um acontecimento que decorreu como efeito do monoteísmo, fato que teria instaurado um mundo ordenado ao redor de um centro, abrindo com isto uma concepção unitária do Universo.
Ainda dentro desta perspectiva a ciência teria sido possibilitada pelo mito bíblico da criação ex-niilo, o que teria posto em funcionamento a potência creacionista do significante, outra condição das ciência .
Assim também a resposta dada a Moisés pelo anjo de Iavé que apareceu na sarça ardente, Sou o que sou, é o que faz com que Deus apareça como subjetividade absoluta , e eqüivaleu a um tu não saberás da minha verdade, fazendo a fronteira entre saber e verdade .
 O sujeito pós-moderno
Para Lacan foi Descartes quem através de seu cogito fundou o sujeito moderno. Caberia então a pergunta: há um sujeito que seja atual, e que fosse produzido por um saber novo compartido nos dias de hoje?
Um ultimo destino do sujeito surgiu atualmente no campo do saber e é sua desconstrução, o que funda um novo momento na filosofia, a que se chamou de "pós-estruturalismo" e que apresenta a morte do sujeito.
A possibilidade da inexistência de sujeito, teria inaugurado segundo alguns autores o que se pode chamar de subjetividade pós-moderna.
 Ainda para estes autores o sujeito pós-moderno não seria analisável, e este fato responderia pelo que eles chamam de "Declínio da psicanálise".
Questão que, levando-se em conta que existe uma articulação entre sujeito e historia, permite perguntar: como situar a responsabilidade deste novo sujeito no mundo moderno? Em que a psicanálise pode contribuir para modificar as formas contemporâneas do mal estar na cultura?
A questão que se coloca para os psicanalistas preocupados com a atualidade, seria então, como fazer um mundo novo, se todo discurso, todo laço social é semblante?
Como modificar a irresponsabilidade caracterizada pela ausência de sujeito na proposta da modernidade, exemplificada pela neurobiologia e restituir o lugar do sujeito, tal como aponta a psicanálise, sem cair nos ideais?
O analista entenderá sua época a partir dos novos semblantes que servem para distribuir o gozo, sendo a tendência para o gozo a direção da subjetividade moderna.
Poderíamos ate mesmo pensar que a contribuição da psicanálise à modernidade seria a invenção de um novo Cogito, que se poderia chamar de lacaniano , Cogito este definido como a conseqüência do inconsciente frente ao "penso logo sou" que produz "ou eu não penso ou eu não sou ", introduzindo ai um ser do gozo .
Para responder a estes desafios, o analista, ele mesmo também um produto da modernidade, deve avançar, assim como o inconsciente avança.
Enquanto os analistas se anestesiam entre si com suas querelas internas, a psicanálise passou a ser a bola da vez para os intelectuais que se dedicam a critica das produções cientificas.
Exemplo disso é a recente versão para o português do livro editado pelo The New York review of books, de autoria de Frederick Crews, The memory wars: Freud’s legacy in disputee e também Imposturas intelectuais de Sokal e Bricmann. Há também, ainda sem versão em português o livro de Richard Webster, Why Freud was wrong, além dos antigos A psicanálise essa impostura de Pierre Debray-Ritzen, e A decadência do Império Freudiano de Eysenk .
Todos eles tem em comum a tentativa de produzir um confronto da psicanálise com os modelos atuais da ciência.
Ciência que na área da conduta humana está dominada pelas ciências cognitivas, que via filosofia da mente se sustenta na neurobiologia. Neurobiologia que transcendendo suas funções passou a ser o parâmetro de um novo materialismo, pretendendo, desde sua perspectiva, abordar o sujeito, mesmo que negando-o.
Esta situação, embora definida dentro novos parâmetros, não é nova para a psicanálise, sendo mesmo sua rotina prevista por Freud em As perspectivas futuras da terapêutica psicanalitica ,onde diz que as criticas à psicanálise apenas comprovariam sua veracidade. No entanto a verdade contida no recalcado é diferente conforme o momento da cultura a que se refere. E é na interpretação da expressão atual do recalcado a que estamos convocados.
As respostas a esta questão não pode ser indiferentes ao psicanalista.
Dr. Marcio Peter de Souza Leite
·         Médico, psiquiatra
·         Psicanalista
·         Diretor-Geral da Escola Brasileira de Psicanálise-SP
·         Autor Psicanálise Lacaniana, Ed. Iluminuras, 1999
Bibliografia
Lacan, J., Escritos. J. Zahar Editor, R.J., 1998
Touraine, A Critica da modernidade. Ed. Vozes, R.J. , 1994
Carlisky,N. e al. Vivir sin proyecto, Ed. Lumen, Bs.As., 1998
Rojas,M. e al. Entre dos siglos, uma lectura psicoanalitica de la posmodernidad, Lugar editorial, Bs. As., 1997
Fonseca, M Michel Foucauld e a constituição do sujeito, EDUC, S.P., 1995.
Milner, J.C. Jacques Lacan pensamento e saber, in Lacan você conhece?, Cultura ed. Associados, S.P. 1992.
Lyotard, J F., O pós-moderno explicado às crianças, publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993.


domingo, 28 de janeiro de 2018

QUANDO O ANIMAL É MERO OBJETO DE AFETO E MANIPULAÇÃO NARCISISTA....



Recentemente, o caso da enfermeira que maltratou um animal na frente de uma criança transformou-se em verdadeiro drama nacional.

Mensagens de ódio e ameaças de morte vindos de todos os lados tinham como alvo a tal enfermeira, que terá seu registro profissional cassado.

A justiça brasileira tem feito o possível para atender às milhares de manifestações contra a enfermeira “assassina”.

A mesma indignação não é vista, porém, sobre os casos de homicídio ou infanticídio.

O que está acontecendo?

O que dizem os especialistas sobre isso?
“Congelei meu passarinho porque não tive coragem de enterrar”
“Pessoas que apresentam um grau de depressão ou de carência muito elevado estão mais suscetíveis ao apego em excesso pelos seus bichos”, diz o psicólogo Paulo Tessarioli.

“Muitas vezes, essas pessoas vivem em função do sue animalzinho, esquecendo muitas vezes da sua vida social, por exemplo”, diz.

“Pela minha experiência em consultórios, o homem não pode viver sem dar carinho.
Por isso quem sente dificuldade em mostrar afeto canaliza essa necessidade nos animais de estimação.
Essas pessoas demonstram amor pelo cachorro, mas não conseguem dizer aos próprios pais que os ama”, contou a psicóloga clínica Mirian Santos, da organização não-governamental Espaço Família.
O amor aos animais está em alta.
Eles alcançaram o posto de membros da família, mas em alguns casos são a única família.
Segundo especialistas, o que acontece é reflexo de uma crescente incapacidade no trato com humanos.
Mirian Goldenberg, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que o que mudou, também, é que a sociedade ficou mais individualista.
 “As pessoas percebem mais reciprocidade do que nos relacionamentos convencionais, onde se sentem constantemente cobradas e criticadas.”
Muitas vezes esse comportamento denota uma tendência antissocial muito forte além da repulsa por seres humanos. 
A fisioterapeuta Egle Della Paschoa, de 29 anos, é noiva e seu futuro marido terá de adotar Beatriz, sua cadela vira-lata, pois, dela, Egle não abre mão.

“Ela é minha filha, sim, e não me importo com o que as pessoas pensam disso.
Eu não faço questão de manter muita proximidade com quem não gosta de animais”, diz.
Segundo o psicólogo Guilherme Cerioni, cuidar de animais é uma forma de receber de volta o amor que doamos.
 “As pessoas, hoje em dia, sentem dificuldade de se relacionar ou de estabelecer um vínculo social, por diversos fatores da forma de vida contemporânea”.
O animal aceita qualquer companhia independente dos problemas sociais e psicológicos que a pessoa tenha, então se trata de uma verdadeira terapia.
Qualquer coisa que a pessoa espere dos seres humanos e se vê frustrada pode ser compensada na companhia dos animais de estimação.
Ainda assim, lembre-se de que é impossível viver sem o afeto humano.
“O animal não pode se tornar uma armadilha de isolamento afetivo e social”, afirma a psicóloga Malu Favarato.


sábado, 27 de janeiro de 2018

É PRECISO CAUTELA NO AMAR, PARA SUPORTAR SER ODIADO....

É PRECISO CAUTELA NO AMAR PARA SUPORTAR SER ODIADO..

O ódio, o ataque de fúria ou ciúmes de quem até a pouco TEMPO ti declarou AMOR é UMA AMOSTRA GRÁTIS DO ÓDIO essa é a  face oculta de todo AMOR.

O ódio é a face oculta do AMOR revela o potencial oculto de desamor, desamparo e imperfeição pelo objeto do imaginário AMADO (A).

Neste caso o ódio é algo do tipo do fundo do baú, escondido entre teias e coisas esquecidas da infância edípica de cada um de nós, uma espécie de tesouro narcísico que se revela o quanto de narcísico e infantil e provoca imaturidade no AMAR do adulto.

O ódio é um desejo inominado do narcísico do sujeito que ti AMA, mas (ama demais a si mesmo) e obtém gozo mimado na fúria, no ciúmes, e com palavras ofensivas, direciona ingratidão ao objeto amado que pode sim se espedaçar ou morrer.

O objeto AMADO passa a ser considerado faltoso imperfeito quando remexe, transfere de forma selvagem conteúdos  sem saber desse baú infantil narcísico do meu AMAR de cada um de NÓS.

Dr. Luiz Mariano é Psicanalista e Professor de Psicanálise 


domingo, 12 de novembro de 2017

RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA....

RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza.
Por exemplo a palavra vida.

Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.

Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,que é capaz de esvaziar o vigor da língua.

O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade.
Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo
, a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.

Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.

Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra LIMPA é uma palavra possível.

Viviane Mose
 É Psicanalista, Doutora em Filosofia e Escritora


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"O VAZIO SENTIMENTAL DO NEONARCISISMO" (EXCELENTE ARTIGO / MENÇÃO HONROSA)

O VAZIO SENTIMENTAL DO NEONARCISISMO

A personalidade começa quando a comparação acaba.” 
(Karl Lagerfeld)

O presente artigo tem por objetivo discorrer sobre o vazio sentimental do neonarcisismo. Ou seja, o sujeito da era contemporânea.

Vivemos um tempo, onde as pessoas vivem sob um narcisismo compulsivo – , porque, as pessoas não são consumidas somente pela massa que nos oferta tudo desde: roupas, sapatos, bolsas, jóias, aparelhos eletrônicos, e, assim, sucessivamente; mas de um consumo da sua própria identidade – de um Eu sádico.

Percebesse que pessoas atuam o tempo todo.

Por isso, o desejo é sempre o desejo do desejo do outro, que transmuta para o vazio.

O Narciso, ou a estratégia do vazio, aprofunda a descrição do processo de personificação, a partir da figura de Narciso.
Não propriamente o Narciso freudiano, estamos vivendo um neonarcisismo, de exaltação do eu e da resignação da vida social.
Extravia-se, o caráter progressista e a ideia de compartilhar ideais. Certamente, o individualismo está envolto pelo véu do coletivismo, onde atuam poderosamente as redes sociais.
A sedução de desejar o outro, não se trata de uma superestrutura, de uma ideologia, mas sim, de um espetáculo, que desencadeia em metamorfoses.
Todavia, o real tem representação desleal.
A sedução não trabalha em função do mistério, mas funciona em função da informação, do feedback, como se fosse um strip-tease integral e difuso.
O neonarcisismo leva ao vazio sentimental: “se pelo menos o sujeito contemporâneo pudesse sentir alguma coisa (…)”.
“As perturbações narcisistas do caráter não são mais fixas e de sintomas neuróticos”. O grande barato hoje está certamente em não demonstrar sentimentos reais. Fuga de qualquer vestígio sentimental.
O narcisismo pós-moderno traz o desafeto social.
Parece-nos possível viver sem ideais, sem objetivos vitais – viver o presente e centra-se em si mesmo.
O sujeito vive de acordo com Lasch: uma “perda do sentido da continuidade histórica”.
O sujeito consome a si mesmo e/ou a própria existência, onde a atitude calorosa é substituída pela atitude fria.
Desse modo, ocorre uma valorização do narcisismo, que vai ser chamado por Lipovetsky de neonarcisismo. (…)
Estamos longe da estética monadológica, o neonarcisismo é psicologia popular.
As relações são líquidas, precárias, passageiras, onde o neonarcisista não suporta por muito tempo uma forma de viver em coerência com o outro.
Mas, se porventura, sentir e/ou pensar que o outro está sendo mais importante do que a si mesmo, logo, encontra-se uma maneira de se desfazer dessa relação, pois, o que conta é a sedução – caso o novo narciso se sentir ameaçado, ele se desfaz de forma indiferente daquele que fora tão instigante outrora para o seu jogo sedutor.
Portanto, o fenômeno não se trata de um niilismo “passivo”, é o niilismo da indiferença.
Deparamo-nos com sujeitos frios / intocáveis.
Desse modo, podemos pensar que esteticamente os neonarcisistas precisam manter distância do mundo exterior, ou seja, viver apenas pelo prazer do espetáculo, sem finalidade e sentido, em sequências instantâneas.
Estão todos a vista dos espetáculos intocáveis, a partir das suas telas mecânicas, tudo pode aparecer e, frequentemente, desaparecer.
“O desejo de morte é também uma das faces do neonarcisismo, da desestruturação do Eu.
O indivíduo pós-moderno tenta se matar sem querer morrer.”
A solidão se tornou uma realidade.
Após o abandono social dos valores e das instituições, é a relação com o Outro que, segundo o mesmo método, rende-se ao peso no processo de desafeição.
O capitalismo foi espedaçado pelo contemporâneo, ocorreu um rompimento.
O primeiro a observar isso foi Baudelaire: “o belo é inseparável da modernidade do contingente. Surge o ódio da tradição e obsessão pela renovação total.”.
“A nova guerra não é apenas mais sanguinária e mais destrutiva do que qualquer outra guerra de outras eras, devido à perfeição enormemente aumentada das armas de ataque e defesa; é, pelo menos, tão cruel, tão encarniçada, tão implacável quanto qualquer outra que a tenha precedido.” (Freud, 1915/1976: 280).
O narciso da modernidade alimenta uma ilusão, ele acredita que entende a realidade dos fatos da sociedade contemporânea.
No entanto, não é difícil entender essa modernidade liquida do neonarciso: somos filhos de uma cultura na qual o indivíduo capitalista vale mais que a comunidade e suas regras.
E com isso ele consome para não ser consumido.
A realidade contemporânea é sádica e consumidora para se manter no exercício da pulsão de vida, quando na verdade, há no interior desses sujeitos uma imbatível pulsão de morte.
No consumo das necessidades afetivas e narcisistas, a busca é pela satisfação dos desejos desse sujeito contemporâneo – lotado de fantásticas fantasias!
No mundo contemporâneo, a compulsividade incessante, segue o modelo dos vícios da compulsão a repetição.
O sujeito busca a satisfação de suas peculiares fantasias, que, nada mais é, do que uma sensação passageira.
Por isso, existe a necessidade de retroalimentação imediata, porque, se depara novamente com o vazio e para manter-se em algum lugar, seu vício necessita da repetição.
E, isto, só faz com que se aumente a velocidade de produzir novos cenários para atuação do sujeito esperando tirar dessa condição algo como uma realização.
Concluímos, com essa linha de pensamento, que não existe realização, pois realização é o grand finale, que só será atingido no gozo final, com a morte.
Luziane Del Carro Soprane
Psicanalista – ES

Referências:
– LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Barueri, SP: Manole, 2005a.
– A Sociedade Pós Moralista: O crepúsculo do Dever e a Etica Indolor
dos Novos Tempos Democráticos. Barueri: Manole, 2005b.
– LASCH, C. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
– FREUD, S. Além do princípio do prazer. Edição standard brasileira das
obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
– Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. CAMPBELL, C. A ética romântica e o espírito do consumismo moder-no. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
– ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2005.



sábado, 24 de junho de 2017

O MEDO DA FELICIDADE...

O Medo da Felicidade Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreend...