quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Professora e Psicanalista Inglesa Ella Sharpe


Ella Sharpe

Ella Sharpe (1875-1947) nasceu perto de Cambridge, Inglaterra.
Ela estudou literatura, teatro e poesia na Universidade de Nottingham e trabalhou como professora até os quarenta e poucos anos. Seu interesse pela psicanálise se desenvolveu a partir de seu amor pela literatura e seu trabalho de ensino com jovens. Ela foi analisada por Hans Sachs em Berlim e tornou-se membro do BPAS em 1921.
Ela era um membro ativo como professora, supervisora ​​e analista de treinamento. Ela estava envolvida e fez contribuições significativas para as Discussões Controversas.
A crença de Freud de que os temas essenciais de sua teoria se baseavam nas intuições dos poetas e que a psicanálise nasceu como resultado da transposição científica das escolas literárias de que ele mais gostava estava incorporada na prática de Sharpe e em seus escritos. 
Seu livro Análise de Sonhos: Um Manual Prático para os Psicanalistas foi publicado em 1937, ainda está impresso, e atualmente (2015) está sendo traduzido para o japonês. 
Seus interesses a levaram para a prática real da psicanálise e também para as teorias e conceitos que sustentam seu trabalho diário. 
Ela escreveu sobre arte visual, estética, imaginação, criatividade, metáfora e simbolismo. 
Todos os seus trabalhos sobre técnica, teoria e interpretação literária, a maioria dos quais apareceu no IJPA durante a sua vida foram publicados em 1950 como Collected Papers on Psychoanalysis.
O apelo de Ella Sharpe é instantaneamente compreensível quando se lê seus papéis. 
Ela possuía uma franqueza e franqueza que é rara na escrita psicanalítica. 
Sua abertura em relação ao seu trabalho clínico e a honestidade com a qual ela convida o leitor a ver o funcionamento de sua mente é mais desarmante. 
Ela tinha um bom estilo de prosa e uma apreciação experiente da arte de ensinar. 
Seu uso intuitivo de sua própria mente levou a uma apreciação da contratransferência duas décadas antes de Heimann, Winnicott e Racker finalmente colocarem o conceito no mapa teórico. 
Uma geração antes de Lacan, através de sua formação em literatura, e particularmente baseando-se em seu conhecimento da dicção poética da poesia lírica, ela já estava escrevendo sobre a importância da linguagem e sobre a gramática do inconsciente.
Ela é provavelmente mais conhecida agora por seus sete artigos sobre técnica. Nestes, originalmente apresentados como seminários para candidatos do BPAS na década de 1920, ela demonstra como ela colocou a criatividade pessoal e o uso imaginativo de si no coração do processo psicanalítico. 
Seu primeiro trabalho é dedicado exclusivamente ao analista e ao que ela considerou as qualificações essenciais para a aquisição da técnica. 
Ela colocou uma forte ênfase na necessidade de qualquer aspirante a analista reconhecer que ele deve, em primeiro lugar, ser um paciente. De fato, ele deve sempre se considerar um paciente. 
Essa atitude faz toda a diferença entre adquirir uma técnica que é uma entidade viva e não uma letra morta. 
A psicanálise é tanto uma ciência quanto uma arte. 
Ela escreveu: “A psicanálise deixa de ser uma ciência viva quando a técnica deixa de ser uma arte. 
O corpo do conhecimento aumenta pelo aumento da habilidade técnica, não pela astúcia especulativa. 
Ela acreditava que a prática clínica era moldada pelos conteúdos internos da mente e pela presença naquela mente da capacidade de movimento e elasticidade.
Ella Sharpe acreditava que nenhum psicanalista podia entender tudo sobre um paciente, não importava há quanto tempo ele conhecia o paciente, nem como o analista era experiente. 
No que diz respeito à compreensão da mente, ela acreditava que o grau de insight que alguém poderia ter em uma direção frequentemente seria acompanhado por uma cegueira correspondente em outras direções. 
Ella Sharpe sabia que o conteúdo de novas ideias oferecia avanço para a humanidade e aqueles que produziam novos conteúdos mereciam respeito, mas as ideias, uma vez públicas, estavam democraticamente disponíveis para todos. 
Mas acima de tudo, a libertação de uma mente individual era primordial e a celebração dessa liberdade na vida diária era prova de sua durabilidade.
 Explicando os benefícios que ela obteve do trabalho de sua vida, ela escreveu:
"Enquanto a nossa tarefa reside principalmente na mente inconsciente do paciente, mas pessoalmente eu acho que o enriquecimento do ego através das experiências de outras pessoas não é a menor das minhas satisfações. Dos limites limitados de uma vida individual, limitada no tempo e espaço e Eu experimento uma rica variedade de viver através do meu trabalho, contato com todos os tipos e tipos de vida, todas as circunstâncias imagináveis, tragédia humana e comédia humana, humor e severidade, o pathos dos derrotados, os incríveis avanços e vitórias que algumas almas Talvez por isso eu pessoalmente esteja mais feliz por ter feito minha escolha da psicanálise, a rica variedade de todo tipo de experiência humana que se tornou parte de mim, que nunca teria sido minha experiência ou compreensão em um única vida mortal, mas pelo meu trabalho ".
Maurice Whelan 2015



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A CRISE DA PSICANÁLISE É RESISTÊNCIA AO REPENSAR


CRISE DA PSICANÁLISE.

Desde suas origens a psicanálise sofre ataques, seja pela descoberta de seu objeto, o inconsciente, pelo método de investigação, seja pelo campo de pesquisa e atuação, a clínica.
Enfim, mais de 100 anos se passaram desde a invenção da psicanálise e ainda há grandes embates teóricos a respeito de suas origens epistemológicas na tentativa de colocar em cheque seu estatuto científico e consequentemente sua validação enquanto procedimento terapêutico. Tal como em seus primórdios os ataques não advinham apenas de seus opositores e adversários, os maiores ataques vieram de dentro da psicanálise.
Ana Maria Rudge (2006) em seu texto, As teorias do sujeito contemporâneo e os destinos da psicanálise, argumenta sobre a necessidade entre os psicanalistas de situar sua ciência em nosso tempo histórico com o objetivo de aplacar as críticas que são cada vez mais ferrenhas. Em ataque ao olhar psicanalítico à singularidade há a acusação de ignorar as dimensões históricas e políticas do sujeito contemporâneo.
Rudge (2006) considera legítimos os esforços dos psicanalistas em buscar compreender a realidade cultural, contudo, considera “saídas um tanto apressadas e simplistas que evitam a via mais árdua da construção de teoria” (p.12) que chegam a ter efeito oposto à revitalização do campo psicanalítico e acabam se aliando ao ataque à psicanálise, considerado pela autora, uma “identificação com o agressor”.
Como exemplo, Rudge (2006) destaca as hipóteses de Charles Melman em O homem sem gravidade, considerando essa publicação um paradigma justificado pela repercussão entre os psicanalistas brasileiros e franceses. A ideia de Melman (2008) é a de que precisamos de uma “nova versão psicanalítica do sujeito contemporâneo”, e que uma “nova economia psíquica” estaria organizando o psiquismo, isto é, a economia psíquica passada, pautada na psicanálise clássica de Freud, organizada pela repressão, estaria superada, dando lugar à exibição do gozo. Por estes e outros ataques é que se anuncia uma “crise” da Psicanálise.
Entendemos que “crise” não seria o termo mais assertivo, uma vez que remete a um momento crítico e decisivo. A história do movimento psicanalítico nos revela que os ataques sofridos pela psicanálise atualmente são de natureza semelhante aos presentes em seu surgimento - e que a acompanham desde então. À vista disso, pensamos com Freud (1925/2006) e compreendemos este momento como típico, um movimento de resistência, próprio da psicanálise, uma vez que remonta a sua a própria história.
Freud em “As resistências à Psicanálise” (1925/2006) evidencia que as críticas a sua ciência não ficaram no plano intelectual das discussões epistemológicas, elas foram além, e vieram carregadas de exaltação dos humores e conclui que as explosões de indignação e escárnio sugerem outras resistências.
As resistências são atribuídas ao fator sexual da teoria psicanalítica, ou melhor, a força da sexualidade, de Eros, tanto na vida individual normal e patológica, como no âmbito das realizações culturais de mais alto valor para a sociedade. A principal crítica no plano individual foi a respeito dos sintomas das neuroses constituírem formas substitutivas de satisfação sexual, revelando o caráter patogênico que os padrões sociais excessivamente rígidos podem infligir ao indivíduo; a psicanálise foi acusada de pansexualismo e assim, uma ameaça a sociedade por incentivar a promiscuidade.
No plano social/cultural foi acusada de ferir, degradar os mais elevados valores culturais ao sustentar que a arte, a religião, e a ordem social, são também originadas de uma contribuição da sexualidade desviada de seu objeto imediato.
Enfim, desde sua origem as resistências mais fortes à psicanálise surgiram de fontes emocionais, de “algo” que a psicanálise anuncia e denuncia, e do qual não queremos saber. 
Partimos dos argumentos do próprio Freud e levantamos a hipótese de que ainda resistimos à descoberta psicanalítica da teoria dos instintos/pulsão, ainda resistimos à sexualidade infantil, resistimos ao caráter primordialmente sexual na origem de nossa mente. Resistência marcada seja pelo escárnio dos adversários da psicanálise, ou pela racionalização conceitual demasiada, muitas vezes dos próprios psicanalistas ou estudiosos da psicanálise, que transformam a força indomável das pulsões em abstrações e intelectualismo, como observou Freud.
Freud (1925/2006) admite, com pesar, que os psicanalistas não fogem a resistência que a psicanálise desperta. Entendemos também que da mesma maneira que se reivindica uma “psicanálise contemporânea”, uma psicanálise diferente da do pai, existe a dificuldade de renunciar o prestígio e proteção que a psicanálise representa e assumir-se e arriscar-se por conta própria. E assim, tal como o filho deseja, se desagrilhoar do pai, tido como conservador.
Sabe-se da importância que o tempo histórico e a cultura têm para o pensamento psicanalítico, enfim, “que o social é constitutivo da subjetividade humana”. (Honda, 2009, p.97). Não podemos deixar de evidenciar, entretanto, que a postura dos psicanalistas “resistentes à psicanálise” possam estar motivadas também pela ideologia da pós-modernidade, em que se rechaça com veemência as metanarrativas, as teorias explicativas e organizadoras, os clássicos, enfim, em linguagem psicanalítica, aos impulsos ambivalentes direcionado ao pai.
A análise de Freud a respeito das resistências à psicanálise nos leva a refletir sobre esta possível “crise da psicanálise”, e lança luz ao momento social e cultural que estamos vivenciando atualmente. Mesmo com o desenvolvimento tecnológico e científico acumulados, ainda os impulsos implacáveis e ambivalentes que habitam o humano não deixaram de impor sua força e com a mesma intensidade que nos atingiu nos primórdios da civilização.
Talvez a resistência à psicanálise não dure para sempre como Freud pensou, entretanto, sabemos que esta ciência ainda fere o narcisismo humano, ainda fere nosso desejo de onipotência, de completude. 
Sabemos também que ela continua a denunciar e criticar o funcionamento da sociedade, pois, o mal-estar se instala em qualquer tempo, em qualquer cultura.
Entendemos que por mais que mudanças sociais, econômicas, culturais tenham ocorrido neste intervalo de tempo, a civilização ainda se sustenta na repressão dos nossos instintos.

Por Isabelle Maurutto Schoffen
Psicóloga clínica, mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá, colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise: teoria, clínica e cultura.

Referências

Freud, S. (2006). As resistências à Psicanálise. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 19, pp. 235-248). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1925) 

Honda, H. (2009). Subjetividade e Metapsicologia: a constituição conceitual da realidade psíquica. In: A. E. Tomanik, A. M. P. Caniato, & M. G. D. Facci (Orgs.) A Constituição do Sujeito e Historicidade. (pp, 63-104). Capinas: Alínea.

Melman, C. (2008). O homem sem gravidade – gozar a qualquer preço. (Sandra Regina Felgueiras, trad.). Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Rudge, A. M. (2006). As teorias do sujeito contemporâneo e o destino da psicanálise. In Ana Maria Rudge (org). Traumas. (pp. 11-21), São Paulo: Escuta.


domingo, 15 de julho de 2018

FERIDAS DO AMOR ADULTO OU DO MAL SABER AMAR....




As feridas do Amor adulto...?

Viriam da primeira infância (recalcada) sem linguagem
do sujeito/criança do passado esquecido

Desta maneira podemos induzir o paciente a regredir a todas as primitivas fases do amor passivo, quando, justamente como uma verdadeira criança a ponto de dormir, ele murmurará coisas que nos darão 'insight' do seu mundo de sonhos". (Ferenczi, 1931. p. 137).

Em outro artigo Ferenczi continua a desenvolver o seu pensamento nesta mesma direção:

"O paciente, entrando em transe, é uma criança mesmo, a qual não reage mais a explanações intelectuais; talvez responda somente ao afeto materno; faltando este afeto o paciente sente-se sozinho e abandonado na sua maior necessidade, e, portanto na mesma situação intolerável que o levou uma vez a uma divisão de sua mente e eventualmente à sua doença; assim, não é de admirar que o paciente não possa mais que repetir no agora da situação analítica, exatamente a mesma formação de sintoma que surgiu no momento do inicio de sua doença".

(Ferenczi, 1933, p. 160).


quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Felicidade é o Acaso, mas não é uma Prisão Afetiva




Fazer o outro (a) feliz é uma prisão e a gente vira presa de qualquer carrasco que nos liberte dessa prisão, e nos leve para outra prisão.

A Felicidade é o acaso e não mais uma obrigação ou dívida para com o outro.

A felicidade é a troca gratuita de sermos seres humanos do bem e livres, no sentido do outro (a) compartilhar seu tempo, diga sempre a sua compania me faz bem, mas sua ausência não me aprisiona nunca, ninguém é feliz ou amado (a) numa prisão afetiva.

Dr. Luiz  

segunda-feira, 5 de março de 2018

A ARTE DE AMAR...



“ O amor não resolve tudo.

Muito pelo contrário põe tudo a prova.

Achar que basta amar

E que tudo vai se resolver  é um engano.

O amor vai por o sujeito a Prova,

A saber o quanto somos fracos,

mesquinhos e desumanos

Egoistas, narcisicos na Arte

Amar sempre aguardando

algo em troca de Amor.”


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O MEDO DA FELICIDADE...

O Medo da Felicidade
Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.
Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.
Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.
Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.
O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.
O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!
Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.
Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.
Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.
Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank.
Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.
A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.
Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.
Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade.
Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.
A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.
Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente.
Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.
Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado.
Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!
Dr. Flavio Gikovate   (In-Memoriam)
Meu Mestre Compartilhe!

A PSICANÁLISE MODERNA E PÓS MODERNA

A PSICANÁLISE PÓS-MODERNA

A neurobiologia como o novo materialismo.

A insistência de termos como novo , atual, moderno, aplicados como adjetivo ao termo sujeito, apontam ao momento que se vive não só na psicanálise, mas em quase todas as atividades ligadas ao homem.
O momento atual, no que se refere à psicanálise , aparece determinado pelo questionamento que as neurociências produzem nos fundamentos da psicanálise, pois a neurobiologia ao negar a existência de um sujeito desejante, e ao considerar as condutas humanas unicamente como fruto da atividade neuronal condicionada pela ação dos neurotransmissores, radicaliza a elisão do sujeito feita pela ciência moderna, produzindo com isso uma alteração na responsabilidade que seria atribuída a um sujeito pelos seus atos.
Uma conseqüência clinica e ética desta face da modernidade se impõe através do uso de fármacos na terapêutica psíquica como único meio de transformação.
Esta proposta denuncia praticas nas quais o entendimento da conduta humana é visto como efeito de um cérebro sem sujeito.
Coloca-se no lugar do sujeito desejante uma mind, cuja única verdade está nas entranhas dos neurônios.
Lacan desde os anos 60, no texto Ciência e verdade, apontava o nada querer saber da ciência frente à verdade como causa do sujeito.
Seria como efeito desta forclusão da verdade como causa do sujeito , como diz Lacan que a ciência faz, que a neurobiologia aboliu o sujeito desejante ?
A posição de Lacan sempre foi clara, tendo afirmado, no texto Ciência e Verdade: "...somos sempre responsáveis da nossa posição de sujeito.
 Que isto se chame, onde quiserem terrorismo".
 O lugar do sujeito moderno na psicanálise
Propondo-se articular a psicanálise com a modernidade se poderia falar numa relação do sujeito com a historia? Lacan ainda em Ciência e verdade , posicionado-se sobre esta questão, utilizou a expressão "um certo momento do sujeito" como também ainda referindo-se ao sujeito, falou de "um momento historicamente definido", e ainda, em relação ao sujeito, se refere a "um momento historicamente inaugural".
A razão desta possibilidade de se temporalizar o sujeito, está na afirmação de Lacan de que o sujeito está definido em relação ao saber.
Como o saber muda , o sujeito também muda, causando o surgimento de um sujeito novo em função da nova relação deste com o saber.
Para Lacan o sujeito novo atualmente, seria o sujeito da ciência em tanto fundamento da modernidade do sujeito.
Levando-se em consideração a articulação existente entre sujeito e historia, para alguns autores o sujeito pós-moderno seria caracterizado por não ser mais um sujeito que tenha um saber compartido socialmente, o sujeito pós-moderno seria um sujeito sem paradigmas de consenso, seria o sujeito decorrente da mudança dos costumes sexuais, das mudanças ideológicas, seria o sujeito que sofre da ausência de ideais preestabelecidos.
Seria este sujeito pós-moderno conseqüência do novo materialismo introduzido pela neurobiologia atual, e que se caracteriza pela ausência de um sujeito desejante, ou seria este sujeito pós-moderno a conseqüência do "declínio" da Função Paterna, como apontou Lacan?
Qual a diferença de um sujeito moderno e o pós-moderno?
Para Lacan o aparecimento de um sujeito que se poderia chamar de moderno, está historicamente localizado a partir da publicação das Meditações metafísicas de Descartes , que com a operação do Cogito teria produzido este sujeito novo.
Situar o sujeito moderno como decorrente da operação Cartesiana, é centraliza-lo em relação à uma razão objetiva. Este sujeito "reflexivo", seria moderno por diferir de um anterior cuja característica seria a de ser centro do conhecimento.
Para Lacan o sujeito cartesiano é pressuposto da noção de inconsciente, pois a psicanálise, tal qual Descartes, parte do fundamento do sujeito da certeza, ou seja o sujeito pode ter certeza de si desde que se possa destacar no seu discurso duvidas que aparecem como reveladoras de um sujeito dividido.
O lugar do "eu penso" é para Freud independente do "Eu sou".
A questão da "modernidade" porem só se transformou em questão recentemente. Segundo Foucault , foi Kant quem inaugurou uma nova forma de pensar ao se perguntar sobre a "atualidade", fazendo do tempo presente um acontecimento a ser formalizado., e com isso introduzindo na filosofia a probematização da atualidade, instante onde Kant buscava os signos do progresso.
Passando por Hegel, a questão do "moderno" se cristalizou com Max Weber e Habermas que foram os primeiros a usar a palavra modernização como terminus associando-a à formação de capital, ao estabelecimento de poderes políticos centralizados, mas também propondo a modernidade como algo que se auto-consome, por ser ela uma intercessão entre tempo e eternidade.
Também as referencias de Lacan à ciência moderna, ao pensamento moderno, à era moderna, mostram sua preocupação com a relação do sujeito com o momento histórico no qual ele esta inserido.
No seminário III, sobre as psicoses, Lacan sugere que um dos temas que caracteriza o pensamento moderno é a idéia de um personagem vivendo só em uma ilha deserta, e menciona a Robinson Crusoe.
Lacan retoma esta referencia no seminário de Um Outro a um outro para sugerir que esta idéia representa o começo da era moderna, pois seria fundamental para o homem moderno poder afirmar sua independência, e sua autonomia em relação a todo amo e a todo Deus.
Lacan faz referencia ao homem moderno relacionado-o ao discurso da liberdade, da mesma maneira que faz referencia à uma arte moderna, e à ciência moderna , que segundo ele se caracterizaria pela eliminação do simbolismo religioso dos céus, o que possibilitou estabelecer os fundamentos da física atual.
Para Lacan a ciência moderna foi um acontecimento que decorreu como efeito do monoteísmo, fato que teria instaurado um mundo ordenado ao redor de um centro, abrindo com isto uma concepção unitária do Universo.
Ainda dentro desta perspectiva a ciência teria sido possibilitada pelo mito bíblico da criação ex-niilo, o que teria posto em funcionamento a potência creacionista do significante, outra condição das ciência .
Assim também a resposta dada a Moisés pelo anjo de Iavé que apareceu na sarça ardente, Sou o que sou, é o que faz com que Deus apareça como subjetividade absoluta , e eqüivaleu a um tu não saberás da minha verdade, fazendo a fronteira entre saber e verdade .
 O sujeito pós-moderno
Para Lacan foi Descartes quem através de seu cogito fundou o sujeito moderno. Caberia então a pergunta: há um sujeito que seja atual, e que fosse produzido por um saber novo compartido nos dias de hoje?
Um ultimo destino do sujeito surgiu atualmente no campo do saber e é sua desconstrução, o que funda um novo momento na filosofia, a que se chamou de "pós-estruturalismo" e que apresenta a morte do sujeito.
A possibilidade da inexistência de sujeito, teria inaugurado segundo alguns autores o que se pode chamar de subjetividade pós-moderna.
 Ainda para estes autores o sujeito pós-moderno não seria analisável, e este fato responderia pelo que eles chamam de "Declínio da psicanálise".
Questão que, levando-se em conta que existe uma articulação entre sujeito e historia, permite perguntar: como situar a responsabilidade deste novo sujeito no mundo moderno? Em que a psicanálise pode contribuir para modificar as formas contemporâneas do mal estar na cultura?
A questão que se coloca para os psicanalistas preocupados com a atualidade, seria então, como fazer um mundo novo, se todo discurso, todo laço social é semblante?
Como modificar a irresponsabilidade caracterizada pela ausência de sujeito na proposta da modernidade, exemplificada pela neurobiologia e restituir o lugar do sujeito, tal como aponta a psicanálise, sem cair nos ideais?
O analista entenderá sua época a partir dos novos semblantes que servem para distribuir o gozo, sendo a tendência para o gozo a direção da subjetividade moderna.
Poderíamos ate mesmo pensar que a contribuição da psicanálise à modernidade seria a invenção de um novo Cogito, que se poderia chamar de lacaniano , Cogito este definido como a conseqüência do inconsciente frente ao "penso logo sou" que produz "ou eu não penso ou eu não sou ", introduzindo ai um ser do gozo .
Para responder a estes desafios, o analista, ele mesmo também um produto da modernidade, deve avançar, assim como o inconsciente avança.
Enquanto os analistas se anestesiam entre si com suas querelas internas, a psicanálise passou a ser a bola da vez para os intelectuais que se dedicam a critica das produções cientificas.
Exemplo disso é a recente versão para o português do livro editado pelo The New York review of books, de autoria de Frederick Crews, The memory wars: Freud’s legacy in disputee e também Imposturas intelectuais de Sokal e Bricmann. Há também, ainda sem versão em português o livro de Richard Webster, Why Freud was wrong, além dos antigos A psicanálise essa impostura de Pierre Debray-Ritzen, e A decadência do Império Freudiano de Eysenk .
Todos eles tem em comum a tentativa de produzir um confronto da psicanálise com os modelos atuais da ciência.
Ciência que na área da conduta humana está dominada pelas ciências cognitivas, que via filosofia da mente se sustenta na neurobiologia. Neurobiologia que transcendendo suas funções passou a ser o parâmetro de um novo materialismo, pretendendo, desde sua perspectiva, abordar o sujeito, mesmo que negando-o.
Esta situação, embora definida dentro novos parâmetros, não é nova para a psicanálise, sendo mesmo sua rotina prevista por Freud em As perspectivas futuras da terapêutica psicanalitica ,onde diz que as criticas à psicanálise apenas comprovariam sua veracidade. No entanto a verdade contida no recalcado é diferente conforme o momento da cultura a que se refere. E é na interpretação da expressão atual do recalcado a que estamos convocados.
As respostas a esta questão não pode ser indiferentes ao psicanalista.
Dr. Marcio Peter de Souza Leite
·         Médico, psiquiatra
·         Psicanalista
·         Diretor-Geral da Escola Brasileira de Psicanálise-SP
·         Autor Psicanálise Lacaniana, Ed. Iluminuras, 1999
Bibliografia
Lacan, J., Escritos. J. Zahar Editor, R.J., 1998
Touraine, A Critica da modernidade. Ed. Vozes, R.J. , 1994
Carlisky,N. e al. Vivir sin proyecto, Ed. Lumen, Bs.As., 1998
Rojas,M. e al. Entre dos siglos, uma lectura psicoanalitica de la posmodernidad, Lugar editorial, Bs. As., 1997
Fonseca, M Michel Foucauld e a constituição do sujeito, EDUC, S.P., 1995.
Milner, J.C. Jacques Lacan pensamento e saber, in Lacan você conhece?, Cultura ed. Associados, S.P. 1992.
Lyotard, J F., O pós-moderno explicado às crianças, publicações Dom Quixote, Lisboa, 1993.


Professora e Psicanalista Inglesa Ella Sharpe

Ella Sharpe Ella Sharpe (1875-1947) nasceu perto de Cambridge, Inglaterra. Ela estudou literatura, teatro e poesia na Universi...