segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Paradoxo do Amor e a Dor das Paixões


 A história da nossa civilização humana é feita de “o amor e muitas paixões isso sempre foi um paradoxo aqui tema de nosso estudo de psicanálise.

Lacan diz: O que falta ao amante é justamente o que o amado não tem.

A construção dessa ponte ou desse analítico (um saber de mim, autoconhecimento de si) é o encontro, um convite para investigar os fundamentos do amor, vemos que o mesmo se apresenta, de várias formas que é quase a mesma forma artística dos poetas que já sabiam disso em suas poesias.

Na psicanálise nem sempre o encontro da verdade com o saber não decifra toda a verdade, até porque nós somos seres simbólico que nos expressamos e existimos pela linguagem do insabido. . 

E é nessa angústia do desejo de saber o que é o amor, que se esbarra com algo indizível.

Por isso o que não pode ser dito ou escrito se converte como que numa mágica em suposto amor, ou numa maldição de uma paixão.

Seria esse amor: “Um mal, que mata e não se vê”, em “um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê” como diz  (Camões).

Amar e saber o que é Amar ou se apaixonar são coisas distintas na psicanálise.

O Amar é um momento bom que nunca se esquece; é reinventar-se para a Vida tomar novo sentidos na existência do indivíduo do seu mundo, quem ama vê o mundo com um olhar mais adocicado e vivo o amor.

Agora Saber o que é amar é impossível. Porque “quem ama nunca sabe o que ama; nem sabe por que ama, nem o que é amar” (Fernando Pessoa). 
  

E nessa caminhada incerta que estamos diante da impossibilidade de saber toda a verdade, então com isso fala-se muito de amor.

Isso é o que vem sendo feito há séculos.
O filósofo Platão, em O Banquete, retrata os lugares do discurso: o do amante e o do amado.

O Psicanalista Francês (pós/Freud) Jacques Lacan (1901-1981) baseia-se no amor grego para articular o par amante-amado com a estrutura do amor.

O sujeito que ama é aquele que experimenta a sensação de que alguma coisa lhe falta na sua vida, mesmo não sabendo o que é essa “coisa” ocupa o lugar de sujeito do desejo (amante); aquele que sente que tem alguma coisa, mesmo não sabendo o que é, ocupa o lugar de objeto (amado).

O paradoxo do amor reside justamente no fato de que o que falta ao amante é precisamente o que o amado não tem. (Lacan)

Se a pulsão de Eros nasce de uma aspiração impossível, que se deseja de dois fazer um, uma unicidade do Amor. Nos seres humanos inventaríamos o mito do amor, sustentado na promessa de felicidade eterna para ambos, e para isso nesse jogo do amar, vale quase tudo.

E, enquanto isso não vem (o amar e amar) o bem se transforma em mal, inaugurando uma escola de amor infeliz chamada “Paixão” e é nas paixões que temos as inscrições de incertezas, medos, infelicidade, carência afetiva, faltas, questão do Édipo não resolvida adoeceu e quase tudo em nome dessas paixões

 Nessas paixões muitos líderes políticos e religiosos também podem se usar desse expediente para manipular a direção de seus subordinados para obter seu gozo perverso do poder. 

Freud e a teoria da Sexualidade Humana

Em O Mal estar na Civilização, Sigmund Freud (1856-1939) adota a versão do amor que se encontra no poema “Sobre a Natureza”, do filósofo grego Empédocles (490-430 a.C.):

Eros é uma força que tende para a unificação.

Freud em seu escrito As Pulsões e Suas Vicissitudes (traduzido em português por Os Instintos e Suas Vicissitudes). O pai da Psicanálise cria o conceito de pulsão para construir uma teoria da sexualidade humana: as pulsões são os representantes psíquicos de estímulos internos, (individuais de cada sujeito) isso se situando no limite entre o psíquico e o somático, (entre o Corpo e a Alma) e a essas se apresentam divididas em pulsões sexuais e pulsões do eu (pulsões de autoconservação/preservação). 

As pulsões sexuais infantis (oral, anal e genital) (Eros e Tânatos) são constituídas por quatro elementos (impulso, fonte, alvo e objeto), passam por quatro processos de transformação: reversão a seu oposto, retorno em direção ao próprio eu, recalque e sublimação.

A reversão o seu oposto caracteriza-se pela transformação do Amor em Ódio.


Essa transformação a que se refere aqui é um tanto quanto o tempo arcaico, regido pelo auto-ergotismo que têm suas origens em nosso (narcisismo primário) o qual também é dividido em duas fases.

Primeira fase, as pulsões do (Ego) e as pulsões sexuais têm o mesmo alvo, porque ainda não se separaram: é a satisfação autoerótica.

Sob o domínio do princípio de prazer, constitui-se um eu primitivo, interessado pelo que lhe dá prazer e desinteressado do que lhe dá desprazer.
  
E é nessa indiferença, nomeada de “repúdio primordial do ego narcísico” que se inaugura o ódio e o sujeito passa a precisar de um objeto. 

Na segunda fase, o ego sai da sua realidade e pode ser transformado em Ego do prazer purificado (sem culpa e sem pecado).

O Neurótico assim consegue realizar a distinção entre o fora e o dentro pela via da fantasia:

Via de regra o que causava desprazer e era odiado é expulso do próprio corpo, passando a constituir, então, o campo dos objetos; o que causava prazer passa a ser amado e, como tal, incorporado ao próprio corpo (prazer).

É importante ressaltar que a precedência do ódio sobre o amor está diretamente ligada às suas fontes primárias e maternais e do complexo de (Édipo).

O ódio nasce sob o domínio do princípio de prazer e o amor inaugura-se no momento em que se constitui a pulsão ao princípio de realidade do sujeito.

É dessa fusão do amor ao ódio que se resulta no ser humano a capacidade e força da primeva do amor, nascem assim à ambivalência a que todos estamos sujeitos a períodos de (amor / ódio). 

Sobre o Narcisismo: uma Introdução, Freud aborda o amor a partir da escolha de objeto.

  
Nós seres humanos “neuróticos” temos sempre dois objetos sexuais (Pai e Mãe) eles desempenham as funções simbólicas de alimentação e de proteção a que desejamos e buscamos por toda nossa vida.
  
Em função disso, temos sempre duas escolhas:

A narcísica e Analítica. (Na analítica o sujeito descobre que é responsável por si, na Narcísica o sujeito é responsabilizado para ser um “Objeto” e não um sujeito / indivíduo por si. 

Na escolha narcísica, ama-se o que se é normalmente (a si mesmo) e ou / o que se foi ou o que se gostaria de ser.

Aqui, o objeto é amado com a mesma intensidade que outrora o ego do prazer fora amado no auto-erotismo.

Na escolha analítica, Ama-se a parte do eu que foi renunciada e transferida para o objeto, fazendo com que o objeto seja revestido das funções materna e paterna: a mulher que alimenta ou o homem que protege. 

Sigmund Freud retoma, em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, a escolha do objeto amado pelos mecanismos de idealização e de identificação.

 Na conceituação da idealização haverá o engrandecimento do objeto e a identificação pela forma mais arcaica de laços afetivos com o objeto. (Édipo)

Esse ideal será o investimento (amor) o ego vai à busca do objeto o que implica não só o empobrecimento desse Ego, mas também a sua ligação com o objeto, mesmo depois da perda ou do abandono.

A questão da separação é vivida como uma espécie de espedaça mento do objeto amado, fazendo com que o Ego experimente a dolorosa sensação de que uma parte de si mesmo foi arrancada para sempre é um fim e não o “Fim”.

Com isso na identificação, a perda ou o abandono do objeto leva à incorporação de suas propriedades pelo ego.

Assim, nessa conceituação de idealização, o objeto é colocado no lugar do ideal do Ego, e, na identificação, o objeto é colocado no lugar do seu próprio Ego. (Os perigos de Paixões Ciumentas e possessivas). 

Com isso o “sujeito” que dizia ou se declarava “amar” ingressa com seu “Objeto” no reino da paixão (Narciso), onde o amante, encantado pelo “objeto amado” é levado à escravidão emocional ou sexual ou servirá de algum um tipo de servidão perversa sem limite e sem ética ou compaixão.
  
A paixão é cega e nessa escuridão da paixão, o enamorado pode inclusive ser arrastado ao impulso do crime * (Pulsão de Morte) isso por não corresponder ao imaginário do meu amor.

A perda do objeto da paixão converte o amor em ódio (em segundos) fazendo com que o desejo de posse se transforme em desejo de destruição. 

Para Lacan, em seu projeto de retorno à obra de Freud, faz questão de enfatizar que é preciso distinguir entre o amor como sentimento da paixão e o amor como dom ativo.

O amor como paixão inscreve-se no plano das relações imaginárias, nível das relações especulares, em que as imagens do eu e do outro se confundem.

Ao se inscrever no plano das relações “imaginárias” de cada um de nós a pergunta é o que será que falta ou sobra nessas relações imaginárias de cada um nós (Édipo).

O amor é um dom ativo inscreve-se no plano das relações simbólicas, dimensão da palavra, cujo registro é o da verdade, da mentira, da equivocação e do erro, quem ama terá que se assujeitar-se a tudo isso 

A paixão visa ao “Outro” como “Objeto” e o amor visa ao “Outro” como sujeito tendo sua individualidade. 

Nas paixões não “interessa” a individualidade para aquele se declara amar.

Na paixão, sempre há as exigências de provas de amor das mais bizarras, violentas e agressivas.

E nessa lista de exigências das provas de amor, quase nunca o apaixonado se dá por satisfeito, porque não se trata de ser amado, mas, sim, de querer ser amado do modo pelo qual se “imagina” que se deva ser amado.

Qualquer particularidade do outro amado tem de ser apagada para que se mantenha a fantasia de que de dois se faz um.

E nesse embrolho ao fracassar o sonho de amor, torna-se a causa do sofrimento de amor, o qual se transforma em ódio de si mesmo e do outro.

Na paixão, amar é querer apossar-se do objeto, capturando-o; e o odiar é querer desvencilhar-se do objeto, aviltando-o ou o destruindo se ele não corresponder ao meu imaginário.

  
Lacan afirma:

“O ódio não se satisfaz com o desaparecimento do adversário”. 

Para isso não vai bastar o exílio, a prisão, o assassinato; é preciso a injúria para denegrir o ser do outro odiado.

Se não se pode eliminar a existência do outro odiado na linguagem, o caminho da difamação é a via pela qual se tenta associar um nome à indignidade e à vilania.

Um terceiro elemento é acrescentado ao par amor-ódio:. a ignorância

O desejo de não querer saber está para a paixão assim como o desejo de querer saber está para o amor.

O amor como dom ativo está para além da fascinação imaginária, porque se dirige ao ser do outro em sua particularidade e respeitando seu sujeito.  

Talvez esse seja um Amor ideal; um amor que se inscreve no regime da diferença, onde dois não fazem um, mas dois continuam sempre dois. 


Em seu Seminário 4: a Relação de Objeto.

Lacan aborda outra modalidade do amor, aquele concebido como recusa do dom e situado em torno do que o objeto amado não tem.

Três elementos entram em cena: amante, objeto amado e para além do objeto.

O que se ama está para além do objeto.

E o que estaria nesse além senão a própria falta?

Lacan diz que o dom dado em troca não é nada:

o nada por nada é o princípio da troca”.

Na dialética da recusa do dom, o sujeito sacrifica-se para além daquilo que tem.

Então, amar é dar o que não se tem, e o acento está no amor, não no objeto amado.


Esse acento comparece no amor cortês (o trovadorismo dos séculos 12 e 13), na concepção barroca de amor, em Fernando Pessoa.

O que se ama é o próprio amor. 

                                                            “Na psicanálise amar é incompatível com a Paixão, a primeira precisa de um sujeito para preencher a falta e tentar transformar dois em “Um” isso é missão impossível e a outra (narcísica) precisa apenas de um mero objeto para exercer seu narcisismo e seu amor imaginário faltante” 

Dr.  Luiz Mariano

M.D. Psicanálise 
Clínica do Acolhimento de Escuta do Inconsciente 

Site do Consultório: www.drluiz.com

Fonte Consulta e Referências:  Psicologia de Grupo e Análise do Ego (Freud), O Banquete (Platão), Mal Estar na Civilização (Freud), Seminário 4  J. Lacan