sábado, 11 de março de 2017

FREUD POR FREUD AOS 70 ANOS

Sigmund Freud – Entrevista

No dia 6 de Maio de 1856 nascia Sigmund Schlomo Freud (Sigmund Freud) 
Hoje comemoramos o seu aniversário! Parabéns, Freud.


Transcrição para o português da última entrevista dada por Sigmund Freud em vida. A entrevista foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do “Journal of Psychology”, de Nova Iorque, em 1957. Trata-se de uma preciosidade.




S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).

S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

(Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial).

Por que (disse calmamente) deveria eu esperar um tratamento especial?
A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas – a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

George Sylvester Viereck pergunta: O senhor teve a fama. Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria Universidade.
   
S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.

George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?

S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liqüidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

(Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia).

S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão de flor do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?

S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?

S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás da conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.

S. Freud: É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readmitir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer. No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.

George Sylvester Viereck: Isto é a filosofia da autodestruição? Ela justifica o auto-extermínio? Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann?

S. Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte. Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós. Neste sentido (acrescentou Freud com um sorriso) pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio dirfarçado.

(Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete. Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud).

George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?

S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopolizá-la.

George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?

S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito a psicanálise?

S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente. Minha filha também é psicanalista, como você vê ...

(Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas).

George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiratório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados nele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impressão é que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa fazer compreender. “Tout comprec'est tout pardonner”.

S. Freud: Pelo contrário (bravejou Freud – suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu), compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.

(Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça).

S. Freud: Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.

(Fiquei algo desapontado com esta observação. Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças, que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente como ser humano. Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!).

George Sylvester Viereck: Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!

S. Freud: Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas, com freqüência, são também a fonte de nossa força.

George Sylvester Viereck: Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!

S. Freud: Uma análise séria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à “caça aos leões”. Você procurou sempre as pessoas de destaque para a sua geração: Roosevelt, o Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Bernard Shaw ...

George Sylvester Viereck: É parte do meu trabalho.

S. Freud: Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua busca é a busca do seu coração. Você está procurando o grande homem para tomar o lugar do seu pai. É parte do seu “complexo do pai”.

(Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda não suspeitada por mim, em sua sugestão casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele. Gostaria, observei após um minuto, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o meu coração através dos seus olhos. Talvez, como Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha própria imagem! Entretanto, receio ser muito informando sobre a psicanálise. Eu freqüêntemente anteciparia, ou tentaria antecipar suas intenções).

S. Freud: A inteligência num paciente não é impecilho. Pelo contrário, às vezes facilita o trabalho.

(Neste ponto o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores, que não gostam de excessiva segurança do paciente sob o seu escrutínio).

George Sylvester Viereck: Às vezes imagino se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o crimonoso e o animal.

S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

George Sylvester Viereck: Por quê?

S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de herós antigos como Aquiles e Heitor.

George Sylvester Viereck: Meu cachorro é um doberman Pinscher chamado Ajax.

S. Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!

George Sylvester Viereck: Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte responsável pelas complexidades da civilização. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado.
   
S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.

George Sylvester Viereck: Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discípulos torna o problema da condução humana mais intrigante e mais contraditório.

S. Freud: A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.

George Sylvester Viereck: Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que o senhor, apegando-se a cada pronunciamento que sai da sua boca ...

S. Freud: A vida muda. A psicanálise também muda. Estamos apenas no começo de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck: A estrutura científica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos – a teoria do “deslocamento”, da “sexualidade infantil”, do “simbolismo dos sonhos”, etc – parecem permanentes.

S. Freud: Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.

George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?

S. Freud: Respondo com palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: “Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo” (“Yet all were lacking, if sex were lacking”). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está “além” do prazer – a morte, a negociação da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor – como um passo para o aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a Whatever gods there be / That no life lives forever / And even the weariest river / Winds somewhere safe to sea. (“Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre / Que os mortos jamais se levantem / E também o rio mais cansado / Deságüe tranqüilo no mar”).

George Sylvester Viereck: Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas a diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante.

S. Freud: (sorrindo) Shaw não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas peças. Ele faz brincadeiras do amor de Júlio César – talvez a maior paixão da História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota. A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento. Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importãncia do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância. Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação.

George Sylvester Viereck: O senhor, sem dúvida, foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura?

S. Freud: Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto a sua intuição prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, e da insistência do princípio do prazer em predominar indefinidamente. O Zaratustra diz: “A dor grita: Vai! Mas o prazer quer eternidade Pura, profundamente eternidade”. A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista.
   
George Sylvester Viereck: O senhor não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes Harvrey O'Higgins e outros fazem-se de seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O'Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o senhor. AThe Silver Cord@, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Édipo.

S. Freud: Eu sei que eu apresento o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa da psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus. A América foi o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são julgadores inteligentes, raramente pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mãos dos médicos, pois uma formação exclusivamente médica é, com freqüência, um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando certas concepções científicas tradicionais ficam arraigadas no cérebro estudioso.

(Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores. Apesar da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador. Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade! Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus).

S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz – ao menos não mais infeliz que os outros.

(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância. E nunca mais o vi).
Postado por Souza às 08:22 2 comentários: 
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
Uma leitura possível para a compreensão dos entrelaces entre o orgãnico e a constituição do sujeito.

Por: Tatiana Inglez-Mazzarella.
É membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae,
doutoranda e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, autora do livro
"Fazer-se herdeiro: a transmissão psíquica entre gerações" (Escuta, 2006)

ResumoArtigo apresenta e discute o atendimento de uma criança de dez anos com paralisia cerbral. 

Apresento o material construído resultante do atendimento de uma menina de dez anos que realizei na Clínica do Instituto Sedes Sapientiae. Ao fazer parte de uma equipe com várias orientações terapêuticas, percebi minha necessidade de que o diálogo pudesse propiciar de fato uma troca, para além dos muros que delimitam os iguais e, simultaneamente, o quanto tal perspectiva reafirmava minha escolha pela psicanálise. Estive na clínica do Sedes por três anos. Em 2005, fui convidada, como voluntária, para um atendimento. Agradeço à Clínica, pelo espaço de atendimento e interlocução durante a formação, e a Andrea Favalli e Maria de Fátima Vicente pelo convite para atender a criança do presente texto.

O trabalho suscitou questões, das quais elejo algumas para discussão: quais as possibilidades e os entraves que o diagnóstico e as consequências de paralisia cerebral em uma criança podem apresentar para a subjetivação? Em face desse estado de coisas, de que lugar escuta uma analista? Pode uma análise produzir efeitos no corpo?

Era uma vez…

Certo dia de inverno, a rainha de um país distante, sentada à janela de moldura de ébano, bordava uma almofada, quando picou um dedo. A gotinha de sangue que apareceu fez a rainha pensar: “Quem me dera que a filhinha que espero tenha a pele alva como a neve lá fora, os cabelos negros como ébano da janela e os lábios rubros como a gota de sangue…” E no tempo certo nasceu-lhe uma princesinha linda, exatamente como a rainha desejara, que foi batizada Branca de Neve [4].

Há muito sabemos que o funcionamento adequado das funções orgânicas não é algo natural e decorrente apenas de fatores genéticos. Ao nascer, o filhote humano vem com um equipamento que inclui um cérebro, mas este precisará ser ativado por meio de estímulos que criam sinapses e possibilitam a passagem dos mensageiros químicos, ou seja, os neurotransmissores. As neurociências têm destacado que o itinerário cerebral está estreitamente relacionado com o meio e, que, portanto, não haveria um puro determinismo genético.

Parece-me possível, em relação ao nascimento do sujeito, adotar uma abordagem que aproxime a descrição do funcionamento dos mecanismos neurobiológicos do referencial psicanalítico, uma vez que as representações são construídas por meio do vínculo afetivo e fundamentam- se nas primeiras experiências vividas e mediadas pelos cuidadores. É nessa relação que vai se construindo a complexa arquitetura na qual se faz a passagem de um organismo a um corpo. A existência de um bebê começa antes mesmo de sua concepção e, quando a mãe o dá à luz, em geral, já lhe dera uma existência prévia, já lhe atribuíra um lugar que se constitui como um primeiro porto de ancoragem. Este é como uma manjedoura de palavras para um bebê idealizado, aquele dos “sonhos de desejos insatisfeitos de seus pais”. Como se dá a constituição do corpo desse bebê que, mesmo antes do nascimento, já ocupava um lugar? De que modo se relaciona este com a constituição do corpo erógeno?

O desamparo do filhote humano implica a impossibilidade de realização de um ato específico que venha a dar conta da necessidade e da pulsão. Ele tem, diferentemente de outros filhotes, um modo peculiar de necessitar de cuidados primordiais para sobreviver, uma dependência vital de quem dele cuida. O outro, indispensável em virtude do desamparo, da prematuridade e da impotência do rebento humano, é um outro humano sexuado, provido de inconsciente e que o tem como bebê que ocupa um lugar no seu desejo.

As possibilidades de investimento narcísico numa criança vêm de uma história de outros investimentos, para além da história de seus pais, mas que a incluem. Penso numa “história constitutiva” como fundo, mas também como moldura na constituição do corpo erógeno. Uma história que marca sua constituição por meio do que se diz/não se diz, do que se simboliza/não se simboliza. Enfim, uma história de restos, investimentos, segredos…

Para Freud, “O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos  pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior” [5]. O narcisismo primário e o eu ideal propiciam a construção de uma imagem idealizada do eu projetada pelos pais em seu filho, ou seja, ocorre o ressurgimento do narcisismo parental. No lugar de objeto, o bebê vai sendo investido libidinalmente por meio daquilo que seriam simples cuidados dispensados a um organismo. Algo mais se apresenta, pois amamentar, trocar, acarinhar são cuidados plenos de significados e desejo.

Para prosseguirmos, convém rememorar um pouco a etapa intrauterina. Depois de um longo período de gestação, durante o qual o bebê esteve completamente em dependência do corpo materno, aproxima-se a hora do nascimento. Até esse instante os aspectos fisiológicos foram contemplados numa relação mãe-bebê de maneira una, ou seja, o bebê parte do funcionamento da mãe: o cordão umbilical alimenta e oxigena, há um metabolismo integrado. Esse bebê encontra- se numa experiência de fusão com sua mãe, não há discriminação.

Ao deixar o interior do corpo materno, o bebê deixa de ser um órgão do corpo materno para se tornar um organismo. Bebê e mãe continuam a formar uma unidade, mas agora decifração, tradução e interpretação se fazem necessárias. A mãe tende a interpretar produções sonoras e motoras do bebê como se fossem seu prolongamento imaginário. Assim, sentidos vão sendo inscritos naquelas manifestações a princípio puramente somáticas.

Para Leclaire, o conceito de corpo erógeno, que designa uma espécie de duplo do corpo biológico, oferece certa vantagem em relação ao de psique, uma vez que traz em si a referência a uma das questões centrais da psicanálise: a economia libidinal. Ainda para esse autor, a reprodução é uma operação geracional, da qual participa cada um dos genitores com seu corpo erógeno. Isto significa que a organização dos pais

[…] está presente de modo ativo na concepção e, depois, na geração do corpo erógeno da criança, assim como nas relações libidinais entre os genitores, inclusive na posição que assumem diante do problema da reprodução e da geração: defesa, temor, exaltação desta função, desconhecimento ou exaltação da própria função erógena, ou seja, de toda vertente libidinal. [6]

O real põe a constituição do corpo erógeno em movimento, a partir do nascimento. Aquele órgão do corpo materno é agora um organismo bombardeado por estímulos e pulsões. Começa a se definir o tipo de investimento imprescindível para a existência desse bebê, o da erogeinização de seu organismo. A criança irá identificar-se com aquilo que supõe ser o objeto do desejo da genitora, isto é, com aquilo que faltaria à mãe, com ser o falo materno. Alienado no desejo materno, o bebê depende da entrada de um terceiro:

É preciso introduzir o que possibilita a saída do campo estritamente imaginário, no qual a imagem do bebê encontra-se refletida no outro. É com a entrada do terceiro, da função paterna, que advém a possibilidade da ruptura da célula narcísica mãe-bebê [7].

O atendimento

Meu primeiro contato com Cláudia foi por meio da história de seu atendimento na Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, relatada por sua terapeuta, que estava encerrando o estágio e se desligando do caso. O diálogo com esta colega, do qual participaram a coordenadora de equipe e a diretora da clínica [8], deu início à minha escuta. Questões acerca da estrutura e do entrelace orgânico/ subjetividade tiveram em mim efeito de ressonância, especialmente uma frase: “A mãe disse que teria um filho a qualquer preço!”. Após as três reuniões de discussão de caso, iniciei o atendimento. Optei por fazer primeiro entrevistas com a mãe, antes de ver Cláudia, entendendo ser também importante um recontrato.

Já naquele momento, eu pensava em minha posição como a de escuta do sujeito. Tratava-se de uma criança com problemas neurológicos, com dificuldades motoras, fonoaudiológicas etc. Mas também, para mim, havia indagações para além ou aquém disso. Que efeitos decorreriam do próprio diagnóstico médico de paralisia cerebral leve? Como teria este marcado o encontro dos pais com a filha?

Atender Cláudia era, para mim, entender que suas deficiências não apagavam um sujeito, era conceber o trabalho de analista em um terreno no qual os limites entre o orgânico e o psíquico não poderiam ser definidos com precisão. Era também apostar em algo por ser escutado para além do diagnóstico, pois a subjetivação não é simples subordinação às leis naturais e um diagnóstico de paralisia cerebral pouco pode dizer de um sujeito e sua estrutura.

Mannoni, ao se referir ao atendimento de crianças com déficits de capacidade, destaca o modo maciço pelo qual a família também se faz presente no atendimento, lembrando o trabalho analítico realizado com a psicose:

[…] por trás da máscara da debilidade, dissimula-se por vezes uma evolução psicótica ou perversa. Em outros casos trata-se de um equivalente psicossomático ao qual o doente se apega. Mas o que nos engana é a influência de uma família que se apega também ao lugar por ela atribuído à criança [9].

Com um bebê que nasce a qualquer preço…

Mas pouco tempo depois, a rainha morreu, e o rei viúvo acabou se casando de novo, com uma mulher bela e tão vaidosa, que trouxe consigo um espelho mágico, no qual se mirava e perguntava:
Espelho mágico, espelho meu,
Existe no reino mulher mais bela do que eu? [10]

Ao dirigir-me à sala de espera, chama minha atenção o contraste entre a aparência de Vivian, uma mulher bonita, alta, bem vestida, com longos e loiros cabelos, e seu discurso. Não se queixou das dificuldades. Referiu-se aos inúmeros tratamentos da filha, desde a vida intrauterina, sem mostrar cansaço ou desejo de fazer outra coisa. Ter uma filha a qualquer preço e seguir pagando caro… Havia um ar de resignação e um discurso no qual o sofrimento pouco aparecia. Um gozo deveria estar a mais nesta economia psíquica, que compensava, pelo menos nesse primeiro nível do discurso, o valor investido…

Escuto a história de Cláudia contada por Vivian, que inclui o casamento realizado, a princípio, por amor, e a nulidade de seu papel de mulher de seu marido, desde o nascimento da filha. Destaca que acabaram ficando juntos por Cláudia, condição de comodidade para ambos. Entendo que, da parte dela, o sentir-se cômoda está relacionado com a situação de depender financeiramente do marido, pois ela se dedicava exclusivamente aos cuidados com a filha. Deixara de ser mulher de Cláudio para ser mãe de Cláudia, cuja deficiência parece ter contribuído para justificar essa lógica excludente.

O casal enfrentara uma gravidez de risco, devido a sua incompatibilidade sanguínea. Vacinas não surtiram efeito e, ainda no útero, Cláudia sofreu várias transfusões de sangue. Ao nascer, passou dez dias na uti neonatal, teve deficiência respiratória e paralisia cerebral. Com um ano de idade, fez sua primeira cirurgia ortopédica, andou aos quatro anos e falou entre quatro anos e meio e cinco. Estava recomendada pelos médicos uma terceira cirurgia corretiva, mas Vivian disse que Cláudia se recusava a submeter-se ao procedimento [11]. Já havia passado por diversos tratamentos com fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psicólogo, fonoaudiólogo, neurologista, ortopedista, pediatra e psicopedagoga.

Quando a interrompo, para perguntar-lhe sobre como era, para ela, esse tempo, responde, placidamente, que sempre gostou muito de cuidar da filha, com muito prazer e “segurando sua onda”.

Há algum tempo o casal separou-se. Vivian passou recentemente pela perda de seus pais, com os quais voltara a morar depois da separação. Em sua família de origem, parecia ocupar a posição de alguém que protege os mais fracos. Seu ex- -marido está vivendo com outra mulher, de quem teve um filho, o Claudinho [12].

A procura pela terapia de Cláudia parecia relacionada com as dificuldades impostas pela nova realidade, diante da qual, segundo Vivian, a filha “se fechou como ostra”. Acrescentou que, em face de tantas perdas, “nós perdemos o referencial”. Nesta fala parecia transparecer uma indistinção entre as posições de mãe e de filha.

Se, para toda e qualquer mãe, o nascimento de um filho implica o luto de um bebê ideal, nos casos em que há, de fato, algum fator orgânico em jogo, pode entrar em cena uma delicada e intrincada trama e, nela, o lugar que a dificuldade virá a ocupar na fantasmática materna. Tenho as primeiras notícias de que a doença ocupa um lugar de relevância no psiquismo dessa mãe. Parece-me haver um prazer atrelado a um poder de alguém que, diante da situação, tem força para contrapor-se ao mar.

Colette Audry [13] comenta a luta das mães por seus filhos débeis: quando ninguém mais teria esperança, elas continuariam a buscar alternativas. Para a autora, a resignação impossível nos fala de uma luta da mãe, que, no fundo, seria por sua própria existência. Esta englobaria a debilidade do filho, que, por sua vez, a protegeria em relação a uma angústia profunda.

Haveria ambiguidade em face da doença. Se, por um lado, pode-se pensar no drama de um narcisismo ferido para além da não coincidência do filho real com o ideal, por outro, a deficiência orgânica da criança passa a ter um lugar do qual, para a mãe, é difícil abrir mão. Atingiria o paradoxo de lutar a favor e contra o desaparecimento da parte doente.

Para Mannoni [14], a relação entre mãe e filho, nos casos de comprometimento orgânico, fica marcada pela morte, negada sob o disfarce do amor sublime, da recusa consciente, ou, até mesmo, da indiferença patológica. Contudo, para a autora, as ideias de homicídio existem, mesmo que delas não se possa ter consciência, estando, às vezes, no desejo de suicídio, que não distingue de quem, entre mãe e filho.

Branca de Neve

A rainha-madrasta, que na verdade era uma bruxa disfarçada, ficou tão furiosa que decidiu livrar-se logo da jovem rival: mandou chamar um caçador a quem ordenou que levasse a princesa para a floresta e a matasse e lhe trouxesse o seu coração como prova.[15]

É a mãe quem, diante das primeiras vivências do filho, experimenta as dimensões de vida e morte de seu bebê. Entendo que esta onipotência materna foi posta em cena por Cláudia, por meio da história de Branca de Neve, depois de certo tempo de atendimento. Para Zalcberg:

O que impera é seu poder: suas respostas constituem lei ou regulamentos, suas demandas são mandatos, seus desejos são desígnios. Quanto mais uma criança viver sua mãe sob a chancela de seu poder de doação, mais ela é vivida como potência de dar a vida e, paralelamente, maior sua potência de dar a morte, além de amor. [16]

Na história de Branca de Neve, o poder de vida e de morte é desmembrado nas figuras da mãe e da madrasta. Mas, segundo o casal Corso [17], a mãe boa é menos expressiva que a madrasta má; note-se que é esta última que sobrevive, em uma figura tão bela quanto perversa.

Só um terceiro poderá, com o consentimento da mãe (e este dependerá do lugar que a criança ocupa na fantasmática materna), ter uma função mediadora, capaz de tirar a criança dessa alienação. Disso dependerá seu futuro desenvolvimento. Penso que a paralisia cerebral não pode ser entendida como algo que se sobrepõe à importância da constituição do sujeito, mas, sim, como um elemento que permeia as complexas operações de alienação e separação.

Mas um corpo de menina começa a surgir daquele corpo de bebê…

Mas a assustada princesinha correu o dia inteiro pela floresta adentro, e só ao cair da noite deu com uma jeitosa casinha no meio de uma clareira. Ela empurrou a porta que estava só encostada e entrou timidamente. [18]

Sou avisada da chegada de Cláudia. Abro a porta que liga a parte interna da clínica à sala de espera. A aparência da menina chama minha atenção, pelo contraste com a beleza da mãe. Cláudia está sentada bem pertinho de Vivian, encostando- se nela. Sua boca deixa escorrer saliva, um de seus braços repousa torto sobre sua perna, seu corpo mostra os efeitos da paralisia cerebral, seus cabelos curtos e suas roupas não deixam declarados, pelo menos à primeira vista, se estou diante de uma menina ou de um menino. Contudo, também me encontro com seu olhar vivo e com sua “filha”, a boneca que carrega no colo. Quando percebe que me aproximo, levanta-se do banco.

Ando em direção às três e me apresento às duas que ainda não me conheciam. Cláudia despede- se de sua mãe, fala com a “filha” e pergunta- me aonde iremos. Sou tomada pelo temor de não compreendê-la, já que sua fala revela uma dificuldade de articulação, as palavras são expressas de maneira muito peculiar. Curioso efeito transferencial, que já anunciava algo do trabalho a ser realizado.

Passado o impacto inicial, dei-me conta de que Cláudia e sua filha já estavam na sala de atendimento. Eu trouxera comigo uma caixa com brinquedos, folhas, lápis. Mas a entrevista inicia- se com ela contando-me de sua filha, a quem se referia pelo nome; disse-me que dormia com ela. Disse que estava muito feliz, pois o pai a deixara pegar “seu pequeno”. Esta frase foi repetida inúmeras vezes ao longo da entrevista [19]. De maneira confusa, que em alguns momentos chegava a ser caótica, referiu-se ao funcionamento da casa em que morava e comentou que o pagamento da feira era feito pelo tio, acrescentando: “Eu não quero banana, minha mãe quer que eu coma banana”. O assunto das comidas prosseguiu mais um tanto. Eu não conseguia compreender parte do que dizia sobre suas preferências e gostos.

A entrevista foi marcada pelo discurso fragmentado. Se, por um lado, Cláudia parecia reconhecer-me como interlocutora, por outro, era como se conseguisse apagar minha presença, em vários momentos. Foi por meio da boneca que pudemos nos manter em contato.

Quando propus que desenhasse, pediu-me para segurar a boneca, que não parava quieta. Eu falava com ela e com a boneca. Cláudia riu muito, mostrava estar se divertindo com a conversa a três. Uma filha que tinha a palavra também dirigida a ela!

Ao terminar, disse que desenhou a si mesma, sua filha, seu “pequeno”, seu pai e sua tia. No desenho, composto principalmente por uma garatuja, a única figura humana ora era apontada como sendo a boneca-filha, ora como a própria Cláudia. Vi um contraste entre sua mobilidade e independência para manipular, abrir, fechar, guardar objetos e sua capacidade de representação pelo desenho. Apontei para a sua habilidade. Mostrou estar cansada de desenhar; sugeri que começássemos a guardar os materiais. Para mim a sessão podia ser encerrada. Mas não para ela: “Mas eu ainda não brinquei”.

Escolheu o jogar bola. O jogo foi entre ela e sua filha (eu segurava a boneca como se esta jogasse). A menina-boneca ficou cansada e, quando eu disse isso, Cláudia sugeriu que ela ficasse apenas olhando.

Quando avisei que estávamos no final de nosso tempo, pediu que eu escrevesse no seu cartão o dia da próxima entrevista. Perguntou sobre a saída e, nesse momento, começou um jogo, que passou a fazer parte do ritual de despedida: corria provocando uma competição, que se tornava motivo de muita risada. Quando chegamos à sala de espera, um comentário de Vivian deu-me notícias dos efeitos: “Puxa, acho que foi bom, pois entrou quietinha e saiu rindo tanto!”

Colocava-se, para mim, a tarefa de não permitir que o comprometimento orgânico obstruísse minha escuta analítica, de ultrapassar o rótulo da paralisia cerebral para considerar o intrincado terreno da constituição de Cláudia como sujeito. Ao primeiro contato, ela me fez desconfiar de suas incapacidades e despertou em mim a pergunta, que me acompanhou por muitas sessões: o que estaria perturbado, no nível da linguagem, para além da dificuldade fonoaudiológica de articulação das palavras?

Nosso encontro seguinte iniciou-se com uma longa fala acerca de “seu primo”, o irmão, que até aqui tinha sua posição negada. Eu me perguntava quem teria iniciado a negação.

Proponho a Cláudia que mostre a composição de sua família. Enquanto ela me fala como é, vou representando sua árvore genealógica e me dou conta de que, para ela, as relações de parentesco são muito confusas, especialmente pelo fato de as mulheres serem todas filhas [20]. Sem dúvida, isto diz algo a respeito dela, mas não só. Como poderia ocupar outras posições para além da de filha? Cláudia aponta para aspectos da filiação e da maternidade. Ao tentar estabelecer as conexões, fica cansada, pede para guardar os materiais. Aparece a angústia.

Volta para a bola e o jogo, lugar de agilidade motora e júbilo. Mas a analista não faz uma boa jogada, mostrando-se aquém do esperado por ela. E por mais que eu estivesse me esforçando, não conseguia… Cláudia encerra a sessão, novamente a angústia aparece. Nomeio o vivido ali.

Pergunto-me outra vez sobre a estruturação psíquica de Cláudia. Escuto, muitas vezes, que ela é quase um apêndice para sua mãe, uma parte do corpo desta, um órgão comprometido. Mas também acompanho a luta de uma menina para tornar próprio o seu corpo, para ter um corpo apesar das dificuldades, um corpo que ganhe contornos de menina. Nas sessões, alternam-se um funcionamento psíquico muito cindido, acompanhado por uma fala desconexa, e uma fala precisa acerca de sua situação no drama familiar e pessoal. S

uas deficiências no campo biológico não permanecem no puro real. O corpo material pode, por meio da mediação do Outro, inscrever-se em uma rede relacional, por meio da qual a criança construirá sua imagem. Cordié [21] lembra-nos de que o advento do sujeito só ocorre à medida que o corpo real se apaga. Ora, os tratamentos precoces de Cláudia estiveram bastante focados na correção, na reeducação de um corpo falho e inapto, como se ela fosse um corpo e não que tivesse um corpo [22].

Cláudia pega seu cartão e solicita que eu marque seu próximo dia. Subindo a escada da clínica, entre gargalhadas e comentários, vamos encontrar sua mãe, com uma expressão de dor, na sala de espera. Algum tempo mais tarde, venho a saber que se iniciavam seus problemas uterinos.

Na entrevista seguinte, ocorre a primeira falta de Cláudia, sem que a clínica tivesse sido avisada. A função burocrática cumpridora dessa mãe, atrelada ao gozo no cuidado, tinha se quebrado. Segundo Cláudia, no jogo, havia falta de habilidade de sua analista. Na sessão seguinte, ela falta. A falta marca a ausência, primeira de muitas, ao longo do atendimento.

Qual o lugar do trabalho analítico para uma criança com comprometimentos orgânicos que não podem ser negligenciados? Vivian falara da atrofia devido à falta do tratamento fisioterápico. Mannoni [23] chama a atenção para o quanto a desordem psicomotora também pode referir-se à relação fantasmática do sujeito com a mãe e do sujeito com seu próprio corpo. Se, por um lado, há, no discurso da mãe, um corpo invadido, tratado, tomado, por outro, Cláudia me mostra um corpo vital e potente.

Indico um trabalho fonoaudiológico para que Cláudia possa articular melhor as palavras e comunicar-se de modo mais eficiente, ter condições para um contato maior com outras crianças e adultos, sem depender da tradução de sua mãe. Sobre a linguagem em seu aspecto analítico, penso no embate entre a fixação no papel que lhe fora atribuído (“a qualquer preço”) e a possibilidade de falar em nome próprio.

A relação mãe-filha

Zalcberg considera necessário, para que a menina possa formar sua feminilidade distinta da de sua mãe, que esta última possa viver simultaneamente a maternidade e a feminilidade. Se, em um primeiro momento, a criança buscará ser aquilo que satisfará sua mãe, isto é, o falo, com a entrada do pai e da função simbólica, a primeira separação mãe-filha seria o afastamento da realização dos desígnios maternos.

No caso do nascimento de uma filha que traz no corpo marcas da deficiência, quais as consequências para a relação desta mãe com seu próprio corpo?

Vivian fala de uma ligação muito intensa com sua frágil filhinha, que pensa ter motivado o afastamento entre ela e seu marido. Menciona sua depressão e a falta de apoio do marido e da mãe [24]; “não tinha ninguém em quem me apoiar”, “não queria sair da cama”. Mãe e filha lançadas no desamparo, ao risco de morte iminente.

Escuto o registro de um tempo em que mãe e filha estão imersas no mundo do “a qualquer preço” e “se apegando demais”. Há um excesso, um a mais, não há espaço de diferenciação para o estabelecimento de um vínculo que não seja da ordem do sacrifício. Se levarmos em conta as palavras de Zalcberg [25] segundo as quais “da terna submissão até as reclamações impiedosas, os conflitos de mães e filhas parecem excessivos”, cabe ressaltar o campo de entrelaçamento que anuncia zonas de indiferenciação que virão a aparecer no real do corpo.

Quando o pai se aproxima…

Ligo para o pai de Cláudia que pela primeira vez vem à clínica. Fiquei surpresa com o quanto falou da filha e de si. Um pai que responde ao chamado e ocupa com suas palavras o encontro. Parecia apostar mais nas capacidades de Cláudia, mas, simultaneamente, deixava escapar certa recusa em admitir efeitos das condições atuais de sua filha: “Queria que ela assumisse sua deficiência de forma tranquila, para viver uma vida normal”.

Pareceu-me que no início mostrava certa negação em face da situação da filha, projetando um futuro que não implicava as dificuldades enfrentadas. Falou muito de si próprio, de seus problemas financeiros e familiares, da falta de seu pai, que se separou da mãe quando ele tinha dez anos [26], de sua posição de provedor de sua família de origem e de Vivian. Suas sérias dificuldades financeiras estavam relacionadas com uma história de ter sido enganado por seu irmão, do qual ainda assumira as dívidas. O atendimento de Cláudia na clínica do Sedes era, para ele, mais uma prova de sua decadência e impossibilidade de custear bons médicos, bons hospitais e bons terapeutas por meio de bom seguro-saúde para sua filha. Pontuei um lugar imaginário de deficiência, no qual também estava colocado o atendimento analítico.

E outros personagens entram em cena…

Cansada e faminta, Branca de Neve sentou-se um pouco em cada cadeirinha, e provou um pouco de comida de cada pratinho, para não prejudicar ninguém. [27]

Vou à escola para falar com a professora. Ela se refere à mãe como ausente e à filha como uma aluna pouco disposta a enfrentar desafios, diante destes chora e chama pela mãe. Mostra-se indignada com o descuido da mãe em relação às roupas de Cláudia, aos materiais, e às solicitações de presença em reuniões na escola.

Na história do atendimento na clínica, as faltas às sessões são novidade. Se, por um lado, eu pensava nos efeitos de algo que deixava de ser monocromático, rotina, no sentido pejorativo, por outro, preocupava-me que as faltas estivessem se intensificando. Entendia estas como uma reação ao crescimento, ao corpo que ganhava novos contornos, à imagem de menina que aparecia, destacando-se do corpo defeituoso. Penso também em uma atuação da resistência da mãe.

Faço contato com o neurologista de Cláudia. Ele define a paralisia cerebral como leve, porém irreversível. O foco convulsivo de Cláudia, que gerava grande medo na mãe, estaria controlado, e os exames de ressonância tinham mostrado que tudo ia “super bem”. O interesse desse médico recaía sobre o desenvolvimento cognitivo da menina.

Volto a pensar sobre os efeitos, no corpo de Cláudia, do lugar que a enfermidade ocupou para seus pais, confrontados radicalmente com a falta. Mannoni [28] destaca que uma deficiência pode acarretar uma evolução grave, tanto da ordem da neurose quanto da psicose, mais justificável pela resposta materna do que pela deficiência em si.

Aposto na prática analítica como oportunidade de a analisanda integrar esquema e imagem corporal. Para tanto, era preciso construir pontes entre os cuidados dispensados pelos inúmeros especialistas, escutá-la como um sujeito que tem um corpo e, simultaneamente, escutar o lugar que ocupava para sua mãe e seu pai. Nesta complexidade, caminhava o trabalho.

Surge Branca de Neve e/ou a maçã…

A rainha ficou roxa de raiva. “Aquele caçador me enganou”, berrou ela. “Mas Branca de Neve não me escapará! Desta vez eu mesma cuido de acabar com ela!” E no mesmo instante ela transformou-se numa velhota, encheu uma cesta de apetitosas maçãs e, transportando-se direto até a casa dos anões, bateu na janela. [29]

A bola vai e volta pela sala. São chutes, dribles, gols, mas também bolas fora e furos. Risadas permeiam o jogo. Estou cansada e peço para parar um pouco. Sento-me no chão para descansar e tentar acalmar minha respiração ofegante. Olho para Cláudia, que me pergunta se já podemos voltar. Para ela, o jogo apenas começou.

Minha recomposição inclui lavar as mãos e o rosto. Cláudia aproxima-se da pia, para beber água. Sou tomada, de surpresa, pela constatação de que parte importante da quantidade de água que coloca na boca escorre pelo canto. Seria óbvio atribuir esta condição à paralisia cerebral.

Surge a mim uma inquietude em vista do contraste entre um corpo tão competente e, por hora, apropriado, e outro, simultaneamente invadido, cortado, defeituoso, manipulado, carregado de profissional em profissional… “Vamos?!” Ela interrompe aquele lampejo reflexivo e me recoloca na posição de jogadora.

Em outra sessão, repete insistentemente uma palavra. Tenho sérias dificuldades para entender o que diz. Fica irritada com minha incompreensão, o que pontuo para ela. Digo que ela está brava comigo porque não consigo saber do que está falando, mas que podemos tentar juntas. Finalmente, depois de inúmeras tentativas durante as quais fica irritada, mas sem desistir, escuto que me conta sobre a maçã, Branca de Neve e os sete anões.

Pude ir compreendendo um pouco mais a dramática em jogo. Uma bela mulher teme ser superada pela menina que começa a se tornar mulher… Como destino, ocorre a morte por envenenamento, mas, na última hora, Branca de Neve, ao ser conduzida ao palácio de um príncipe que por ela se apaixonou, é salva por um tropeção, que faz desentalar o pedaço da maçã de sua garganta. A madrasta e sua ameaça passam a aparecer em algumas sessões. Acrescento ao material um livro e dedoches [30] da Branca de Neve.

Um veneno ameaça uma menina que cresce…

É o significante maçã que aparece e, com ele, somos tomadas pela angústia. Eu pude sentir na pele, já que, por mais que me esforçasse, também estava lançada no terreno do enigma. Mas, se surge a angústia, surge com ela a possibilidade de trabalho.

Com o que Cláudia se identificava? Com Branca de Neve ou com a maçã? Branca de Neve talvez pudesse aparecer em outro lugar, que não aquele ocupado por seu corpo/maçã, um corpo/ maçã à mercê de ser devorado e causar estragos naquele que o incorpora. Há sinais de passividade em face do poder do Outro, passividade talvez revivida durante os longos períodos de engessamento e uso de talas ortopédicas.

Começo a perceber algumas mudanças significativas em Cláudia. Sua boca já não insiste em deixar escapar a saliva. Fala de suas roupas, mostra- me com orgulho seu novo par de tênis cor-derosa. Logo começa a vir de bolsa e a trazer objetos, presentes de seu pai. Posso recuperar algo daquela imagem que vira nas fotos de bebê da sessão conjunta com sua mãe. Um bebê bonito, sentado em um bebê conforto. Naquele registro não eram visíveis ainda os efeitos corporais da paralisia cerebral. Esta lembrança contrasta com a descrição de sua terapeuta anterior, que pudera perceber e falar, primeiro na sessão com Cláudia e depois diretamente com Vivian, de talas ortopédicas que feriam seus pés já crescidos. Era um crescimento do qual quase ninguém parecia se dar conta.

Agora, era Cláudia quem me falava, com júbilo, de sua possibilidade de tomar banho sozinha, embora sua mãe não apostasse nisso. As brigas eram constantes; Cláudia sentia-se capaz de cuidar de seu corpo e sentia raiva por não ter sua possibilidade reconhecida.

Segundo Cordié, “temos um corpo, não somos um corpo. Nos lembra Lacan, pois ter um corpo é ter dele uma representação, mas é também desfrutar dele, é ter construído um corpo libidinal” [31].

Começa a surgir o assunto da alfabetização. Agora é Cláudia [32] quem me pede para escrever, registrar nossos nomes no quadro de contagem de pontos. O pai compra para ela um pote com letras e a professora fala de avanços na escola.

Questões corporais se fizeram presentes em Vivian a partir das mudanças ocorridas em Cláudia. Era preciso outro espaço de escuta para ela, além do que ocupara na análise da filha. Comecei a introduzir a ideia. A saúde de Vivian dava mostras de fragilidade, sua fala começava a fazer referência ao sofrimento e expressar seu modo de sentir qualquer movimento de diferenciação de Cláudia como ato agressivo.

É certo que estávamos no terreno da agressividade, pois somente por meio desta é que se torna possível uma diferenciação que marca também limites corporais distintos, mas a mãe sentia este movimento, tão vital, como um ataque de alto poder.

Atenta aos efeitos da análise de Cláudia em Vivian, eu temia por ambas. A tentativa de encaminhamento de Vivian para análise fracassou, embora ela tenha concordado no início. Eu continuava então a manter um espaço de escuta que pudesse, mesmo que de forma precária, mobilizar alguma palavra, pois Vivian estava enfrentando sérias crises de endometriose, com mais de uma ida ao pronto-socorro por hemorragia. O momento coincidia com o aparecimento de um corpo da filha menos marcado pela incapacidade, um corpo que, com as marcas do sofrido, ganhava contornos mais femininos. Eu sentia os riscos, para Vivian, de que algo do real, do seu corpo, irrompesse a qualquer momento. Passei a encontrá-la com maior frequência.

Cláudia segue faltando, Vivian mostra-se bastante defendida e pouco permeável. Procuro nomear o que está ocorrendo, o quanto está difícil para ela trazer Cláudia para o atendimento e o quanto as faltas impedem que o trabalho prossiga. A passividade de Vivian, ao levar Cláudia a inúmeros tratamentos ao longo dos dez anos, quase uma resignação diante da “doença”, não mais se mantém, mas algo a ameaça. Telefono novamente para Vivian. Sou informada, por ela, sobre sua cirurgia para retirada do útero. Diz que se sente como “quando Cláudia nasceu”!

Na volta de minhas férias, Cláudia não comparece à primeira sessão. Espero a segunda e telefono mais uma vez. Depois de muitas tentativas, consigo falar com Vivian e retomo o contrato acerca das faltas. Ela se compromete com o retorno, que não ocorre. Fazia-se necessário colocar palavras naquilo que se dava a ver. Uma intervenção precisava pontuar o que estava acontecendo.

Ligo uma última vez para dizer que percebo não estar sendo possível para eles [33] a continuação do trabalho. Sugiro a Vivian, quando julgar possível voltar, fazer contato com a clínica para agendar um novo processo de entrevistas. Ela me agradece e nos despedimos.

Quando nos dispomos a trabalhar com crianças,

[…] mudando a relação do sujeito com o mundo, chocamo- nos infalivelmente contra os adultos que, por suas próprias dificuldades, criaram na criança esse tipo de relação. É preciso que os adultos possam aceitar a cura daquela que, pela sua doença, veda a ferida dos pais. [34]

Se não se pode desconsiderar o componente orgânico, no caso, as consequências da paralisia cerebral de Cláudia, com seu atendimento, aprendi sobre os efeitos de um trabalho da análise diante de percalços na constituição e na construção da feminilidade. Assisti a mudanças corporais oriundas de uma mudança de posição subjetiva, ainda que esta fosse incipiente.

O sacrifício, que fixava a menina como filhaobjeto, colocava-a como projeto de vida da mãe. As mudanças em Cláudia, como era de esperar, tiveram efeitos também sobre Vivian. Provavelmente, a filha sabia do perigo. Muitas crianças, segundo Cordié [35], recusam-se a modificar seus comportamentos patológicos, em nome de proteger ambos os pais ou um deles.

Sabia que o trabalho desenrolava-se em um terreno muito complexo, no qual a delicada e imprescindível separação mãe/filha estava em jogo. Nas palavras de Audry: “o psicanalista é quem desenreda os fios do destino, faz chegar à palavra o universo imaginário que assedia seu pequeno doente. É quem desobstrui os caminhos da liberdade” [36]. Entendo que pensar em liberdade, no caso de Cláudia, era pensar em outro registro de filha, que não o de parte do corpo de sua mãe.

A interrupção do tratamento coincide também com uma ruptura do equilíbrio familiar, do qual fazia parte a menina aprisionada em um diagnóstico, adormecida, suspensa, impedida de despertar como sujeito. E o que cabe a uma analista além de escutar um sujeito?



"Tu pouco dás quando dás de tuas posses. É quando dás de ti próprio que realmente estás dando. É belo dar quando solicitado; é mais belo ainda dar quando não solicitado; dar por haver apenas compreendido."

Khalil Gibran