quarta-feira, 23 de abril de 2014

QUEM É ESSE OUTRO E O CULPADO DE TUDO DE MIM.....

Quem é esse Outro que “habita” em mim?
Situações embaraçosas, escolhas de caminhos tortuosos, pensamentos repetitivos, sofrimentos que poderiam ser evitados...
Quem é o causador? (leia-se causa-dor).
O porquê disso tudo? É o destino? É carma? É azar?
Porque mesmo querendo fazer diferente algumas pessoas não conseguem?
Porque não conseguem ser senhores de suas escolhas?
Alguns buscam a resposta na ciência, na religião, no cosmo ou nas estrelas, etc.
Outros, inconformados e cansados de tanto sofrer munem-se de coragem (pois é preciso ter coragem para enfrentar os próprios fantasmas) e encaram uma análise.
Chegam um pouco desacreditados em relação ao que vão encontrar.
Perguntam se é melhor tomarem remédios...
Pois o problema pode ser um hormônio enlouquecido ou uma enzima que não funciona.
Mas essa é uma tarefa difícil, pois existe todo um percurso a percorrer, já que “é mais fácil procurar culpados” e o culpado primeiramente é sempre o outro: o pai, a mãe, o chefe, o namorado, namorada, o gene ou uma molécula, etc.
Um outro fala além de mim?
“Não sou dono de todas as minhas vontades?”, perguntam-se.
Somente depois é que descobrem que esse outro que governa seus pensamentos, seu eu e sua vida é um outro dele mesmo, é um outro que “habita” dentro dele á ponto de fazê-lo tomar essa ou aquela atitude.
Custam a acreditar que essa força que é maior que sua vontade e que os impulsionam a sofrer, provém deles mesmos e quando finalmente não conseguem mais negar, começam a se responsabilizarem pelo que dizem e fazem.
Quando isso acontece, surpreendem-se e até se divertem com as descobertas.

Esse outro, responde pelo nome de Inconsciente. Inconsciente esse, que Freud descobriu nos idos de 1889 com suas pacientes histéricas, quando escutou que o sofrimento delas transcendia ao seu organismo e tinha uma força tão grande que era capaz de controlar a vontade e o corpo delas.
O inconsciente é uma instância simbólica, que é autônoma em relação ao eu do sujeito.
É algo que governa ou desgoverna a vida do sujeito, é o que não descansa nunca, pois ele conta, reconta, calcula, conta a dor, a morte, a vida do sujeito.
Até quando dormimos ele está de plantão, “como um capitalista que não pára nunca”, e que produz os mais belos sonhos e bizarros pesadelos.
Esse inconsciente, o freudiano, é o inconsciente que traz o selo das palavras escutadas na infância, dos significantes primordiais que marcaram o sujeito desde que ele nasceu.
Aliás, desde antes dele nascer, pois tem relação com sua história familiar, com os costumes de sua família, pois assim como os traços genéticos, eles também são transmitidos através das gerações.
É verdade que desde a filosofia falava-se de inconsciente, como contrário a consciência, na antiguidade ele foi interpretado como uma força demoníaca vinda do além, ou algo das profundezas das águas infernais.
Mas, o inconsciente freudiano é um inconsciente que representa um saber insabido.
As pessoas falam diversas vezes e não escutam verdadeiramente o que dizem, tem um desconhecimento tão grande em relação ao que dizem que é como se fosse uma “língua estrangeira” para eles.
Realmente a surpresa que demonstram é grande quando escutam e entendem que o que eles dizem tem relação com o que sentem em seu corpo e seu sintoma, que suas palavras falam mais do que eles intencionavam.
Esse é o inconsciente do qual estamos falando.
As repetições que tantas vezes os sujeitos incorrem e que são considerados destinos, azar ou carma (dependendo das crenças) são efeitos e resultados de repetições inconscientes.
Muitas vezes repetições que respondem ao que foi escutado na infância do sujeito.
Sendo o sintoma algo mais forte que o sujeito, maior que sua vontade, algo que o incomoda, faz sofrer, e traz prejuízos, isso o desconcerta, o desequilibra e faz dele um fantoche de seu inconsciente.
A análise deste “terreno” inconsciente, que traz á tona os equívocos, os tropeços de linguagem e as armadilhas, faz com que cada um, o descortine, e saiba quais são os significantes que marcam sua existência e que os empurra a fazer suas escolhas, seu modo de amar e de gozar (entendam aqui gozo no sentido psicanalítico como uma satisfação que nem sempre é prazerosa).
E quando o sujeito consegue decifrar em análise seu sintoma, descobre a causa de seu sofrimento, o porquê de suas repetições, das rupturas dos laços afetivos, do uso de entorpecentes, das doenças repetitivas, etc.
No trabalho analítico, o analista escuta algo além da intencionalidade, escuta aquilo que na palavra do sujeito o trai, o que lhe atravessa.
É como se as palavras pulassem de minha boca, mas não era o que eu queria dizer”, disse um paciente.
Ora, é exatamente o que ele queria dizer, porém não sabia que o queria. E saber sobre isso lhe abre uma nova perspectiva, pois ele pode fazer algo diferente agora.
Nos tempos atuais encontramos um grande número de sujeitos que são acometidos de patologias, doenças e sintomas que levam a uma destruição de seu corpo.
Doenças muitas vezes que desconcertam o saber médico e quando essas mesmas pessoas estão em análise e se questionam sobre o que sentem, falam sobre a doença que tem, sobre seu corpo adoecido e assim, se colocam como sujeitos, não se reduzindo a ser um corpo ou uma doença.
Questionam-se e dessa forma não creditarão mais o que sentem ao seu cérebro e a seu funcionamento orgânico e sim a seu pensamento, afetos e seus ditos.
Quando o sujeito se interessa em saber o porquê de seu sofrimento, não mais se oferecerá como objeto de estudo para outros.
Sendo o inconsciente um saber não sabido, um saber que o sujeito têm, mas que não está acessível para ele conscientemente, ele necessita de um Outro - o analista – que o escute e marque em seu discurso onde ele tropeça, o que ele repete, as armadilhas e as “sabotagens” que se faz.
Esse acesso é possível porque é registro do inconsciente que o analista opera. 

"Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou" 

 Lacan 


Andreneide Dantas é Psicanalista
Fonte Consultada: Clínica Escuta Analítica