sábado, 28 de julho de 2012


Trecho de O Ciclo da Auto-Sabotagem, de Stanley Rosner e Patricia Hermes
Capítulo 1
Repetição de comportamentos de identificação primária: conformidade versus autonomia
Muitos de nós gostam de criar, experimentar, viajar, aprender, crescer — tornar-se alguém.
Mas existem pessoas que além de não conseguir enfrentar esses desafios e aventuras, são incapazes até de imaginar tal coisa.
Esses indivíduos agarram-se à crença de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem — freqüentemente dos pais.
Essa imitação dos pais é conhecida como "identificação arcaica".
A menininha que se equilibrava nos sapatos de salto da mãe cresce para se tornar uma adulta que forçosamente usará o mesmo tipo de sapato. O garoto cuja família sempre passava as férias numa choupana em Rainbow Lake, cresce e insiste em levar a família para a mesma choupana em Rainbow Lake — às vezes, para a tristeza de sua atual família.
Outros cozinham da mesma maneira que a mãe cozinhava (mesmo que os resultados possam ser aprimorados), vão para a mesma igreja, sinagoga ou mesquita, freqüentam o mesmo teatro, e, às vezes, até moram na mesma casa.
Para esses indivíduos, tanto na vida real quanto na íntima, não há espaço para a mudança, para a inovação, não há espaço sequer para a imaginação.
Mas o que será que faz os indivíduos engajarem-se nesse comportamento repetitivo, nessa identificação arcaica, mesmo à custa do próprio eu? Se alguém lhes perguntasse, a resposta mais freqüente seria: "Bem, é a maneira correta.
" Também é confortável e familiar, e mudar não é fácil. Crianças pequenas querem e precisam adquirir estrutura.
Elas precisam de exemplos de comportamento. Elas buscam liderança nos pais. Então, o que há de errado nisso?
Nada, claro.
O que está errado, no entanto, é que alguns pais comunicam aos filhos que a sua maneira de ser é a superior. A criança cresce acreditando que todos são inferiores a seus pais. Ninguém é tão bom ou tão correto quanto os pais. Para apoiar seu ponto de vista, esses pais podem zombar da permissividade, da polidez ou do estilo de vida dos outros. E isto é fato, mesmo quando coisas terríveis estão acontecendo no lar.
Se os pais são esbanjadores, comprando tudo que aparece na frente, a criança percebe que é dessa maneira que as coisas devem ser. Ela não tem noção de que os pais podem estar à beira da falência.
Se os pais são alcoólatras e a casa é uma bagunça, então a criança entende que pais são assim e que é desse modo que os lares são. Se os pais são cruéis e punitivos, então a mensagem é que essa é a maneira de manter a disciplina e de frear os desejos perigosos e desregrados de alguém.
Somente quando a criança cresce e observa outros estilos de vida, começa a questionar se o estilo de sua família é realmente o único, ou se é o melhor.
Trata-se de uma etapa normal do desenvolvimento, mas para famílias repressivas, como as que menciono aqui, é justamente neste ponto que batalhas terríveis se iniciam, batalhas que por vezes duram toda uma vida. Como se confrontar com pais tão dominadores e controladores?
A criança fica apavorada.
É um medo real e imenso, porque envolve a única coisa que nós precisamos e pela qual ansiamos — o amor.
Se a atitude da família pouco amorosa determina que só posso gostar de você se você for igual a mim, a criança entende que só poderá ser amada sendo os próprios pais, não ela mesma.
E, assim, começa a se desenvolver o estilo de vida repetitivo da identificação arcaica — identificação absoluta com os pais. Isto, por si só, já é uma tragédia e tanto.
A próxima tragédia é que a criança adulta começa agora a fazer o que os pais faziam, sempre tentando alcançar o amor — comportando- se exatamente como eles.
É uma maneira triste de viver a vida, e o trabalho com pessoas oprimidas me mostrou que é um modo de viver difícil de ser mudado. A criança em fase de crescimento não poderia arriscar-se a ser ela mesma, porque isto traria rejeição e raiva.
A criança adulta leva isso adiante. Mas há outra batalha subjacente acontecendo.
Aqueles que imitam os pais renegam e acobertam um desejo real de se libertar.
Eu quero muito me libertar.
Quero tanto ser livre.
E fico possesso com você, por não me permitir a liberdade. Mas eu preciso de você.
Sem você, fico sozinho. Sei como consertar isso.
Serei exatamente como você, exatamente da maneira que você quer que eu seja, e assim você me amará, nem você nem eu saberemos quanto o odeio, quanto quero me ver livre de você.
É apavorante, e triste também.
E porque a maneira deles está correta e a dos outros está errada, aqueles que repetem essas identificações primárias caem no mesmo padrão. O mundo deles é o melhor dos mundos; as regras de comportamento deles são as corretas e apropriadas.
Mas, então, como esses indivíduos conseguem fazer terapia?
E por que um indivíduo como esses chega a pensar em fazer terapia? Afinal, ele está agindo do modo que considera correto.
Às vezes, a pessoa vem para a terapia por causa de conflitos causados por forças externas — o simples fato de conhecer pessoas ou mesmo de se apaixonar.
O ser amado pode pensar e agir diferentemente de sua família original, pode questionar os modelos e valores daquela família. Isso pode começar a minar aquele ponto de vista aceito e adotado por anos.
O que acontece a seguir é uma imensa confusão interior e, com isso, uma grande tensão no relacionamento com a família de origem.
Embora seja assustador, pode ser um bom começo. Geralmente nesse ponto, o indivíduo fica paralisado. Ele não consegue continuar reprimindo o impulso, em direção à liberdade.
Mesmo que não vá adiante, voltar atrás é impossível.
O que fazer?
Alguns movem-se para os lados. Começam a agir de modo passivo-agressivo, — externamente, concordam e aceitam as críticas aos pais, mas, por dentro, ficam se corroendo.
Este embate gera conseqüências para o indivíduo e para o relacionamento com a família.
Talvez seja nesse ponto que alguns indivíduos resolvem recorrer à terapia.
Às vezes os próprios pais determinam a terapia na esperança de que "endireite" a criança — leve a criança a se conformar.
Eles acreditam que o tratamento vai fazer com que a criança pare de se comportar daquele modo e se torne obediente, passiva.